Estive lá


 

Foi comovente ver a irmã dele falar.

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…entre as atividades está o reconhecimento pela Comissão da Anistia da condição de anistiado politico de Alexandre e a entrega para a família do jornalista Vladimir Herzog, também assassinado pela ditadura, de sua certidão de óbito corrigida. Os atos em homenagem ao estudante assassinado nos porões da ditadura foram batizados de “40 anos depois, Alexandre Vive!”.

Confira abaixo trechos de uma entrevista feita por Felipe Rousselet com Paulo Vannucchi, primo de Alexandre e ex-titular da secretaria nacional de Direitos Humanos, além da programação do “40 anos depois, Alexandre Vive!”. 

A história do assassinato de Alexandre Vannucchi Leme

Paulo Vannucchi – Alexandre Vannucchi Leme, um jovem nascido em Sorocaba que com 22 anos estudava o quarto ano de Geologia da USP, participava normalmente das aulas, tinha liderança, era querido pelos colegas, e desapareceu.

Poucos dias depois do seu desaparecimento, foi noticiado pela imprensa no pior momento da ditadura, que foi 1973, uma versão oficial e mentirosa, como mais tarde se repetiria no caso Vladimir Herzog, Manuel Fiel Filho e tantos outros, de que Alexandre teria sido preso como terrorista – não era -, e que, tentando fugir, foi atropelado por um veículo na região do Brás.

Dezenas de presos políticos que estavam no DOI-CODI, na rua Tutóia, em São Paulo, testemunharam em juízo, reiteradas vezes, o que ocorreu de fato em detalhes. Alexandre estava recolhido a chamada cela 0. O carcereiro veio abrir a cela dizendo para ele subir para o interrogatório, seguiu-se um silêncio e depois o carcereiro saiu gritando que o “homem morreu”. Em seguida, vários agentes do DOI-CODI vieram para simular uma blitz em busca de gilete, com o argumento de que o preso da cela 0 teria cometido suicídio com uma gilete. Portanto, antes de inventarem a versão do atropelamento.

A reação da resistência

Paulo Vannucchi – A diferença de Alexandre para dezenas de casos anteriores, de líderes estudantis igualmente assassinados, é que mesmo com todo o terror do regime político daquela época, os estudantes de Geologia, quando souberam da notícia decidiram paralisar as aulas, fazer uma greve. Isso na época era perigosíssimo, podia custar a prisão, tortura e espancamentos. Organizaram comissões e foram buscar esclarecimentos, providências das autoridades.

Nessa busca procuraram o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, grande nome da área dos direitos humanos que, de uma maneira muito corajosa, decidiu celebrar uma missa na catedral da Sé, no dia 30 de março de 1973, treze dias depois da morte do Alexandre.

Para se ter uma ideia, essa missa envolveu a formação de bloqueios na ponte da Cidade Universitária pelos agentes do DOI-CODI, para evitar que os estudantes viessem até a Sé. Dezenas de outras barreiras policiais também foram feitas. As três mil pessoas que estiveram presentes na missa em regra sabiam que estavam ali colocando o seu pescoço em risco, poderiam sair dali para o DOI-CODI.

Essa missa, celebrada por Dom Paulo Evaristo Arms e por Dom Angélico Sandalo Bernardino, teve a presença do cantor Sérgio Ricardo, que era conhecido por ser o autor da trilha sonora de filmes de Glauber Rocha. Ele cantou a música “Calabouço”, feita em memória de outro estudante, Edson Luis Lima Souto, morto pela PM do Rio de Janeiro em uma passeata no dia 28 de março de 1968, cinco anos antes. Calabouço era o nome do restaurante universitário onde os estudantes comiam e, quando foi anunciado o fechamento deste restaurante, os estudantes protestaram e um grupo de PM’s entrou disparando na manifestação. A morte de Edson Luis tinha sido o estopim para todas as passeatas estudantis no ano de 1968, incluindo a famosa passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro.

A missa do Alexandre antecipou em dois anos e meio a missa que o mesmo Dom Paulo Evaristo Arns celebrou em outubro de 1975, protestando contra a falsa versão de suicídio do jornalista Vladimir Herzog.

As homenagens pelos 40 anos da morte de Alexandre Vannucchi Leme

Paulo Vannucchi – Tem um encontro amanhã, às 12h, na própria faculdade de Geologia da USP, onde a Comissão da Anistia na presença do seu presidente, Paulo Abrão; do presidente da Comissão Nacional da Verdade, Paulo Pinheiro, e de outros membros desta comissão, da UNE, do DCE da USP, que foi batizado com o nome de Alexandre Vannucchi Leme. Ali, haverá uma sessão solene em que a Comissão de Anistia vai declarar Alexandre Vannucchi Leme anistiado político, pedindo desculpas em nome do Estado Brasileiro, aos seu familiares, colegas, estudantes da mesma escola e amigos por esta violência praticada pela ditadura.

O regime político é outro, mas o Estado Brasileiro é o mesmo, portanto ele é o responsável. Haverá também o descerramento de uma placa em homenagem ao Alexandre, e a Comissão Nacional da Verdade fará a entrega, à família Herzog, da certidão de óbito corrigida, porque esta Comissão encaminhou ao poder judiciário a solicitação, e conseguiu a emissão de uma nova certidão, registrando que ele foi morto sob tortura no DOI-CODI de São Paulo.

Hoje à noite, às 19h, no Centro Cultural Vergueiro, ao lado do metrô Vergueiro, com entrada gratuita, haverá um show em homenagem a Alexandre feito pelo mesmo cantor Sérgio Ricardo que, amanhã, na missa das 18h na Sé, voltará a cantar a canção Calabouço na missa celebrada pelo mesmo Dom Angélico Sandalo Bernardino, que co-celebrou com Dom Paulo a missa de 1973, 40 anos atrás. E o coral Luther King estará presente para cantar hoje uma música com Sérgio Ricardo. Haverá algumas intervenções sonoras e de iluminação, inclusive ali nas imediações do Centro Cultural Vergueiro, e também amanha na Sé. Então, são três atividades.

Resgatando a imagem

Paulo Vannucchi – São muitas as questões importantes. A mais positiva é resgatar de uma imagem, construída na época pela ditadura, da maldição. A mesma imagem que há muito tempo foi construída pelo Estado Brasileiro em torno de Tiradentes, enforcado na Inconfidência Mineira defendendo o sonho de uma Brasil independente de Portugal.

Por 100 anos, Tiradentes foi mantido com essa menção de “maldito’, de “bandido”, de “traidor”, seria a palavra ‘terrorista” que se usa hoje. E agora, menos de 100 anos após a morte de Herzog, de Alexandre Vannucchi Leme, de Marighella, de Lamarca, menos de 50 anos depois, o Brasil dá este passo de resgatar a imagem de lutadores pela liberdade, de diferentes maneiras, com diferentes métodos. São 400, 500, ninguém sabe ao certo, toda uma juventude estudantil, que participou da guerrilha do Araguaia, que deixarão de ser tratados como bandidos, traidores e terroristas, e passarão a ser reverenciados como lutadores e heróis da conquista da democracia que temos hoje. Democracia que ainda tem muitos defeitos, limites, que precisa melhorar muito, mas, sobretudo, traz para a juventude de hoje o sentimento que existem lutas sociais, lutas nacionais, coletivas, que são mais importantes que os meros interesses individuais.

Este país, tantas vezes tratado como um lugar onde tudo é errado, que o povo não é bom, é um país que sempre teve no seu povo os segmentos de resistência, que não aceitaram a opressão. Dos tempos de zumbi ao período de Alexandre Vannucchi Leme, Vladimir Herzog, Honestino Guimarães, presidente da UNE, e muitos outros.

Para as famílias, é um conforto que o Alexandre, o Herzog, estão sendo lembrados como vitoriosos. Saber que o Brasil se orgulha de ter essas pessoas como integrantes do seu povo lutador.

Punição aos torturadores

Paulo Vannucchi – Precisamente em 2010, o STF, que já errou outras vezes, como na expulsão de Olga Benário Prestes e em outros casos mais recentes, errou novamente.

Esse erro de 2010 foi um erro grave. Com exceção de 2 votos, prevaleceu a interpretação de uma maioria de que a Lei de Anistia de 1979 proíbe qualquer investigação. Interpretação errada que tem de ser corrigida e, na minha opinião, será corrigida. Será corrigida daqui a um ano, ou cinco, ou 20 anos, mas será.

O avanço da democracia levará ministros a repensarem e entenderem, mesmo que se considere que a Lei de Anistia não pode ser revista, porque existe o argumento que uma lei não pode ser feita para trás, mesmo assim é incorreta a interpretação que o texto da lei protege torturadores. Não protege torturadores. Pode-se argumentar que o que foi combinado verbalmente na época era a proteção de torturadores, mas não adianta fazer combinação verbal na hora de escrever uma lei, a lei tem de ser clara.

Quando a lei fala que estão anistiados os crimes conexos, a palavra “conexos” não tem a significação de qualquer tipo de estupro, assassinato ou ocultação de cadáver. Se a lei quisesse dizer isso teria que dizer literalmente: “estão anistiados todos aqueles que cometeram crimes no exercício dos interrogatórios e da repressão política”. Seria uma lei absurda, o regime não fez isso porque não reconhecia o uso da tortura e nem sequer a existência de presos políticos, eram todos terroristas.

Quando a democracia brasileira avançou e inviabilizou este processo, essa mentira, a cada dia vai avançar a consciência e a compreensão. E eventos como estes em homenagem ao Alexandre Vannucchi Leme são muito importantes para deixar claro que o Brasil precisa completar alguns passos da chamada justiça de transição.

Se me perguntarem se os torturadores tem de ser punidos, eu respondo imediatamente que sim, e serão punidos. Se me perguntarem se a punição tem de ser prisão, isso é uma outra discussão. Existem outras punições que não são prisões: punições morais, declaratórias, onde são declarados como responsáveis por violências sexuais, delitos que ferem até a honra militar e os torna indignos de terem servido aos poderes públicos. Essa condenação, muito mais que jogá-los numa cadeia, é que é indispensável para que os jovens de hoje compreendam que delitos dessa importância, quando praticados, poderão aguardar 10, 20 ou 30 anos, mas terminarão sendo examinados e haverá punições.

Já existe uma punição moral. Esses torturadores só conseguem vir a público dizer que não houve tortura e nenhuma pessoa sensata acredita neles. Eles estão derrotados e isso precisa ser formalizado nas leis brasileiras para que não volte a acontecer no nosso país nunca mais.

Punir os erros dos resistentes?

Paulo Vannucchi – A Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pelas Nações Unidas, em 1948, estabelece em 30 artigos as condições que todos os países precisam seguir para o mundo ter um clima de paz e harmonia.

No seu preâmbulo, a Declaração diz que é preciso estabelecer critérios de igualdade, de justiça e de liberdade para que os povos não sejam novamente impelidos ao exercício do direito de rebelião contra a tirania e a opressão. Este direito milenar e histórico, neste dia em que se anuncia um novo papa para o catolicismo, está em Tomás de Aquino, na Bíblia, tem sustentação teológica e também no pensamento político. John Locke é um pensador liberal que valoriza o direito de rebelião.

Então, instalada uma ditadura, existe o direito de rebelião. Quem se rebelou, os resistentes, não cometeram crimes, não violaram direitos humanos. Podem ter errado, cometido erros, e erros gravíssimos, porque toda a luta política, e, especialmente, toda guerra, envolve exercício de violência, de irracionalidade. Por isso, os defensores dos direitos humanos buscam, em primeiríssimo lugar, lutar pela paz. Instalada a guerra, os direitos humanos passam a ser violados.

Não se pode falar juridicamente, filosoficamente, eticamente, em termos das concepções da ONU, em violações dos direitos humanos praticados por resistentes. A violação destes direitos é um atributo histórico da violação que o Estado comete contra indivíduos.

Pessoas como o deputado [Jair] Bolsonaro, e de alguns outros órfãos da ditadura – o próprio deputado Bolsonaro já declarou que o único erro do DOI-CODI foi não ter matado todos, ter deixado sobreviver Dilma Rousseff, José Dirceu, Franklin Martins e tantos outros – esses órfãos do DOI-CODI têm de compreender essa realidade e reconhecerem os crimes cometidos.

E as Forças Armadas precisam reconhecer oficialmente os seus crimes, inclusive o seu erro, a sua ilegalidade e a sua inconstitucionalidade na deposição de João Goulart em 1974. Qualquer que fosse o problema do governo João Goulart, não havia o fantasma do pretexto do comunismo, o Brasil não tinha nenhuma estrutura forte nesse sentido. Qualquer que fosse o pretexto, as Forças Armadas não poderiam destituir um presidente. Presidente só é substituído em caso de morte, afastamento médico, impeachment e por outras situações, sobretudo a natural, que é a realização de uma nova eleição. Jamais através de golpe de Estado.

O mundo hoje sabe disso. Naquela época, a Guerra Fria gerou golpes de Estado em todos os países aqui da região, mas 50 anos depois o Brasil chegou a um amplo consenso. No ano que vêm, o golpe completa 50 anos e é o momento adequado para que o Estado Brasileiro faça, formalmente, esse pronunciamento condenando o golpe. Exército, Marinha e Aeronáutica condenando o golpe e reconhecendo todos os erros, toda a truculência do aparelho de tortura e de repressão que foi montado pelas Forças Armadas.

——

Alexandre Vannucchi Leme. 40 anos depois. Entrevista especial com Aldo Vannucchi

“Essa informação de que ele havia sido morto fugindo da polícia é falsa, porque colegas de cárcere e testemunhas do tribunal militar, algumas vivas ainda hoje, que estavam em celas contíguas, ouviram, no dia 16 de março, os gritos dele dizendo: ‘Eu me chamo Alexandre Vannucchi Leme, sou da ALN e não disse o nome de ninguém’”, afirma tio de estudante morto durante a ditadura militar.

“Depois de ter passado 40 anos, estamos felizes de prover que a morte do Alexandre é não apenas uma lembrança de luto, mas uma proposta renovada de luta, luta pacífica pela autêntica democratização do nosso país”. A declaração é de Aldo Vannucchi, tio deAlexandre Vannucchi Leme, estudante da USP, que foi torturado e morto pelo regime militar brasileiro em 1973, e se tornou um dos símbolos do movimento estudantil no combate à ditadura.

Vannucchi Leme participava da Ação Libertária Nacional – ALN, que reunia tanto católicos como não católicos, marxistas e não marxistas. “Alexandre não era marxista; era católico de família católica, mas viu na ALNum caminho válido de afirmar a sua vontade de libertação do povo naquela altura da nossa história”, relata Vannucchi. O jovem foi preso pela Operação Bandeirantes em 16 de março de 1973, e em seguida torturado até a morte.

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Aldo Vannucchi relembra a trajetória do sobrinho no enfrentamento à ditadura militar e comenta o trabalho da Comissão da Verdade: “Não queremos mandar ninguém para a cadeia, mas queremos que o Brasil conheça os nomes dos envolvidos, quais pessoas praticaram atos de terror nos porões da ditadura, quem foram os médicos legistas que homologaram falsos atestados de óbito, quais foram os militares que atuaram no regime, quais foram os delegados da Polícia Civil, quais foram os ‘paus-mandados’ que praticaram tanta barbárie. Só isso e tudo isso é o que nós queremos”.

Às 12h da manhã de hoje, 15 de março, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e a 66ª Caravana da Anistiareconhecerão, num ato oficial, Alexandre Vannucchi Leme como anistiado político, no Instituto de Geociências da USP. Às 18h será celebrada uma missa na Catedral da Sé, recordando a que foi presidida por D. Paulo Evaristo Arns, em março de 1973, em memória de Alexandre Vanucchi Leme. A missa, na catedral da Sé, em São Paulo, celebrada sob intensa repressão do aparato militar, foi o primeiro ato massivo, depois do AI-5 de 1968, de contestação contra a ditadura militar.

Aldo Vannucchi (foto) é ex-reitor da Universidade de Sorocaba  Uniso. Cursou mestrado em Teologia e Filosofia, e lecionou na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Sorocaba.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pode nos contar a trajetória de Alexandre Vannucchi Leme, enquanto estudante e militante do movimento estudantil durante a ditadura militar brasileira?

Aldo Vannucchi – Alexandre Vannucchi Leme, meu sobrinho, é natural de Sorocaba, SP, onde cursou os estudos iniciais, a educação básica, o científico (ensino médio), e o curso normal (magistério): pela manhã ele cursava o ensino médio e à noite, o magistério. Com 18 anos prestou vestibular para o curso de Geologia, da Universidade de São Paulo – USP, passando em primeiro lugar. Era um jovem muito talentoso, estudioso, amava ler e já dominava o inglês com perfeição. No movimento estudantil, distinguiu-se por ser uma liderança intelectual e afetiva: era muito simples nos seus contatos, no jeito de se vestir, tinha facilidade de brincar com os colegas, haja vista o apelido que recebeu dos amigos: Minhoca. Isso porque era franzido de corpo, mas também porque gostava da terra, do chão, da rocha. Não é à toa que queria ser geólogo. No movimento estudantil, destacava-se por essa “fome” de aprender e pela grande facilidade de relacionamento e de conquistar amigos em Sorocaba e em São Paulo.

IHU On-Line – Ele também recebeu alguma influência política da família?

Aldo Vannucchi – Sem dúvida. Os pais dele eram professores e ele, para mim, era o filho que eu ainda não tinha. À época, eu era padre e ele participava comigo de muitas reuniões seja no mundo universitário, porque eu era diretor da Faculdade de Filosofia, embrião da atual Uniso, seja na Igreja, porque eu era assistente eclesiástico da Juventude Operária Católica – JOC. Alexandre participava dessas reuniões, sabia da minha posição em relação à ditadura, porque eu também fui preso logo nos primeiros dias do Golpe de 64. Ele morava pertinho do Seminário Diocesano, onde eu lecionava e, então, desde pequeno estava na minha companhia e recebeu essa influência de toda a família, que sempre foi muito atenta à realidade nacional e, no meu caso, de grande participação política não partidária, mas de muita atuação em favor do pobre, do operário e em valorização do jovem universitário em Sorocaba.

IHU On-Line – Como aconteceu o envolvimento dele com a Ação Libertadora Nacional – ALN?

Aldo Vannucchi – Em São Paulo, assim como no Brasil todo, havia vários movimentos revolucionários num leque muito variado, seja de extrema esquerda, apelando para a violência e para o uso de armas, até outras alas mais atentas a um processo histórico que aconteceria com a atuação intelectual, com transformação progressiva das estruturas. Assim, por exemplo, havia a Ação Popular, liderada pela Juventude Universitária Católica – JUC, e aAção Libertária Nacional – ALN, que reunia tanto católicos como não católicos, marxistas e não marxistas. Alexandrenão era marxista; era católico de família católica, mas viu na ALN um caminho válido de afirmar a sua vontade de libertação do povo naquela altura da nossa história.

IHU On-Line – Como acontecia o diálogo entre marxistas e católicos?

Aldo Vannucchi – Nessa época havia um encontro muito comum na tentativa de jovens católicos beberem no marxismo não, evidentemente, a seiva materialista, mas o processo de denúncia do status quo e, ao mesmo tempo, de libertação e redenção da classe operária e de todo o proletariado.

IHU On-Line – À época da ditadura, os jornais publicaram que Alexandre havia sido atropelado. Como aconteceu a investigação da morte dele até se confirmar a notícia de que havia sido morto pelos militares?

Aldo Vannucchi – Ele studava em São Paulo e vinha a Sorocaba a cada 15 dias. Depois, houve uma temporada em que ele não voltou para casa e ficamos preocupados. Na ocasião recebemos um telefonema anônimo, talvez de algum amigo dele, dizendo que ele havia sido preso. Isso aconteceu no dia 17 de março, precisamente o dia em que foi assassinado. Com essa notícia de que ele havia sido preso, tanto eu quanto o pai dele, meu cunhado, começamos uma peregrinação em São Paulo procurando-o em delegacias, hospitais, presídios, sem conseguir informações. Até que, no dia 23 de março, os jornais publicaram a notícia, segundo a ótica oficial da ditadura, de que Alexandre havia sido morto fugindo da polícia, atingido por um caminhão. Novamente, meu cunhado e eu voltamos a São Paulo para procurar informações, as quais não eram dadas de jeito nenhum. Somente conseguimos os ossos dele 10 anos depois da morte.

Mas essa informação de que ele havia sido morto fugindo da polícia é falsa, porque colegas de cárcere dele e testemunhas do tribunal militar, algumas vivas ainda hoje, que estavam em celas contíguas, ouviram, no dia 16 de março, os gritos dele dizendo: “Eu me chamo Alexandre Vannucchi Leme, sou da ALN e não disse o nome de ninguém”. No dia seguinte, após muitas torturas, os carrascos pediram que os outros presos se colocassem de costas para as grades, sem olhar para os corredores, enquanto arrastavam o corpo de Alexandre. Depois, os outros presos viram sangue nos corredores. Então, ele morreu por causa das torturas. Tanto é assim que a família entrou há pouco tempo com um processo pedindo a correção do atestado de óbito dele, não de traumatismo craniano, mas de morte causada por torturas.

IHU On-Line – E conseguiram alterar o atestado de óbito?

Aldo Vannucchi – Não, ainda não. O que conseguimos – e será anunciado hoje (15-03-2012), no encontro em São Paulo – é um documento dizendo que ele não era um terrorista, um subversivo, mas sim um anistiado político.

IHU On-Line – Houve, ao longo desses quarenta anos, alguma declaração do Estado ou dos militares em relação ao caso de Alexandre?

Aldo Vannucchi – Não. Logo após o seu falecimento, a família entrou com um processo, mas ele foi obstruído, porque todos os processos acabavam caindo no Tribunal Militar, onde havia sempre um voto a favor, digamos assim, da verdade e os nove outros votos eram negados. O único voto a favor da verdade naquela altura era do general Rodrigo Jordão, tanto assim que chegou um momento em que ele pediu dispensa daquele tribunal e se afastou.

IHU On-Line – Em 30 de março de 1973, dom Paulo Evaristo Arns realizou uma missa em memória de Alexandre, com a presença massiva de estudantes, colegas e militantes. Como o senhor avalia a atuação da Igreja nesse período?

Aldo Vannucchi – Quando Alexandre foi morto, os estudantes da USP tentaram fazer um grande movimento de denúncia de toda aquela mentira, de toda aquela violência e recorreram a dom Paulo Evaristo Arns. Eles queriam uma manifestação pública dele, da Igreja, até porque o Alexandre, dias antes, havia participado de um debate na PUC-SP sobre a posição da Igreja naquele momento histórico da vida e da história do Brasil. Alexandre foi um dos estudantes que fez perguntas para dom Evaristo e participou daquele debate. Dom Evaristo atendeu aos estudantes e falou que, em vez de um movimento público, iriam celebrar uma missa na Sé, e foi o que aconteceu: uma missa com milhares de pessoas, missa envolvida por grande perigo de novas prisões, mas que foi celebrada com muita seriedade, muita devoção, marcando profundamente não só os presentes como também a história da Igreja perante aquela ditadura da época.

Além de dom Evaristo Arns, havia também a atuação de dom Cândido Padin, que era bispo auxiliar de São Paulo. Evidentemente havia dom Helder Câmara, do Nordeste, e outros bispos, não muitos, porque infelizmente a ditadura teve apoio de parte significativa do clero e da hierarquia brasileira. Mas dom Evaristo e outros marcaram posição especialmente a partir deste caso do Alexandre, denunciando a ditadura, a violência, a censura, a tortura. DomEvaristo marcou muito, especialmente por ter lembrado que os militares haviam negado à família de Alexandre aquilo que não foi negado ao próprio Cristo: a entrega do cadáver para sua mãe.

IHU On-Line – Como avalia a atuação da Comissão da Verdade no sentido de rever a historiografia desse período? Há alguma expectativa em relação ao trabalho que ainda pode ser desempenhado?

Aldo Vannucchi – A Comissão da Verdade chegou tarde, mas merece todo crédito, todo apoio e esperamos que ela chegue a bom termo. Está havendo muita resistência por parte de grupos que ainda hoje acham que naquele tempo havia disciplina, ordem e até milagre econômico, mas a Comissão da Verdade está fazendo um belíssimo trabalho. Ela está atuando não apenas em âmbito nacional, mas também nos estados, e espero que chegue a bom termo, porque é questão de justiça e de direito: o direito à verdade, à memória, à justiça histórica. Também gostaria de lembrar que, no caso do Alexandre, nós estamos esperando essa declaração de que ele, dentro de toda a verdade histórica, não foi um terrorista, até porque o acusavam de atos terroristas em uma temporada na qual ele estava hospitalizado emSorocaba. Naqueles dias em que acusam atos de terror praticados por ele, na realidade ele estava hospitalizado aqui na cidade (Sorocaba), porque havia feito uma cirurgia de apêndice, uma apendicectomia. Então, a mentira fica escancarada. Essa Comissão da Verdade está terminando os seus trabalhos, e não queremos mandar ninguém para a cadeia, mas, sim, que o Brasil conheça os nomes dos envolvidos, quais pessoas praticaram atos de terror nos porões da ditadura, quem foram os médicos legistas que homologaram falsos atestados de óbito, quais foram os militares que atuaram no regime, quais foram os delegados da Polícia Civil, quais foram os “paus-mandados” que praticaram tanta barbárie. Só isso e tudo isso é o que nós queremos.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Aldo Vannucchi – Simplesmente dizer que depois de dez anos conseguimos, através do molde da arcada dentária dele, identificar seus ossos e trazer a urna contendo-os para enterrar no jazigo da família, em Sorocaba. Depois de ter se passado 40 anos, estamos felizes de prover que a morte do Alexandre é não apenas uma lembrança de luto, mas uma proposta renovada de luta, luta pacífica pela autêntica democratização do nosso país.

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