O Papalagui


Comentários de Tuiávii, chefe da tribo
Tiavéia nos mares do sul,
recolhidos por Erich Scheurmann

IV
As coisas em quantidade
empobrecem o
 Papalagui 

Reconhecereis também o Papalagui por seu desejo de nos convencer de que somos pobres, miseráveis e precisamos de muita ajuda e compaixão porque não temos as “coisas”. Vou contar-vos, amados irmãos das muitas ilhas, o que é uma coisa. O coco é uma coisa; o apanha-moscas, a tanga, a concha, o anel, o prato que se come, o enfeite que se põe na cabeça, tudo isso são coisas. Mas há duas espécies de coisas. Há coisas que o Grande Espírito é que faz, sem ninguém, que não custam esforço nem trabalho algum, como o coco, a concha e a banana. E há coisas que são os homens que fazem, que custam muito trabalho e esforço: o anel, o prato, o apanha-moscas.

O álii, então, acha que nos faltam as coisas que ele próprio faz com as mãos, as coisas dos homens, pois nas coisas do Grande Espírito ele não pensa. Ora, quem é mais rico, quem mais do que nós tem as coisas do Grande Espírito? Olhai em volta, olhai longe, longe, até onde a borda da terra sustenta a abóbada azul. Tudo está cheio de grandes coisas: a floresta virgem com seus pombos selvagens, os colibris e papagaios, a lagoa com suas holotúrias, conchas, lagostas, e outros bichos aquáticos, a praia com seu claro semblante e a pele macia da areia, a grande água, capaz de enfurecer-se como um guerreiro e sorrir como uma taopu; a imensa abóbada azul, que a toda hora se transforma, carregada de grandes flores que nos dão luz dourada e prateada. Por que é que havemos de ser loucos a ponto de querer mais coisas além das belas coisas do Grande Espírito?

Jamais poderemos criar como ele cria porque o nosso espírito é por demais pequeno e fraco em comparação com o poder do Grande Espírito. A nossa mão é fraca demais comparada com a sua grande e poderosa mão. Tudo quanto fizermos será medíocre; nem vale a pena falar disso. Podemos alongar com um pau o nosso braço, aumentar o oco da nossa mão com uma tanoa (1). mas não há Samoano nem Papalagui capaz de fazer uma palmeira nem o tronco de uma kava.

O Papalagui acredita, decerto, que pode fazer coisas assim porque se julga tão forte quanto o Grande Espírito. É por isto que milhares e milhares de mãos, da manhã à noite, não fazem mais do que fabricar coisas: coisas humanas que não sabemos para que servem e cuja beleza não percebemos. E o Papalagui está sempre procurando inventar mais coisas novas. Com as mãos febris, o rosto cor de cinza, as costas curvas, seu olhar se ilumina de alegria quando consegue fazer uma coisa nova. E todos logo querem ter a nova coisa; adoram-na, contemplam-na, cantam-na em sua língua.

Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas.

Irmãos, imaginai que de repente venha a grande tempestade, arrancando a floresta virgem com as suas montanhas, com toda a folhagem e todas as árvores, levando todos os animais da lagoa, não deixando sequer uma flor de hibisco para que nossas moças enfeitem seus cabelos. Que tudo quanto vemos desapareça, mais nada reste além da areia: que a terra fique parecendo uma mão chata, estendida, ou um morro pelo qual escorreu a lava ardente -todos nós teremos saudades da palmeira, da concha, da floresta, de tudo teremos saudades. Lá onde estão as cabanas dos Papalaguis, os lugares que chamam cidades, lá, no entanto, a terra está deserta tal qual uma mão vazia e, por isto, o Papalagui fica louco, imagina ser o Grande Espírito, a fim de esquecer o que não tem. Porque está muito pobre, porque a sua terra está muito triste, o Papalagui pega nas coisas, ajunta-as, feito o doido que ajunta folhas murchas e com elas enche a sua cabana. Mas é também por isto que nos inveja e deseja que fiquemos tão pobres quanto ele.

Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito. O Papalagui é pobre porque é obcecado pelas coisas, sem as quais já não consegue viver. Quando do dorso da tartaruga faz uma ferramenta com que alisa os cabelos, depois de neles passar óleo, o Papalagui ainda faz uma pele para a ferramenta e para esta pele faz um pequeno baú e para o pequeno baú faz outro grande; tudo ele coloca em peles e baús. Tem baús para as tangas, para as roupas de cima e de baixo, para os panos com que se enxuga, com que limpa a boca, e outros panos mais; baús para as peles que põe nas mãos e para as peles que põe nos pés, para o metal redondo e o papel pesado, para as provisões de boca e para o livro sagrado, para tudo, para tudo mesmo. Ele faz muitas coisas quando apenas uma é suficiente, ele faz inumeráveis coisas. Se fores à cozinha do europeu, verás uma quantidade de pratos, tijelas, potes que nunca serão usados. E para cada comida há uma tanoa diferente, e mais outra para a água, para a kava européia, para o coco, para os pombos.

As cabanas européias têm tantas coisas que, mesmo se cada habitante de uma aldeia samoana enchesse suas mãos e seu braços, a aldeia inteira não bastaria para levá-las todas. Numa só cabana existem tantas coisas que a maioria dos chefes brancos precisam de muitos homens e mulheres que nada fazem senão pôr todas estas coisas nos lugares em que devem estar e limpá-las da areia que as cobre. E mesmo a taopu mais importante passa muito do seu tempo contando as muitas coisas que tem, arrumando-as, limpando-as.
Sabeis, irmãos, que não minto, que vos digo o que, em verdade vi, sem tirar, nem pôr. Podeis acreditar que existem, na Europa, homens que levam à própria fronte o cano de fogo para se matarem porque acham melhor morrer do que viver sem as coisas. Pois o Papalagui embriaga de todas as formas o seu espírito e se convence de que não pode viver sem as coisas, tal qual o homem não vive sem comida.

Foi por isto que jamais vi cabana na Europa onde pudesse deitar-me na esteira; onde alguma coisa não me impedisse de esticar os membros. Todas as coisas brilhavam como relâmpagos, todas berravam com a boca das suas cores, de tal forma que não conseguia fechar os olhos. Jamais consegui encontrar a verdadeira tranqüilidade, jamais fiquei tão desejoso de minha cabana de Samoa, onde nada mais tenho do que minhas esteiras e o rolo em que ponho a cabeça para dormir; onde nada me atinge senão o brando vento alísio do mar.

Quem poucas coisas tem julga-se pobre, sente-se triste. Não há Papalagui que cante, que seja alegre, se só tiver, como cada um de nós, apenas uma esteira e um prato. Os homens e as mulheres do mundo dos Brancos sofreriam em nossas cabanas e correriam a buscar madeira do bosque, carapaças de tartaruga, vidro, arame, pedras coloridas e muitas outras coisas; e poriam suas mãos em movimento, da manhã à noite, até que as suas casas se enchessem de coisas pequenas e grandes; coisas que se estragam com facilidade, que qualquer fogo, qualquer grande chuva tropical destrói, sempre obrigando a fazer outras novas.

Quanto mais se é europeu de verdade, de mais coisas se precisa. É por isto que as mãos do Papalagui estão sempre fazendo coisas. £ por isto que o rosto de muitos Brancos se mostra cansado e triste; é por isto que pouquíssimos dentre eles têm tempo para ver as coisas do Grande Espírito, para brincar na praça da aldeia, inventar e cantar canções alegres, dançar à claridade do sol e dar aos corpos a alegria para a qual todos fomos feitos (2).

Os Papalaguis precisam fazer coisas, precisam guardá-las. Elas se prendem e se agarram a eles como formiguinhas de areia. Os Papalaguis cometem crimes a sangue-frio para se apossarem das coisas. Guerreiam entre si, mas não é pela honra, nem para medir a sua força verdadeira; é só para ter as coisas.

No entanto, eles sabem quanto é pobre a vida deles; senão, não haveria tantos Papalaguis que são muito estimados porque passam a vida inteira mergulhando pêlos em líquidos de várias cores e com eles jogando belas imagens em esteiras brancas; copiando todas as bonitas coisas de Deus, com todas as nuances das cores, com toda a alegria sincera de que são capazes. Modelam também criaturas de barro mole, sem tanga, moças tão bonitas, com movimentos livres e tão belos quanto a taopu de Matautu ou formas de homens que brandem a clava, retesam o arco e perseguem o pombo selvagem na floresta: homens de barro para os quais o Papalagui constrói cabanas alegres, e vem gente de longe para visitá-los e apreciar sua divina beleza. Ficam todos parados olhando, embrulhados nas suas muitas tangas. Vi Papalaguis chorando de emoção ao contemplar tanta beleza, a beleza que eles mesmos perderam.

Os homens brancos gostariam de trazer para nós os seus tesouros, suas coisas, para que nós também fôssemos ricos. Estas coisas, no entanto, não são mais do que flechas envenenadas que matam aqueles em cujo peito se penduram. “Precisamos obrigá-los a ter necessidades”, ouvi da boca de certo homem que conhece a nossa terra. Necessidades, quer dizer, coisas. “Pois só assim eles terão verdadeiro gosto pelo trabalho”, disse então o homem inteligente. Queria dizer que nós também devemos pôr as nossas mãos a trabalhar, fazendo coisas; coisas para nós, sim, mas em primeiro lugar coisas para o Papalagui. Nós também devemos ficar cansados, cinzentos, curvados.

Irmãos das muitas ilhas, precisamos velar e ter juízo porque as palavras do Papalagui são doces como a banana, mas cheias de dardos escondidos, capazes de nos privar de toda luz e de toda alegria. Jamais nos esqueçamos de que só precisamos de poucas coisas além daquelas que são do Grande Espírito. Ele nos deu os olhos para ver as suas coisas; e para vê-las todas é preciso mais do que uma vida de homem. A boca do homem branco nunca disse maior inverdade do que esta: “As coisas do Grande Espírito não valem”. As coisas deles é que valem muito, é que valem mais. No entanto, as coisas dele que são tantas e tão relampejantes e cintilantes,que atraem e seduzem tanto e de tantas formas, até hoje não fizeram mais bonito o corpo do Papalagui, não lhe deram mais brilho aos olhos, não lhe fortaleceram o juízo.

Portanto, essas coisas de nada servem; o que o Papalagui diz, o que nos quer impor, é animado pelo espírito mau e seu pensamento é carregado de veneno.

Notas:
1. Recipiente de pau, com vários pés, onde se fabrica a bebida nacional.
2. As comunidades samoanas reúnem-se com muita freqüência para brincar e dançar. A dança pratica-se desde a adolescência. Cada aldeia tem suas canções e seu poeta. À tarde e à noite canta-se em todas as cabanas. É muito agradável tanto pela riqueza da língua em vogais quanto pela sensibilidade musical muito apurada dos insulares.

* * *

V
O Papalagui não tem tempo

O Papalagui gosta do metal redondo e do papel pesado; gosta de meter para dentro da barriga muitos líquidos que saem das frutas mortas, além da carne do porco e da vaca, e de outros animais horríveis; mas ele gosta, principalmente, daquilo que não se pode pegar e que, no entanto, existe: o tempo. Fala muito no tempo, diz muita tolice a respeito do tempo. Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao pôr do sol e, no entanto, isto nunca é suficiente para o Papalagui. O Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem;e acusa o grande Espírito por não lhe ter dado mais. Chega a blasfemar contra Deus, contra a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo com um plano muito exato. Divide o dia tal qual um homem partiria um coco mole com uma faca em pedaços cada vez menores. Todos os pedaços têm nome: segundo, minuto, hora. O segundo é menor do que o minuto, este é menor do que a hora; juntos, minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora.
É uma coisa complicada que nunca entendi porque me faz mal estar pensando mais do que é necessário em coisas assim pueris. Mas o Papalagui disso faz uma ciência importante: os homens, as mulheres, até as crianças que mal se têm nas pernas usam na tanga, presa a correntes grossas de metal, ou pendurada no pescoço, ou atada com tiras de couro ao pulso, certa pequena máquina, redonda, na qual lêem o tempo, leitura que não é fácil, que se ensina às crianças, aproximando-lhes do ouvido a máquina para diverti-las.
Esta máquina, fácil de carregar em dois dedos, parece-se por dentro com as máquinas que existem dentro dos grandes navios, que todos vós conheceis. Mas também existem máquinas do tempo grandes e pesadas, que se colocam dentro das cabanas, ou se suspendem bem alto para serem vistas de longe. Para indicar que passou uma parte do tempo, há do lado de fora da máquina uns pequenos dedos; ao mesmo tempo, a máquina grita e um espírito bate no ferro que está do lado de dentro. Sim, produz-se mesmo muito barulho, um grande estrondo nas cidades européias quando uma parte do tempo passa.

Ao escutar este barulho, o Papalagui queixa-se: “Que tristeza que mais uma hora tenha se passado”. O Papalagui faz, então, uma cara feia, como um homem que sofre muito; e no entanto logo depois vem outra hora novinha.
Só consigo entender isso pensando que se trata de doença grave. “O tempo voa!”; “O tempo corre feito um corcel!”; “Dêem um pouco mais de tempo”: são as queixas do Branco.

Digo que deve ser uma espécie de doença porque, supondo que o Branco queira fazer alguma coisa, que seu coração queime de desejo, por exemplo, de sair para o sol, ou passear de canoa no rio, ou namorar sua mulher, o que acontece? Ele quase sempre estraga boa parte do seu prazer pensando, obstinado: “Não tenho tempo de me divertir”. O tempo que ele tanto quer está ali, mas ele não consegue vê-lo. Fala em uma quantidade de coisas que lhe tomam o tempo, agarra-se, taciturno, queixoso, ao trabalho que não lhe dá alegria, que não o diverte, ao qual ninguém o obriga senão ele próprio. Mas, se de repente vê que tem tempo, que o tempo está ali mesmo, ou quando alguém lhe dá um tempo — os Papalaguis estão sempre dando tempo uns aos outros, é uma das ações que mais se aprecia — aí não se sente feliz, ou porque lhe falta o desejo, ou está cansado do trabalho sem alegria. E está sempre querendo fazer amanhã o que tem tempo para fazer hoje.

Certos Papalaguis dizem que nunca têm tempo: correm feito loucos de um lado para outro, como se estivessem possuídos pelo aitu; e por onde passam levam a desgraça e o pavor por terem perdido o seu tempo. É um estado horrível, esta possessão que não há médico que cure, que contagia muitos homens e os faz desgraçados.

Todo Papalagui é possuído pelo medo de perder o seu tempo. Por isso todos sabem exatamente (e não só os homens, mas as mulheres e as criancinhas), quantas vezes a lua e o sol saíram desde que, pela primeira vez, viram a grande luz. De fato, isso é tão sério que, a certos intervalos de tempo, se fazem festas com flores e comes e bebes. Muitas vezes percebi que achavam esquisito eu dizer, rindo, quando me perguntavam quantos anos tinha: “Não sei…” “Mas devias saber”. Calava-me e pensava que era melhor não saber.

Ter tantos anos significa ter vivido um número preciso de luas. É perigoso esta maneira de indagar e contar o número das luas porque assim se chega a saber quantas luas dura a vida da maior parte dos homens. Todos prestam muita atenção nisso e, passando um número muito grande de luas, dizem: “Agora, não vou demorar a morrer”. E então essas pessoas perdem a alegria e morrem mesmo dentro de pouco tempo.

Pouca gente há na Europa que tenha tempo, de fato; talvez ninguém mesmo. É por isto que quase todos levam a vida correndo com a velocidade de pedras atiradas por alguém. Quase todos andam olhando para o chão e balançando com os braços para caminhar o mais depressa possível. Se alguém os faz parar, dizem, mal-humorados: “Não me aborreças, não tenho tempo, vê se aproveitas melhor o teu.” Dá a impressão de que aquele que anda depressa vale mais e é mais valente do que aquele que anda devagar.
Vi um homem com a cabeça estourando, os olhos virados, a boca aberta feito a de um peixe agonizante, a cara passando de vermelha a verde, batendo com as mãos e os pés, porque um criado tinha chegado um pouquinho mais tarde do que prometera. Esse pouquinho era para ele um grande prejuízo, prejuízo irreparável. O criado teve de ir-se embora, o Papalagui expulsou-o e recriminou-o: “Roubaste-me tempo demais! Quem não presta atenção ao tempo não merece o tempo que tem!”

Só uma vez é que deparei com um homem que tinha muito tempo, que nunca se queixava de não tê-lo, mas era pobre, sujo, e desprezado. Os outros passavam longe dele, ninguém lhe dava importância. Não compreendi essa atitude porque ele andava sem pressa, com os olhos sorrindo, mansa, suavemente. Quando lhe falei, fez uma careta e disse, tristemente: “Nunca soube aproveitar o tempo; por isto, sou pobre, sou um bobalhão”. Tinha tempo, mas não era feliz.

O Papalagui emprega todas as forças que tem e todos os seus pensamentos tentando alongar o tempo o mais possível. Serve-se da água e do fogo, da tempestade, dos relâmpagos que brilham no céu para fazer parar o tempo. Põe rodas de ferro nos pés, dá asas às palavras que diz para ter mais tempo. Mas para que todo este  esforço?

O que é que o Papalagui faz com o tempo? Nunca compreendi bem embora pelos seus gestos e suas palavras, ele sempre tenha me dado a impressão de alguém a quem o Grande Espirito convidou para um fono.

Acho que o tempo lhe escapa tal qual a cobra na mão molhada, justamente porque o segura com força demais. O Papalagui não espera que o tempo venha até ele, mas sai ao seu alcance, sempre, sempre, com as mãos estendidas e não lhe dá descanso, não deixa que o tempo descanse ao sol. O tempo tem de estar sempre perto dele, cantando, dizendo alguma coisa. Mas o tempo é quieto, pacato, gosta de descansar, de deitar-se à vontade na esteira. O Papalagui não sabe perceber onde está o tempo, não o entende e é por isto que o maltrata com os seus costumes rudes.

Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante-se aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele. Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre Papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que, do nascer ao pôr do sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar.

* * *

VI
Deus ficou mais pobre
por causa do Papalagui

O Papalagui pensa de modo estranho e muito confuso. Está sempre pensando de que maneira uma coisa pode lhe ser útil, de que forma lhe dá algum direito. Não pensa quase nunca em todos os homens, mas num só, que é ele mesmo.

Quem diz: “Minha cabeça é minha, não é de mais ninguém”, está certo, está realmente certo, ninguém pode negar. Ninguém tem mais direito à sua própria mão do que aquele que tem a mão. Até aí dou razão ao Papalagui. Mas é que ele também diz: “A palmeira é minha”, só porque ela está na frente da sua cabana. É como se ele próprio tivesse mandado a palmeira crescer.

Mas a palmeira nunca é dele: nunca. A palmeira é a mão que Deus nos estende de sob a terra. Deus tem muitas mãos, muitas mesmo. Toda árvore, toda flor, toda grama, o mar, o céu, as nuvens que o cobrem, tudo isso são mãos de Deus. Podemos pegá-las e nos alegrar, mas não podemos dizer: “A mão de Deus é minha mão”. £ o que, no entanto, diz o Papalagui. “Lau” em nossa língua quer dizer “meu” e também “teu”; é quase a mesma coisa. Mas na língua do Papalagui quase não existem palavras que signifiquem coisas mais diversas do que “meu” e “teu”.

Meu é apenas, e nada mais, o que me pertence; teu é só, e nada mais, o que te pertence. £ por isto que o Papalagui diz de tudo quanto existe por perto da sua cabana: “É meu”. Ninguém tem direito a essas coisas, senão ele. Se fores à terra do Papalagui e alguma coisa vires, uma fruta, uma árvore, água, bosque, montinho de terra, hás de ver sempre perto alguém que diz: “Isto é meu! Não pegues no que é meu!” Mas se pegares, te chamarão gatuno, o que é uma vergonha muito grande, e só porque ousastes tocar num “meu” do teu próximo. Os amigos deles os servos dos chefes mais importantes te põem correntes, te levam para o fale pui pui (1) e serás banido pela vida inteira.

Para ninguém pegar em coisas que o outro declarou como suas, determina-se com exatidão, por meio de leis, o que pertence e o que não pertence a certa pessoa. E existem, na Europa, homens que mais não fazem do que impedir que estas leis sejam violadas, ou seja, im pedir que se tire do Papalagui aquilo que ele pegou para si. Desta forma, o Papalagui quer dar a impressão de que, realmente, garantiu um direito, como se fosse Deus quem lhe tivesse definitivamente cedido o que tem; como se, de fato, pertencesse a ele e não a Deus, a palmeira, a árvore, a flor, o mar, o céu com as suas nuvens.

O Papalagui precisa fazer leis assim e precisa ter quem lhe guarde os muitos “meus” que tem, para que aqueles que não têm nenhum ou têm pouco “meu” nada lhe tirem do seu “meu”. De fato, enquanto há muitos pegando muitas coisas para si, há também muitos que nada têm nas mãos. Nem todos sabem os segredos, os sinais misteriosos com os quais se consegue ter muitas coisas; é necessário que se tenha uma coragem especial, que nem sempre se concilia com o que chamamos “honra”. Até pode ser que aqueles que pouco têm nas mãos (porque não querem ofender a Deus, porque não lhe tiram nada) sejam os melhores de todos os Papalaguis. Mas são poucos, certamente.

Quase todos furtam de Deus sem sentir vergonha. Nem sabem fazer outra coisa. Nem sabem, muitas vezes, que estão fazendo mal porque todos fazem a mesma coisa, e nem pensam nisso, e nem se envergonham. Há uns que recebem o seu “meu” (e é muito) das mãos do pai, no momento em que nascem. Em todo caso Deus quase nada mais tem, os homens lhe tiraram quase tudo, tudo transformaram em “meu” e “teu”. Deus já não pode repartir igualmente a todos o seu Sol, que foi feito para todos, porque há uns que dele gozam mais do que os outros.

Muitas vezes, só um pequeno número de Papalaguis aproveita os belos e grandes lugares ensolarados, enquanto muitos ficam na sombra e só recebem alguns fracos raios de sol. Deus já não pode se alegrar verdadeiramente, pois já não é o mais alto álii sili (2) em sua grande casa. O Papalagui renega-o quando diz: “Isto é meu”. Mas ele não se dá conta disso, por mais que pense. Pelo contrário, declara que o que faz é honesto e justo; mas é desonesto e injusto perante Deus.

Se pensasse direito, o Papalagui saberia que coisa alguma que não sejamos capazes de segurar nos pertence; saberia que, no fundo, nada há que possamos segurar. E também veria que se Deus nos deu a sua grande casa é para que todos nela encontrassem lugar e alegria. E ela é bastante grande, tem para todos um lugarzinho claro, uma alegriazinha; para todos existe certamente onde ficar debaixo da palmeira, um lugar onde colocar os pés, onde parar. Como é que Deus havia de esquecer um dos seus filhos! E no entanto há tantos que procuram o lugarzinho que Deus lhes destinou!

O Papalagui não ouve o mandamento de Deus e se dá o direito de fazer suas próprias leis; por isto é que Deus lhe manda muitos inimigos da propriedade. Manda-lhe a umidade e o calor para destruir o seu “meu”, manda-lhe a velhice, deixa que ele se desfaça, que apodreça. E mais ainda: dá ao fogo e à tempestade o poder de destruir-lhe os tesouros. Principalmente, no entanto, põe-lhe na alma o medo, medo de perder aquilo de que se apossou. O sono do Papalagui nunca é de fato profundo: precisa estar sempre de vigília para que não lhe seja tirado, de noite, o que juntou durante o dia. O Papalagui precisa estar sempre com as mãos e o pensamento segurando o que é “meu”. E como o “meu” o atormenta, sem parar, escarnecendo-o e dizendo-lhe: “Já que me tiraste de Deus, castigo-te, mando-te todos os sofrimentos”!

Mas castigo muito pior do que o medo Deus impôs ao Papalagui.

Impôs-lhe a luta entre os que só têm um pequeno “meu”, ou nenhum, e os que se apossaram de um grande “meu”. É luta acesa, dura, que persiste dia e noite; luta que todos têm de aturar, que a todos corrói a alegria de viver. Os que têm são obrigados a dar, mas coisa alguma dão; os que nada têm querem ter, mas coisa alguma ganham. Também estes são raramente animados pelo zelo divino: é que chegaram cedo ou tarde demais para roubar, ou foram por demais inábeis, ou não tiveram oportunidade. São pouquíssimos os que pensam que Deus é quem foi roubado. E é raro ouvirem a voz do homem justo. que manda devolver tudo a Deus.

Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome.

A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. “São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!” Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui.

Também entre nós existem muitos que possuem mais do que outros. É certo também que honramos o nosso chefe que tem muitas esteiras, muitos porcos, mas é só a ele que honramos, e não às esteiras e aos porcos. Estas coisas fomos nós mesmos que lhe demos de presente, como alofa, para mostrar-lhe o nosso contentamento, para louvar a sua grande coragem, a sua grande inteligência. Mas o Papalagui o que honra são as esteiras e os porcos em quantidade que seu irmão possui; pouco lhe importa sua coragem ou sua inteligência. O irmão que não tem esteiras nem porcos poucas honras recebe, ou não recebe honra alguma.

 Como as esteiras e os porcos não vão por si mesmos à procura dos pobres e famintos, o Papalagui também não vê razão para levá-los aos seus irmãos. O que ele respeita não são os irmãos, mas sim, apenas, as esteiras e os porcos; daí porque os guarda para si. Se amasse os irmãos, se os honrasse, se não vivesse lutando com eles pelo “meu” e pelo “teu”, levar-lhes-ia as esteiras que não usasse para que eles participassem desse grande “meu”. O Papalagui daria aos irmãos a sua própria esteira em lugar de atirá-los à noite escura.

Mas o Papalagui não sabe que Deus deu a palmeira, a banana, o taro precioso, todas as aves do bosque, todos os peixes do mar, para todos nós usufruirmos e sermos felizes; para todos e não apenas para uns poucos dentre nós, enquanto outros morrem de fome e passam dificuldades. Se Deus colocou muitos bens na mão de um homem foi para que repartisse com seu irmão; senão a fruta apodrece em sua mão. Deus estende a todos os homens as muitas mãos que tem e não quer que uns tenham mais do que os outros; nem que alguns digam: “O sol é para mim; a sombra, para ti”. O sol é para todos nós.
Se tudo estiver na mão justa de Deus, não haverá luta, nem miséria. O Papalagui, este astuto, quer-nos convencer de que nada a Deus pertence; pertence a cada um aquilo que consiga segurar na mão. Tapemos os ouvidos a quem diz estas sandices e pratiquemos a boa sabedoria: “A Deus tudo pertence!”

* * *

Notas:
1 Prisão
2 Senhor
Nota do Autor: Quem sabe que os indígenas de Samoa vivem na mais completa comunidade compreenderá o desprezo com que Tuiávii fala de nossa concepção de propriedade. Não existe em Samoa, realmente, o conceito de meu e teu no sentido em que o adotamos. Em todas as viagens que fiz, os nativos sempre partilhavam comigo, de modo absolutamente natural, o teto, as esteiras, a comida: tudo. Não foram raros os casos em que ouvi de um chefe estas palavras com que logo de início me saudava: “O que é meu é também teu.” Os insulares não conhecem a noção de furto, roubo, porque tudo pertence a todos; e tudo pertence a Deus.

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