O Papalagui (2)


VII
O Grande Espírito é mais
forte que o Papalagui

O Papalagui faz muitas coisas que não sabemos fazer, que jamais entenderemos, que para a nossa mente mais não são do que pedras pesadas. São coisas das quais não sentimos falta; coisas que aos fracos dentre nós podem até causar espanto e falsamente humilhar. Vamos pois, sem temor, observar quais são essas artes singulares do Papalagui. 

O Papalagui sabe fazer de tudo um dardo, uma clava. Apossa-se do relâmpago bravo, do fogo quente, da água veloz e deles dispõe à sua vontade. Tranca-os e dá-lhes ordens, às quais eles obedecem; são os seus guerreiros mais valorosos, porque o Papalagui tem o segredo de fazer o fogo quente ainda mais quente, a água veloz mais veloz ainda.

O Papalagui parece ser realmente aquele que furou o céu, o enviado de Deus, porque domina o céu e a terra como quer. É peixe e ave ao mesmo tempo; ao mesmo tempo é verme e cavalo. Penetra na terra, através da terra; e se enfia nos mais largos rios de água doce. Desliza pelas montanhas, pelo rochedos. Ata rodas de ferro aos pés e galopa mais rápido do que o mais rápido dos cavalos. Sobe aos ares: sabe voar e eu o vi deslizar pelo céu como se fosse a gaivota. Tem um grande barco para andar pela água e outro para andar por baixo do mar. Anda de barco de uma nuvem para outra.

Irmãos amados, dou com as minhas palavras testemunho da verdade; e deveis crer no vosso servo, ainda que vosso bom senso vos faça duvidar do que narro. Porque grandes e dignas de muito admirar são as coisas do Papalagui. Temo até que muitos dentre vós percam a confiança em si mesmos ante semelhante força. E se eu vos contar tudo quanto os meus olhos espantados viram, por onde devo começar?

Todos vós conheceis aquele grande barco que o Branco chama navio. Não é tal qual um grande peixe, um enorme peixe? Não sei como ele consegue ir, de ilha a ilha, mais depressa que o mais forte dos nossos jovens remando numa canoa. Vistes a grande nadadeira que ele leva no rabo, quando se move? Que bate e se mexe tal qual os peixes da lagoa? É esta grande nadadeira que empurra o grande barco para diante. Como isso é possível, só o Papalagui sabe: é um segredo que está dentro do grande peixe. Ali é que está a máquina que dá tanta força à grande nadadeira. E é a máquina que encerra a grande força. O que é uma máquina, minha inteligência não é capaz de explicar. Só sei que ela come pedras negras e dá em troca a sua força, força que jamais homem algum terá.

A máquina é a clava mais forte que o Papalagui tem. Dêem-lhe o mais forte ifi da floresta virgem: a mão da máquina despedaça o tronco, feito a mãe que parte o fruto do taro para os filhos. A máquina é o grande mago da Europa, de mãos fortes, mãos que nunca se cansam; querendo, corta cem, até mil tanoas num só dia. Eu a vi tecendo tangas tão finas, tão graciosas que nem as mãos mais delicadas de uma moça seriam capazes de tecer; e vai tecendo da manhã à noite, cuspindo montes e montes de tangas. Mesquinha, miserável é a nossa força diante da força imensa da máquina.

O Papalagui é um mago, um feiticeiro. Se cantares uma canção, ele a captura e a devolve quando quiseres. Põe na tua frente uma chapa de vidro e captura nela a tua imagem, tantas vezes quantas quiseres.

Mas vi prodígios maiores ainda. Já vos disse que o Papalagui agarra os relâmpagos do céu; e é mesmo verdade. Agarra-os e os coloca na máquina que deve comê-los, devorá-los, e cuspi-los de noite em milhares de estrelinhas, vagalumes, pequenas luas. Com a maior facilidade o Papalagui será capaz de iluminar as nossas ilhas à noite, tornando-as tão claras, tão luminosas quanto o dia.

É comum ele fazer os relâmpagos das máquinas trabalharem para ele, indicando-lhes um caminho por onde devem ir para levar mensagens para os irmãos que moram longe. Os relâmpagos obedecem e levam o recado.

O Papalagui soube aumentar a força de todos os seus membros: com as mãos passa por cima dos mares e atinge as estrelas; com os pés, vence ondas e ventos. Os ouvidos do Papalagui percebem qualquer sussuro em Saváii e a sua voz tem asas feito as aves. Com os olhos vê mesmo durante a noite; vê através de si mesmo, como se sua carne fosse tão clara quanto a água; e vê qualquer sujeira que na água exista.

Tudo isso que presenciei e vos narro é apenas pequena parte do que meus olhos viram com espanto. Crede, irmãos, que a ambição do Branco é grande: está sempre querendo realizar milagres novos e mais imponentes; milhares dentre eles ficam pensando, à noite, na maneira de ganhar vitórias sobre Deus, porque é certo que o Papalagui se esforça por ser igual a Deus. Por seu gosto, destruiria Deus e se apoderaria da sua força, mas Deus é mais forte ainda, maior ainda do que o grande Papalagui. Deus é mais forte do que a máquina do Papalagui, e é ele que determina quem dentre nós deve morrer e quando. É a Deus, em primeiro lugar, que o sol, a água, o fogo servem; e não houve jamais Branco que à sua vontade conseguisse determinar quando a lua se levanta ou em que direção os ventos sopram.

E já que assim é, pouca importância têm os prodígios que o Papalagui faz. E fraco é aquele dentre nós, irmãos amados, que se impressiona com eles, que adora o Branco pelas suas obras e se julga pobre e indigno porque nem a sua mão, nem o seu espírito é capaz de fazer o mesmo. Pois mesmo se os prodígios e habilidades do Papalagui parecem espantosos aos nossos olhos, vistos à mais clara luz do sol, não têm mais importância do que talhar uma clava, ou tecer uma esteira; no fundo, tudo quanto o Papalagui faz nada mais é do que brincadeira de criança na areia. Coisa alguma que o Branco tenha feito se compara, nem de longe, aos prodígios do Grande Espírito.

Magníficas, imponentes e enfeitadas são as cabanas dos áliis importantes que se chamam palácios; mais belas ainda são as altas cabanas que se erguem em honra de Deus, mais altas, em muitos casos, do que o pico do Tofua*. No entanto, grosseiro, rude, sem o verdadeiro calor da vida é tudo isto em comparação com uma só moita de hibisco que dá flores cor de fogo; em comparação com um ramo da palmeira, com uma floresta de coral, inebriante pelas cores e pelas formas. Jamais o Papalagui fiou tanga tão fina quanto as teias que Deus fia; nem máquina alguma é tão requintada e artificiosa quanto a pequena formiga da areia que vive em nossa cabana.

O Branco voa até as nuvens, disse-vos eu, mas a linda gaivota voa mais alto ainda e voa mais rápido que o homem, em meio a todas as tempestades, e as suas asas pertencem realmente ao seu corpo, ao passo que as asas do Papalagui são falsas, sujeitas a se quebrarem, a caírem com facilidade.

Assim,todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.

O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro.

É por isto que vos digo: a máquina é um bonito brinquedo dessas crianças grandes que são os Brancos. Nenhuma das suas artes deve assustar-nos. O Papalagui até o momento jamais construiu máquina que o preserve da morte; jamais fez coisa alguma maior do que
aquilo que Deus faz a todo momento. Não há máquina, nem arte, nem encantamento que prolongue a vida humana, que lhe dê mais alegria ou felicidade. Contentemo-nos, portanto, com as máquinas maravilhosas do artista que é Deus; e desprezemos o Branco quando ele quer brincar de Deus.

* Montanha de Upolu

* * *

VIII
Da profissão do Papalagui e
da confusão que ela provoca

É  difícil dizer o que é profissão, mas todo Papalagui em uma. É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isto acontece. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa, uma só coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum. Se com minhas mãos outra coisa não faço além de construir cabanas, ou tecer esteiras, construir cabanas ou tecer esteiras é minha profissão. 

Profissões há para homens e para mulheres. Lavar roupa na lagoa, dar brilho às peles que se põem nos pés, são profissões de mulher; conduzir um navio pelo mar, caçar pombos no bosque são profissões de homem. A mulher larga a profissão assim que se casa; o homem quando se casa é que realmente se consagra à sua profissão. Nenhum álii dá a filha a um pretendente que não tenha profissão. Papalagui sem profissão não pode se casar. Todo homem branco precisa ter uma profissão.

Por isto é que todo Papalagui, muito antes do tempo em que o jovem se tatua, deve decidir que trabalho vai fazer durante a vida inteira. Chama-se isso “escolher uma profissão”. É uma coisa tão importante que dela se fala tanto na aiga quanto do que se tem vontade de comer no dia seguinte. Se o jovem álii quer tecer esteiras, o velho álii leva-o a um homem que só faz isso e que mostrará ao jovem como é que se tece uma esteira. Ele deve lhe ensinar a tecer uma esteira sem precisar olhar o que faz. É comum levar muito tempo mas, assim que o jovem aprende, larga o seu mestre e, então, se diz: “Ele tem uma profissão”.

Mas se o Papalagui, mais tarde, chega a perceber que prefere construir cabanas a tecer esteiras, dizem: “Ele errou de profissão”, o que é a mesma coisa que dizer: “errou o tiro!” Isso é uma coisa muito séria porque é contra a moral adotar, simplesmente, outra profissão. O Papalagui decente corre o risco de perder sua honra se disser: “Não posso fazer isto, não tenho nenhum prazer”; ou “Minhas mãos não obedecem quando faço esse trabalho!”

Tem o Papalagui tantas profissões quantas são as pedras da lagoa. Tudo que faz o Papalagui se transforma em profissão. Se alguém junta as folhas murchas da árvore da fruta pão, é uma profissão; se lava os pratos em que come, é também uma profissão. Tudo que se faz é uma profissão, com as mãos ou com a cabeça. Também é profissão ter idéias ou olhar para as estrelas. Não há, a bem dizer, coisa alguma que um homem seja capaz de fazer que o Papalagui não transforme em profissão.

Quando, então, um Branco diz: “Sou tussi-tussi” (1), quer dizer: esta é a sua profissão; ele nada mais faz do que escrever uma carta depois da outra. Não enrola a sua esteira e a pendura numa trave, não vai para a cozinha cozinhar uma fruta, não lava os pratos em que come. Come peixes, mas não vai pescar; come frutas, mas não as tira da árvore. Escreve tussi e mais tussi, e isso é sua profissão. Da mesma maneira como também é profissão: enrolar a esteira e pendurá-la numa trave, cozinhar frutas, lavar pratos, pescar, apanhar frutas. É só a profissão que dá a alguém o direito de ter uma atividade. 

É por isto que quase todos os Papalaguis só sabem fazer aquilo que é a sua profissão. Nem o chefe mais importante, que tem a cabeça cheia de sabedoria e o braço cheio de força, é capaz de enrolar e pendurar a sua esteira, de lavar os seus pratos. Também é por isto que aquele que sabe escrever um tussi com várias cores não é capaz de remar numa canoa pela lagoa, e inversamente. Ter profissão quer dizer: saber apenas correr ou apenas provar ou apenas cheirar ou apenas lutar; em todos os casos, saber apenas uma coisa. Esse só^-ber-fazer-uma-coisa é uma grande fraqueza e um grande perigo porque qualquer um pode se ver, um dia, obrigado a remar numa canoa pela lagoa.

O Grande Espírito nos deu as mãos para colhermos as frutas das árvores, para apanharmos os caroços de taro nos pântanos, para proteger-nos o corpo contra todos os inimigos. Deu-nos as mãos para nos divertirmos, dançando e brincando, folgando de todos os modos. Não as deu para construirmos apenas cabanas, apenas colhermos frutas ou caroços; mas, sim, para nos servirem, para nos defenderem em todos os momentos, em todas as ocasiões.

O Papalagui não compreende isso. Mas que a sua atividade é errada, errada mesmo, contra todos os mandamentos do Grande Espírito, nós o percebemos pelo seguinte: é que existem Brancos que já não podem correr pois criam muita gordura no ventre, como os puaas(2) porque têm de estar sempre parados, obrigados pela profissão; já não podem levantar e lançar um dardo pois suas mãos estão muito habituadas a segurar o osso que lhes serve para escrever e eles estão sempre sentados à sombra, só escrevendo tussi; não são capazes de dominar um cavalo selvagem porque estão sempre ocupados em olhar para as estrelas ou inventar idéias. 

É raro ver um Papalagui que ainda salte, que pule como criança, depois que fica adulto. Pelo contrário, quando anda, arrasta o corpo, como se alguma coisa entravasse seu movimento. O Papalagui disfarça, nega esta fraqueza, dizendo que correr, pular, saltar não são decentes para um homem importante. Hipocrisia: é que seus ossos estão duros, sem movimento e seus músculos não têm mais animação porque a profissão os fêz sonolentos e mortos. E a profissão é também um aitu que destrói a vida; um aitu que ao homem insinua bonitas coisas mas lhe chupa o sangue.

A profissão ainda prejudica o Papalagui de outra forma; e de outra forma mostra que é um aitu. É uma alegria construir uma cabana, derrubar árvores na floresta, talhá-las em forma de estacas, erguê-las, arqueá-las para fazer o teto e, finalmente, depois de amarrar as estacas e tudo mais com fios de coqueiro, cobri-las com as folhas secas de cana-de-acúcar. Não preciso dizer-vos como é grande a alegria de toda a comunidade depois de construir todos juntos a casa do chefe; até as crianças e as mulheres participam da festança.

Mas que diríeis se só alguns poucos homens da aldeia pudessem ir à floresta abater as árvores e talhá-las em estacas? E estes poucos não poderiam ajudar a erguer as estacas porque a profissão deles seria apenas a de derrubar árvores e talhar estacas? E os que erguessem as estacas não poderiam entrançar os caibros do teto porque, como profissão, teriam apenas a de erguer as estacas; e os que tecessem os caibros não poderiam ajudar a cobrir a cabana com cana porque só teriam que entrançar caibros. Nem todos poderiam ajudar a apanhar cascalho na praia para forrar o chão porque só poderiam fazer isso aqueles que tivessem esta profissão. E só poderiam festejar a construção, inaugurar a cabana aqueles que nela morassem e não aqueles que a tivessem construído.

Estais rindo! E estou certo de que dirão como eu: “Se tivéssemos o direito de fazer apenas uma coisa e não pudéssemos participar de todos os trabalhos que precisam da força humana, teríamos só metade da alegria, ou talvez nenhuma!” E por certo chamaríeis louco todo aquele que pedisse das vossas mãos apenas um só trabalho, como se todos os outros membros e sentidos do vosso corpo fossem aleijados e mortos.

É daí que vem a miséria maior do Papalagui. É agradável ir buscar água no riacho uma vez, até várias vezes por dia; mas quem tiver de ir buscá-la da manhã à noite, todos os dias, em todos os momentos, enquanto tiver forças, e isso sem cessar, afinal há de enfurecer-se, há de querer romper as correntes que o prendem,pois não há coisa que pese tanto ao homem quanto fazer sempre a mesma coisa.

Mas se só houvesse Papalaguis que, dia após dia, fossem buscar água na mesma fonte, isso ainda poderia até ser para eles muito bom. Mas, não: há uns que apenas levantam ou abaixam a mão, ou empurram um pau, numa sala suja, sem luz, nem sol; nada fazem que exija esforço ou dê prazer. No entanto, segundo o modo de pensar do Papalagui, é absolutamente necessário que eles levantem ou abaixem a mão ou que empurrem uma pedra pois é isso que faz andar ou regular a máquina que fabrica aros de cal, por exemplo, ou peitorais, ou conchas para calças, ou seja o que for. Existem menos palmeiras em nossas ilhas do que, na Europa, Papalaguis com o rosto acizentado porque não gostam do que fazem, porque a profissão devora toda a sua alegria e não lhes dá nenhum fruto, nem sequer uma folha com a qual se regozijem.

E é por isto que existe ódio ardente entre os homens que têm profissões diferentes. Todos guardam no coração uma coisa como um animal preso por grilhões, que se rebela sem conseguir soltar-se. Todos estão sempre comparando as suas profissões, cheios de inveja e má-vontade; fala-se em profissões elevadas e baixas, embora todas sejam apenas atividades parciais. O homem, na verdade, não é apenas mão, ou apenas pé, cabeça; é todo um só. Mão, pé, cabeça são feitos para formarem um todo. Se todos os membros e sentidos trabalham juntos, o coração se alegrará, sadio; não acontecerá isso quando só uma parte tem vida e todas as outras estão mortas. Daí vem a confusão, o desespero, a doença.

Por causa da profissão, o Papalagui vive confuso. É claro que não quer pensar nisso. E decerto, se me ouvisse falar, diria que sou louco; que quero julgar sem poder porque nunca tive profissão e nunca trabalhei como os europeus.

Mas o Papalagui nunca conseguiu nos fazer compreender por que havemos de trabalhar mais do que Deus exige para que possamos comer à vontade, cobrir a cabeça com um teto, nos divertirmos com as festas da aldeia. Talvez este trabalho lhe pareça pouco, e pobre a nossa existência sem profissões. Mas o homem justo, o irmão das nossas muitas ilhas faz o seu trabalho com alegria, jamais com desgosto. Para ele, se não for assim é melhor nada fazer. E aí é que somos diferentes dos Brancos. O Papalagui suspira quando fala no seu trabalho, como se uma carga o sufocasse; mas é cantando que os jovens samoanos vão para os campos de taro; cantando, as moças lavam as tangas nas correntezas do riacho. O Grande Espírito não quer, certamente, que fiquemos cinzentos por causa das profissões, nem que nos arrastemos feito as tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. Ele deseja que continuemos orgulhosos e tesos em tudo quanto fazemos; que não percamos a alegria de nossos olhos nem a agilidade dos nossos membros.
*

Notas:

1  Tussi  =  carta. Tussi-Tussi = aquele que escreve cartas.
2  Porco

* * *
IX
Do lugar onde a vida é de
mentira e dos muitos papéis

Amados irmãos do vasto mar, muito teria o vosso  humilde servo a vos contar para conhecerdesa verdade sobre a Europa. Para tanto, minha fala precisaria ser tal qual a cachoeira que corre da manhã à noite e, mesmo assim, não seria possível contar tudo pois a vida do Papalagui assemelha-se à vida do mar cujo princípio e fim jamais se pode ver com exatidão. A vida do Papalagui tem tantas ondas quanto o mar, a grande água, e pode ser tempestuosa, movimentada, sorridente, sonhadora. Tal qual homem algum conseguiria retirar a água do mar com o oco da mão, também não me é possível trazer-vos o grande mar que é a Europa com a pequenez do meu espírito. 

Mas não quero deixar de vos contar, pelo menos, que assim como o mar não existe sem água, assim não pode haver vida na Europa sem a vida de mentira e sem os muitos papéis. Se alguém tirar uma coisa ou a outra do Papalagui, ele ficará como o peixe lançado à praia pela ressaca, o peixe que consegue apenas bater os membros, sem nadar, no entanto, sem se mexer conforme gosta.

O lugar da vida de mentira! Não é fácil explicar-vos como é este lugar que o Branco chama cinema; explicarmos tão claramente que vos seja fácil compreender. Em todas as aldeias da Europa, existe este lugar misterioso, mais procurado do que a casa do missionário; que faz sonhar até as crianças e ocupa o seu espírito.

O cinema é uma cabana maior do que a maior cabana de chefe de Upolu; muitor maior até. Escura, mesmo durante o dia, e tão escura que ninguém reconhece quem está perto; tão escura que se fica cego quando se entra e mais cego ainda quando de novo se sai. Por esta cabana as pessoas arrastam-se ao longo das paredes, às apalpadelas até vir uma moça com um fogo na mão a fim de levá-los até onde há lugar. Os Papalaguis ficam sentados uns junto dos outros, na escuridão, sem se enxergarem; e a sala escura fica cheia de gente, todos calados; cada um sentado numa tábua estreita; e todas as tábuas estão dispostas na direção de uma mesma parede.

Desta parede, embaixo, digamos assim, de uma garganta profunda, vem um zumbido, um barulho; e assim que os olhos se acostumam à escuridão, vê-se um Papalagui que, sentado, luta com um baú, batendo nele com os dedos abertos, batendo numas linguetas brancas e pretas, muitas linguetas, que o grande baú vai apresentando; e cada lingueta range alto, com vozes diferentes cada vez que é tocada, de tal forma que produz guinchos selvagens, desordenados, tal qual uma briga na aldeia.

Este barulho todo é para desviar os nossos sentidos, para enfraquecê-los, a fim de acreditarmos no que estamos vendo e não duvidarmos de que é verdade. Na parede brilha um raio de luz, dando a impressão de uma lua cheia, onde se vêem pessoas, pessoas de verdade, que parecem Papalaguis de verdade, vestidos como eles, movendo-se, andando para cá e para lá, correndo, rindo, saltando, tal qual existem em todos os lugares da Europa. É como se fosse a imagem da lua na lagoa, é a lua e não é; é apenas cópia. Todos mexem com a boca, não há dúvida de que falam, mas não se ouve nada, som algum, palavra alguma, por mais que se preste atenção, por mais que se fique nervoso por não escutar nada. Daí por que aquele Papalagui bate no baú: é para dar a impressão de que é por causa de seu barulho que “não se escuta o que as pessoas falam; e é por isto que, de vez em quando, aparecem uns escritos na parede, explicando o que os Papalaguis disseram ou vão dizer.

Mas é certo que estes homens na parede são homens de mentira, não são homens de verdade. Se se pudesse agarrá-los, ver-se-ia que são feitos apenas de luz, que não é possível pegar neles. Servem somente para mostrar ao Papalagui todos os seus prazeres e pesares, suas tolices e fraquezas. O Papalagui vê as mais bonitas mulheres, os mais belos homens perto de si, pertinho mesmo. São mudos, mas o Papalagui vê seus olhos brilhantes e seus movimentos; dão a impressão de que nos vêem, de que nos falam. O Papalagui, assim, vê os chefes mais importantes dos quais jamais se aproximará, sem dificuldade, como se fosse um igual. Participa dos grandes banquetes, fonos, e outras festas. Parece que ele está mesmo ali, comendo junto, festejando junto. Mas também vê o Papalagui roubando a moça de uma outra aiga; ou uma moça traindo o namorado. Ele vê um homem furioso agarrando um álii rico pela garganta, enterrando-lhe os dedos no pescoço; ele vê os olhos do álii saltando até morrer, o homem furioso arrancando-lhe da tanga o metal redondo e o papel pesado.

Enquanto seus olhos vêem estas coisas alegres ou horríveis, o Papalagui deve ficar quietinho, sem poder ralhar com a moça, nem socorrer o álii rico, sem poder salvá-lo. Não sente, no entanto, dor alguma, não sofre nada, olha para tudo isso muito contente, como se não tivesse coração. Não sente medo, nem repugnância, mas observa tudo como se fosse, ele próprio, um ser de outra espécie, porque está sempre convencido de que é melhor do que os homens que ele vê no raio de luz, convencido de que nunca faria as loucuras que o outro faz. Quieto, sem tomar fôlego, fica com os olhos na parede. Quando vê um homem forte, nobre, fixa essa imagem e pensa consigo: “Eu sou assim!”. Absolutamente imóvel no seu assento de madeira, olha para a parede abrupta, Usa, na qual só existe uma luz enganadora que um feiticeiro joga através de uma fenda estreita da parede do fundo; nesta luz, a vida é de mentira.
Estas imagens sem vida, que não respiram, dão ao Papalagui muito contentamento. Nesta sala escura, ele pode se iludir com uma vida de mentira, sem sentir vergonha, sem ser visto pelos outros. O pobre faz-se de rico, o rico faz-se de pobre; o enfermo julga-se sadio, o fraco julga-se forte. Na escuridão, cada um vive uma vida de mentira, que jamais viveu, nem viverá na realidade.

Entregar-se a esta vida de mentira tornou-se uma verdadeira paixão para o Papalagui. Tão grande, às vezes, que o faz esquecer de sua vida de verdade. É doentia esta paixão porque o homem saudável não vive a vida de mentira numa sala escura; vive a vida real, com calor, ao sol claro. O que acontece, por causa desta paixão, é que muitos Papalaguis, quando saem do lugar onde a vida é de mentira, já não podem distingui-la da vida de verdade e enlouquecem. Julgam-se ricos quando são pobres, ou bonitos quando são feios; ou praticam ações más, que seriam incapazes de praticar na vida de verdade; mas praticam-nas porque já não sabem diferençar o que é de verdade e o que é de mentira. É tal qual o estado que todos vós já vistes nos europeus, quando bebem kava demais e ficam pensando que caminham pelas ondas.
Também os muitos papéis produzem uma espécie de embriaguez, de delírio no Papalagui. Que história é esta dos muitos papéis? Imaginai uma esteira de tapa, fina, branca, dobrada, dividida e outra vez dobrada, com todos os lados cobertos com inscrições miudinhas: estes são os muitos papéis que os Papalaguis chamam de jornais.

E nestes papéis que está inscrito o grande saber do Papalagui que tem, pela manhã e à noite, de meter a cabeça neles a fim de alimentá-la, fartá-la, para pensar melhor, para ser mais rico em idéias; tal qual o cavalo que, para correr melhor, precisa comer bananas em quantidade, precisa encher a barriga com regularidade. O álii ainda está deitado na sua esteira quando uns mensageiros correm pelo país, distribuindo os muitos papéis. É a primeira coisa que o Papalagui pega assim que acorda. E lê, quer dizer, prega os olhos naquilo que os muitos papéis contam; e todos os Papalaguis fazem o mesmo: lêem, lêem o que os chefes mais importantes, ou seus porta-vozes disseram nos seus fonos; e isso está marcado direitinho na tal esteira, no tal papel, mesmo que sejam só bobagens. Até as tangas com que estavam vestidos está dito; até o que tal ou tal álii comeu, o nome do seu cavalo; até se ele próprio está com elefantíase, ou se está com a mente fraca.

Para dar uma idéia do que seriam esses papéis em nossa terra, imaginai que eles diriam o seguinte: “O pule nuu*de Matautu, hoje de manhã, depois de dormir bem, primeiro comeu um resto de taro de ontem, depois foi pescar, voltou para a cabana ao meio-dia, deitou-se na esteira, leu a Bíblia e cantou até a noite. A mulher dele, Sina, primeiro deu de mamar ao neném, depois foi tomar banho e achou, de volta, uma bela flor de pua que pôs no cabelo para enfeitar-se; depois voltou para a cabana.” E assim por diante.

Tudo quanto acontece, o que a gente faz e não faz, tudo está escrito ali: os pensamentos bons e maus, o fato de alguém ter matado uma galinha ou um porco ou de ter construído uma canoa nova. Coisa alguma acontece no país inteiro que não se conte fielmente. Isso é que o Papalagui chama “estar informado de tudo”. O Papalagui quer estar informado de tudo que acontece no país, do despontar de um dia ao despontar de outro. E fica com raiva quando alguma coisa lhe escapa, porque está sempre ávido de meter tudo para dentro de si mesmo, aqueles horrores, aquilo tudo que um homem de mente sadia trataria de esquecer o quanto antes, tem de ser comunicado a todos e, aliás, é justamente o que é ruim, o que entristece, que se comunica com mais minúcias do que aquilo que é bom; como se contar o que é bom não fosse muito mais importante e mais alegre do que contar o que é ruim.

Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo. É muito bonito, muito agradável, ao que parece, mas é ilusão, porque se dois irmãos se encontram, se cada um deles já meteu a cabeça nos muitos papéis, nenhum dos dois terá novidades ou curiosidades a contar! Cada um dos dois traz na cabeça as mesmas coisas; os dois ficam calados ou apenas repetem entre si o que os papéis disseram. Entretanto, sempre é mais interessante ter alguma coisa, uma alegria ou uma tristeza a comemorar ou a lamentar em comum, do que apenas ouvir contá-la por uma boca estranha que nada viu com os próprios olhos.

Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso. Exige que todo homem lhe dé a cabeça, os pensamentos; e consegue. Se tiveres lido os muitos papéis de manhã, saberás ao meio-dia o que cada Papalagui tem na cabeça, o que pensa.

O jornal é também uma espécie de máquina que fabrica, todos os dias, idéias novas, muito mais idéias novas do que a cabeça de um só homem pode fabricar. Acontece, no entanto, que a maior parte das idéias são fracas, não têm dignidade, nem força, enchem nossa cabeça de muito alimento, mas não a fortalecem; é a mesma coisa que enchê-la de areia. O Papalagui entope a cabeça com este inútil alimento de papel: antes de digerir uma idéia, já está absorvendo outra nova. A mente do Papalagui é tal qual o pântano que sufoca no seu próprio limo, onde já não cresce nenhum verdor, nenhum fruto; onde só se elevam miasmas nocivos e nuvens de insetos que picam. O lugar em que a vida é de mentira, junto com os muitos papéis, fizeram do Papalagui o que ele é: um homem fraco, confuso, que gosta do que não é real e que já não sabe reconhecer aquilo que é real; que toma a imagem da lua pela própria lua, que vê numa esteira escrita a própria vida.

* O juiz 

* * *
X
A grave doença que
é pensar sem parar


Quando a palavra “espírito” vem à boca do Papalagui, seus olhos ficam grandes, redondos, fixos; o peito alteia-se, a respiração torna-se mais profunda, a atitude é a do guerreiro que abateu o inimigo. Pois este “espírito” é coisa de que o Papalagui tem orgulho especial. Não se trata do grande, do poderoso espírito que o “missionário chama “Deus”, do qual todos somos imagens mesquinhas, mas do pequeno espírito que acompanha o homem, que faz o homem pensar. 

Quando olho daqui a mangueira que está atrás da igreja do missionário, não é espírito porque apenas a vejo. Mas se reconheço que é mais alta do que a igreja, é espírito. Quer dizer, não basta apenas ver uma coisa, é preciso também tirar daí algum saber, saber alguma coisa. É este saber que o Papalagui exerce da manhã à noite. O espírito do Papalagui é como um tubo de fogo carregado, uma vara de pescar atirada à água. Ele tem pena de nós, povos das muitas ilhas, porque não exercemos este saber. Ele acha que somos pobres de espíritos, estúpidos como os bichos selvagens.

É certo, sim, que exercemos pouco o saber que o Papalagui chama “pensar”. Mas a questão é saber se é estúpido quem não pensa muito, ou quem pensa demais. O Papalagui está sempre pensando: “Minha cabana é menor que a palmeira; a palmeira dobra-se à tempestade; a tempestade ruge”. É assim que ele pensa, à sua maneira, naturalmente. Mas também pensa a respeito de si mesmo: “Sou baixo; meu coração alegra-se sempre que vejo uma moça; gosto muito de sair em malaga (1)“. E assim por diante. 

Bem, isto é alegre, é bom, talvez tenha alguma utilidade pessoal para quem gosta desta brincadeira interior. Mas o Papalagui pensa tanto que para ele pensar se tornou costume, necessidade, até obrigação, coação. Tem de estar sempre pensando. É difícil para ele não pensar, é difícil viver com todas as partes do corpo ao mesmo tempo. E comum ele viver só com a cabeça enquanto todos os sentidos dormem profundamente. Embora isso não o impeça de andar normalmente, de falar, comer, rir, ele fica preso em seus pensamentos: esses são os frutos da reflexão. Há uma espécie de embriaguez nos seus próprios pensamentos.

Por exemplo, quando o belo sol brilha, o Papalagui pensa imediatamente: “Como o sol está brilhando agora, que beleza!” E continua pensando, pensando: “Como o sol está brilhando, como está bonito!” Isto está errado, inteiramente errado, absurdo, porque o melhor é não pensar em nada quando o sol brilha. O samoano inteligente estira os membros à luz quente do sol e não pensa em nada. Ele recebe o sol tanto com a cabeça quanto com as mãos, os pés, as coxas, a barriga, todas as partes do corpo. Ele deixa que a pele e os membros pensem por si; e certamente eles também pensam de uma forma diferente da cabeça. Mas para o Papalagui o pensamento está sempre no meio do caminho, tal qual um grande bloco de lava que ele não desloca. Pensa em coisas alegres, é certo, mas sem sorrir; pensa certamente em coisas tristes, mas sem chorar. Sente fome, mas não pega no taro, nem no palusami(2). O Papalagui quase sempre vive um combate perpétuo entre seus sentidos e seu espírito; ele é um homem dividido em dois pedaços. 

A vida do Papalagui é, por muitas formas, semelhante à de um homem que vai de canoa para Saváii e que, mal se afasta da praia, pensa: “Quanto tempo vou levar para chegar a Saváii?” Pensa mas não vê a paisagem agradável que tem diante dos olhos. Se aparece na margem esquerda, uma serra, os olhos do Papalagui assim que a vêem, dela não se afastam: “Que é que haverá atrás desta montanha? Talvez uma enseada profunda, talvez uma enseada estreita?” Entregue a estes pensamentos, esquece-se de cantar as cantigas do mar que os jovens cantam; nem ouve as brincadeiras divertidas das moças. Assim que a enseada e a serra ficam para trás, outro pensamento o atormenta: “Será que Vai cair um temporal antes de anoitecer? Será?” O Papalagui procura, então, no céu nuvens sombrias. Só pensa no temporal que pode cair; que não cai e a Saváii ele chega sem dificuldade. Mas é como se não tivesse viajado, porque as idéias estiveram, a todo momento, separadas do corpo, fora da canoa. Teria sido o mesmo ficar em casa, em Upolu.

Um espírito que nos atormenta desta forma é um aitu; e não compreendo por que hei de amá-la. O Papalagui ama, honra o seu espírito e o alimenta com idéias da sua cabeça. Não o deixa sem alimento, e não sofre com o fato de que as idéias se devoram umas às outras. O Papalagui fala muito nos pensamentos que tem, deixa que façam tanto barulho quanto crianças malcriadas. Porta-se como se as idéias fossem tão preciosas quanto as flores, os montes, os bosques. Fala tanto nos pensamentos como se não tivesse importância alguma a bravura de um homem, o contentamento de uma moça. Ele se comporta como se houvesse um mandamento, um mandamento divino que ordenasse aos homens pensar muito. Se as palmeiras e os montes pensam, nem por isto fazem barulho; e certamente se pensassem tão alto e tão selvagemente quanto o Papalagui, as palmeiras não teriam lindas folhas verdes, nem frutos dourados (pois todos sabemos que pensar envelhece e enfeia depressa). E os frutos cairiam antes de amadurecer. Mas o que é provável é que pensem muito pouco.

Além disto, existem muitas formas, muitas maneiras de pensar e existem muitos alvos para a flecha do pensamento. Triste sorte a daquele que pensa no que está longe. “Como será a aurora do dia de amanhã? Que é que o Grande Espírito pensa fazer de mim quando eu for para o Saléfé’é (3)? Onde é que eu estava antes de os enviados do Tageloa (4) me darem uma alma?” É tão inútil pensar nisso quanto querer ver o sol de olhos fechados. Não adianta, nem é possível pensar no que está longe, pensar em como foi o começo. Aqueles que tentam, ficam parados no mesmo lugar, da mocidade à velhice, tal qual o martim-pescador, sem ver o vasto mar, a moça bonita, sem alegria, sem coisa alguma, sem coisa alguma mesmo. Nem a kava lhes sabe bem e, quando dançam na praça da aldeia, olham para o chão. Não vivem, embora não estejam mortos. Atacou-os a doença grave que é pensar sem parar. 

Na Europa se diz que pensar assim torna grande e alto o espírito. Quando alguém pensa muito e pensa depressa, diz-se, na Europa, que é uma grande cabeça. Em vez de despertar pena, essas cabeças são muito honradas. As aldeias as transformam em chefes. Quando uma grande cabeça vai a uma aldeia, sente-se obrigada a comunicar seus pensamentos às pessoas que se sentem, então, muito alegres, deleitadas. Se morre uma grande cabeça, o país inteiro põe luto, chora-se muito o que se perdeu. Talha-se na pedra uma imagem da grande cabeça que morreu para se mostrar a todos na praça do mercado. Esta cabeça de pedra é muito maior do que era em vida para que o povo possa admirá-la bem e possa refletir na sua própria cabeça, tão pequena.

Se se perguntar a um Papalagui porque ele pensa tanto, responderá: “Porque não quero ser tolo.” É valea (5) todo Papalagui que não pensa, se bem que, na verdade, é bem um sinal de inteligência quem sabe encontrar seu caminhar sem pensar muito. 

Mas creio que isso não passa de pretexto e que certo impulso mau persegue o Papalagui: o que ele deseja, realmente, quando pensa, é atingir os poderes secretos do Grande Espírito. Ele próprio dá um bonito nome a esse desejo: “conhecer”. Conhecer quer dizer ter uma coisa tão perto dos olhos que se pode nela tocar com o nariz, e até atravessá-la, penetrá-la. Esta procura, este desejo de penetrar tudo é uma ansiedade impertinente, desprezível. Ele pega uma escalopendra, atravessa-a com um pequeno dardo, arranca-lhe uma perna e quer ver que aparência tem essa perna separada do corpo; de que forma está a este presa; depois quebra a perna do animal para ver sua grossura. Para ele, isto é importante, é essencial. Arranca da perna uma lasca do tamanho de um grão de areia e coloca-a em baixo de um tubo comprido, dotado de certa força misteriosa, que aguça muito a visão. Com este olho grande e forte, o Papalagui vê tudo, tuas lágrimas, uma tirinha da tua pele, um cabelo, tudo, mas tudo mesmo. Ele parte todas estas coisas até o ponto de não haver mais o que quebrar nem partir. Este ponto é quase sempre o mais minúsculo possível, mas é também quase sempre o mais importante porque é por ele que se chega ao mais alto conhecimento, que só o Grande Espírito possui.
Mas aí chegar não é dado ao Papalagui e nem a força mágica dos seus olhos mais penetrantes jamais conseguiram pois o Grande Espírito não deixa que lhe tomem os segredos. Nunca.

Quem jamais conseguiu trepar mais alto do que o topo da palmeira a que as pernas
se agarram? Chegando ao topo, tem-se de descer novamente, pois não há mais tronco por onde subir. O Grande Espírito também não gosta da curiosidade dos homens e foi por isto que atou fortes cipós por cima das coisas, de todas elas, sem princípio nem fim; eis porque todo aquele que está sempre desdobrando e desdobrando o seu pensamento é obrigado a reconhecer que continua ignorante e a deixar ao Grande Espírito as respostas impossíveis de descobrir. Se bem, no entanto, que os Papalaguis mais inteligentes e corajosos o reconheçam, existem alguns, doentes de tanto pensar, que não cedem em sua paixão de querer saber e daí resulta que, de tanto pensar, se desorientam de mil maneiras, tal qual penetrassem numa floresta virgem sem trilhas por onde caminhar. Extraviam-se e chega um momento em que a inteligência deles não consegue mais, de repente, conforme já tem de fato acontecido, distinguir entre homens e animais; e acabam afirmando que os homens são animais e que os animais são gente.

Daí porque é particularmente ruim, é nefasto que todos os pensamentos, bons e maus, sejam logo inscritos em umas esteiras finas, brancas. Então, diz o Papalagui que “estão impressos”, quer dizer, o que aqueles doentes pensam é escrito por uma máquina, muitíssimo estranha, esquisita, que tem mil mãos e que encerra a vontade poderosa de muitos grandes chefes. E não é uma vez só, nem duas, mas muitas vezes, vezes infindáveis, que ela escreve sempre os mesmos pensamentos. Depois, comprimem-se muitas esteiras de pensamentos em pacotinhos, chamados “livros” que são enviados para todas as partes do país. Todos que absorvem estes pensamentos, num instante contaminam-se. Eles engolem estas esteiras como se fossem bananas doces. Levam estes livros para casa, amontoam-nos, enchem com eles baús inteiros. E todos, moços e velhos, roem-nos feito ratos que roem a cana-de-açúcar. E por isto que existem tão poucos Papalaguis capazes ainda de pensar com sensatez, de ter idéias naturais, como são as de qualquer samoano ajuizado.

Da mesma forma metem-se na cabeça das crianças tantos pensamentos quanto se pode, obrigando-as, todos os dias, a roer certa quantidade de esteiras com pensamentos. Só as mais sadias repelem esses pensamentos ou deixam que lhes passem pelo espírito como se fosse uma rede. A maior parte, no entanto, sobrecarrega-se com tantos pensamentos que já espaço não resta para que a luz penetre. É o que se chama “formar o espírito”. O que sobra de tamanha confusão é o que chamam “instrução”. A “instrução” se espalha por toda a parte.
“Instrução” quer dizer: encher a cabeça de saber até as bordas. Quem tem instrução sabe a altura da palmeira, o peso do coqueiro, o nome de todos os seus grandes chefes, e quando é que guerrearam. Sabe de que tamanho é a lua, as estrelas, e todos os países do mundo.

Conhece todos os rios pelo nome, todos os animais, todas as plantas. Sabe tudo, tudo mesmo. Se fizeres qualquer pergunta a um homem que tenha instrução, ele te dispara a resposta antes de fechares a boca. A cabeça dele está sempre carregada de munição, sempre pronta para disparar. Não há europeu que não dê os mais belos momentos da sua vida ao trabalho de transformar a cabeça no tubo de fogo mais rápido possível. Mesmo quem tenta escapar, é obrigado a se instruir porque todo Papalagui tem que saber e tem que pensar.
A única coisa capaz de curar os doentes de tanto pensar seria esquecer e expulsar os pensamentos. Mas eles não farem isso ou só pouquíssimos; a maior parte leva na cabeça um fardo, um fardo que fatiga o corpo, tira as forças, envelhece antes do tempo.

Amados irmãos que não pensam: depois de tudo quanto vos disse devemos, realmente, querer imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele pensa? Não, eu digo. Não devemos, nem podemos fazer coisa alguma que não nos torne mais fortes de corpo, mais alegres e melhores de espírito. Precisamos, e isto é o mais importante, evitar tudo quanto nos prive da alegria de viver, de tudo que nos obscureça o espírito, lhe tire a luz clara, e faça a cabeça brigar com o corpo. O Papalagui, por sua maneira de viver, nos prova que pensar sem parar é doença grave que muito diminui o valor do homem.

*

Notas:
1 Inferno dos samoanos.
2 O deus mais poderoso da lenda.
3 Viajar
4 Prato predileto dos samoanos.
5 Tolo
* * *
XI
O Papalagui quer nos arrastar
para a escuridão em que vive


Irmãos amados, tempo houve em que vivíamos na escuridão e nenhum de nós conhecia a luz radiante do Evangelho; vagávamos como crianças que não conseguem encontrar a sua cabana; o nosso coração nao sabia de nenhum grande amor; eram surdos ainda os nossos ouvidos à palavra de Deus. 

O Papalagui trouxe-nos a luz; veio a nós para nos libertar da escuridão em que vivíamos. Por isto o honramos; porque foi portador da luz, porque foi porta-voz do Grande Espírito que os Brancos chamam Deus. Reconhecemos o Papalagui e o consideramos como irmão; não lhe fechamos as portas da nossa terra, mas com ele dividimos, filhos de um só Pai, todos os frutos e todos os alimentos, na maior franqueza.

O homem branco não se esquivou de nenhum esforço para nos trazer o Evangelho; sequer quando, crianças teimosas, resistíamos ao que nos ensinava. Por estes esforços, por tudo isto que por nós sofreu, havemos de ser-lhes gratos; e por todos os tempos o festejaremos, o honraremos porque nos trouxe a luz.

O missionário do Papalagui foi o primeiro que nos ensinou o que é Deus e nos desviou dos nossos antigos deuses, que chamou de falsos ídolos porque não tinham dentro de si o verdadeiro Deus. Foi por isto que deixamos de adorar as estrelas da noite, o poder do fogo e do vento, e nos voltamos para o seu Deus, o grande senhor do céu.

O primeiro bem que Deus nos fez foi o seguinte: com a ajuda do Papalagui nos tomou todos os tubos de fogo, todas as armas, a fim de que vivêssemos em paz uns com os outros, como bons cristãos. Sabeis que Deus nos manda amar uns aos outros e não matar, e este é o mais importante dos seus mandamentos. Jogamos fora as nossas armas e, desde aí, não há mais guerra a devastar as nossas ilhas e todos se amam como irmãos. Aprendemos que as ordens de Deus são boas porque hoje todas as aldeias vivem em paz, aldeias onde, antigamente, só havia agitação e susto incessante. Não é ainda em todos dentre nós que Deus reside, não são todos dentre nós que o têm no coração, mas todos lhe somos gratos porque nos tornamos maiores e mais fortes desde que adoramos em Deus, o Grande, o Maior chefe da tribo, o Senhor do céu e da terra. Reverentes, agradecidos, ouvimos as suas palavras sensatas e majestosas que fazem cada vez maior o nosso amor, este amor que cada vez mais nos enche com o seu Grande Espírito.

Disse eu que o Papalagui nos trouxe a luz, a luz magnífica que flamejou em nossos corações, que encheu de alegria e gratidão os nossos sentidos. O Papalagui recebeu a luz antes de nós; já a recebia quando os mais velhos dentre nós ainda não eram nascidos. Mas ele só tem a luz na mão que estende para iluminar os outros; ele próprio vive na treva; tem o coração longe de Deus, embora o chame com a boca, porque a luz é só nas mãos que a tem.

Não há para mim nada mais triste, coisa alguma me enche mais de luto o coração, ó amados irmãos das muitas ilhas, do que ter que vos dizer isso. Mas não podemos, não devemos nos enganar a respeito do Papalagui para não sermos por ele arrastados à treva em que vive. O Papalagui nos trouxe a palavra divina, mas ele próprio não compreende a palavra nem o ensinamento de Deus. Compreende-as com a boca, com a cabeça, mas não com o corpo. Não o penetrou a luz de tal forma que irradie e, onde quer que vá, tudo ilumine a partir do seu coração; esta luz que também se chama amor.

Nem ele percebe mais, realmente, que as suas palavras e os seus atos se contradizem. Mas é o que já se vê pela sua incapacidade de pronunciar com o coração a palavra “Deus”. Quando a pronuncia, torce o rosto, como se estivesse cansado, como se a palavra nada significasse. Todos os Brancos chamam-se filhos de Deus; e gostam que isso seja confirmado pelos escritos de certos senhores do seu mundo. Mas Deus lhes é estranho, ainda que todos hajam recebido o ensinamento certo, ainda que todos saibam de Deus. Nem aqueles que têm o encargo de falar de Deus nas grandes cabanas que constróem em sua honra, nem estes têm Deus no coração; o que dizem o vento carrega, o que dizem cai no vazio. Os que falam em nome de Deus não o têm nas suas falas; e falam feito as ondas que batem nos recifes; já ninguém os ouve, mesmo quando rugem, e rugem sem cessar.

Posso dizer isso sem que Deus se encolerize. Nós, filhos da ilhas, não éramos piores, quando adorávamos as estrelas e o fogo, do que é, hoje, o Papalagui. Éramos maus, sim, vivíamos no escuro, porque não conhecíamos a luz. 0 Papalagui, no entanto, conhece a luz, mas vive na escuridão, e é mau. O que há de pior é que se chama de filho de Deus e cristão; e quer nos fazer acreditar que é o fogo porque tem uma chama nas mãos.
É raro o Papalagui pensar em Deus. E só quando a tempestade o apanha, quando a chama da sua vida quer se apagar, é que ele pensa na existência de forças acima de si, de senhores mais fortes do que ele. De dia não se preocupa com Deus, afasta-o dos seus estranhos gozos, das suas estranhas alegrias. Sabe que não agradam a Deus, e sabe também que, se a luz de Deus realmente brilhasse nele, teria de jogar-se na areia de vergonha. É só ódio, é só avidez, é só hostilidade que o enchem. O coração do Papalagui é como um grande gancho pontudo, gancho que só serve para roubar, que não é luz, luz que dissipa a treva que tudo aclara e aquece.

Cristão chama-se a si mesmo o Papalagui, nome que é tão belo quanto o mais belo dos cantos. Cristão! Possamos nós chamar-nos cristãos por todos os tempos. Ser cristão quer dizer: amar a Deus poderoso e amar ao seu irmão, e só depois amar a si mesmo. E amar quer dizer fazer o bem; o amor tem de estar em nós tal qual o nosso sangue, ser uma só coisa com o coração e a mão. Mas o Papalagui tem as palavras cristão, amor, Deus só na boca. Bate-as com a língua, faz muito barulho, mas nem o seu coração, nem o seu amor inclinam-se ante Deus; inclinam-se apenas ante as coisas, ante o metal redondo e o papel pesado; ante as idéias de prazer, ante as máquinas. Não é a luz que o alimenta, mas é a avidez selvagem do tempo, é a insensatez da profissão. Ele irá dez vezes mais ao lugar onde a vida é de mentira do que à procura de Deus, que está longe, longe.
Irmãos amados, o Papalagui tem, hoje em dia, mais ídolos do que jamais tivemos noutros tempos, se ídolo é algo que, além de Deus, se adora e se venera, que se tem no coração como o que há de mais digno de amor. Deus não é o que vive no melhor lugar dentro do coração do Papalagui. E é por isto que ele não faz a sua vontade, e sim a vontade do aitu. Penso e digo: o Papalagui trouxe-nos o Evangelho como se fosse uma espécie de mercadoria, a fim de carregar em troca os nossos frutos e a parte maior e mais bela da nossa terra. Considero-o bem capaz disso porque vi muita sujeira, muito pecado no coração do Papalagui; e sei que Deus mais nos ama do que a ele, ele que nos chama selvagens, quer dizer, iguais aos que têm dentes de feras e que não têm coração.

Mas Deus faz cair a cegueira dos olhos destes selvagens, faz que eles vejam como são os Papalaguis. Deus disse ao Papalagui: “Sê o que quiseres, não te dou mais mandamento algum.” O Branco, então, mostrou o que é. Ó vergonha! Ó horror! Com uma voz orgulhosa nos tirou as armas e falou o que Deus fala: “Amai-vos uns aos outros!” E daí? Ó irmãos, sabeis da notícia espantosa das coisas que acontecem contra o amor, contra Deus, contra a luz: a Europa se devora. Os Papalaguis se tornaram loucos furiosos. Eles se matam. O sangue, o pavor, a destruição reinam. O Papalagui confessa, afinal, que não tem Deus dentro de si. A luz que tem na mão está para apagar-se. Os seus caminhos estão escuros, mais não se ouve do que o terrível bater das asas dos cães que voam e o grito das corujas.

Irmãos, enche-me o amor por Deus, o amor por vós e é por isto que Deus me deu voz para vos dizer tudo que eu vos disse: para guardarmos nossa força interior, para não nos deixarmos seduzir pela voz do Papalagui, que fala depressa e astutamente. Quando ele vier nos procurar, levantemos nossos braços e brademos: “Cala-te, cala a tua voz ruidosa; tuas palavras são para nós o barulho da ressaca, o silvo do vento nas palmeiras, enquanto não for alegre o teu rosto, e saudável; enquanto teus olhos forem vazios; enquanto a imagem de Deus de ti não irradie como o sol”.

Juremos também que haveremos de lhe dizer: “Afasta-te de nós com teus prazeres e teus gozos, com tua avidez selvagem de riquezas que juntas nas mãos e na cabeça, com tua ânsia de ser mais do que o teu irmão, com tua atividade demasiada e insensata, com a obra desatinada das tuas mãos; com teu pensamento e teu saber que procuram e, entretanto, nada sabem; com todas as tuas loucuras que te impedem de dormir tranqüilo na esteira e te inquietam. Não precisamos de nada disto; contentamo-nos com as alegrias nobres e
belas que Deus nos dá em quantidade”. Que Deus nos ajude, nao deixando que a sua luz nos cegue e nos leve ao erro; que nos mostre, sim o caminho, conduzindo-nos à claridade magnífica e com ela nos inunde para que amemos uns aos outros e tenhamos pleno de talofas o coração.

* * *

Categorias: Books/Livros, Saúde e bem-estar | Tags: | Deixe um comentário

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