Arquivo do mês: junho 2013

Mortes por H1N1 em São Paulo fazem governo mudar protocolo; entenda


Dados divulgados nesta terça-feira sobre o avanço do H1N1, conhecida como gripe suína, em São Paulo fizeram o Ministério da Saúde alterar sua estratégia para combater a doença.

Entre as informações, a mais alarmante é a de que o Estado de São Paulo concentrou – até a semana passada – 90% das mortes por esse tipo de gripe. No total, dos 61 óbitos, 55 ocorreram em São Paulo.

Apesar de não usarem o termo surto, tanto o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, como o o diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis, Claudio Maierovitch, expressaram preocupação e anunciaram medidas emergenciais para lidar com a situação.

“Estamos muito preocupados”, disse Maierovitch. “Enviamos para o Estado de São Paulo uma equipe para investigação detalhada dos óbitos.”

Mas quais os motivos por trás do aumento no número de vítimas da gripe H1N1? Como o governo vai lidar com isso? Qual o tratamento mais apropriado? Veja abaixo uma série de perguntas e respostas que a BBC Brasil preparou para destrinchar o tema:

Por que São Paulo foi o Estado mais atingido?

A maior suspeita do Ministério da Saúde é a de que haja lentidão por parte dos profissionais de saúde em receitar o uso do medicamento antiviral Tamiflu (oseltamivir).

Pela nova estratégia do governo, o remédio deve ser aplicado nas primeiras 24 horas após a suspeita da doença, sem que haja necessidade de se confirmar o diagnóstico por exame laboratorial.

Que medidas emergenciais o governo decidiu tomar para lidar com a situação?

A principal medida anunciada nesta terça-feira pelo Ministério da Saúde é alertar médicos, tanto do serviço público como os que atendem planos de saúde, para que receitem Tamiflu mais rapidamente.

“O importante é incentivar uma mudança de comportamento no profissional de saúde. É preciso que eles entendam que a gripe não tem nada de banal e que no caso de suspeita de H1N1 é preciso receitar o Tamiflu em menos de 48 horas”, afirma infectologista Carlos Magno Fortaleza, professor da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu.

Estatísticas de anos anteriores confirmam esse cenário. Um levantamento feito pelo Ministério no ano passado no Rio Grande do Sul mostrou que apenas 5% das vítimas receberam o medicamento nas 48 horas.

Segundo o governo, serão organizadas reuniões e videoconferências para alertar e instruir hospitais e centros médicos, além da distribuição de 1,2 milhões de doses de Tamiflu e da liberação de recursos para os Estados mais afetados.

Se os sintomas da H1N1 são tão parecidos com os da gripe comum, como determinar quem deve receber o Tamiflu?

A orientação é receitar o antiviral para todas as pessoas que fazem parte do grupo de risco e que apresentem sintomas de gripe, sem aguardar resultados de laboratório ou sinais de agravamento.

Integram esse grupo crianças menores de 2 anos, gestantes, puérperas (mulheres nos 45 dias após o parto), idosos, obesos e doentes crônicos.

Para quem não faz parte desse segmento mais vulnerável, o Tamiflu deve, segundo o Ministério, ser receitado para pacientes com sinais de agravamento de do quadro gripal, com sintomas como febre alta por três dias e dificuldade para respirar.

É preciso fazer o teste para se comprovar H1N1?

Apesar de ser possível determinar se há o vírus H1N1 com o teste, ele não é indicado porque seu resultado pode não vir a tempo do prazo indicado para se começar a tomar o Tamiflu.

“Apesar de haver exames de resultado rápido, eles não são eficazes especialmente porque podem não estar disponíveis no local onde o paciente está”, explica o infectologista da Unesp.

Assim, o governo está fazendo o teste apenas para identificar melhor o vírus em circulação este ano.

Planos de saúde cobrem o teste?

De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar, não há cobertura obrigatória pelos planos de saúde para exames que detectam a gripe H1N1.

Os números apresentados pelo governo são atuais?

Sim, foram coletados até 12 de maio. Os municípios não são obrigados a reportar a instâncias superiores todos os casos de H1N1. No entanto, devem fazer a notificação obrigatória e imediata nos casos de Síndrome Gripal e Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Por isso, o governo federal tem números relativamente atualizados.

O que o governo deve fazer para evitar um cenário parecido no ano que vem?

Além de alertar médicos a receitar Tamiflu nos casos citados acima, o infectologista Carlos Magno Fortaleza vê como prioridade incentivar uma maior adesão à vacina contra gripe.

“A vacina da gripe é constantemente bombardeada por boatos de que faz mal, de que tem efeitos colaterais… Há sempre idoso que não querem tomar. Neste ano, muitas grávidas não tomaram e isso certamente está relacionado a esses boatos. Muitos obstetras ainda temem essa vacina”, diz. “É preciso pensar em uma estratégia de como divulgá-la melhor e acabar com esses temores infundados.”

Há mais casos de H1N1 neste ano em relação a anos anteriores?

Ainda não. De 1º de janeiro a 12 de maio de 2013, foram notificados em todo o país 4.713 casos mais graves de gripe, classificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Destes, 388 casos foram confirmados para o vírus Influenza A(H1N1). No mesmo período deste ano, foram confirmados 61 mortes por H1N1.

Durante o ano de 2012, foram registrados 20.539 casos da SRAG, sendo confirmados 2.614 para A (H1N1). No ano passado, foram contabilizadas 351 mortes por esse vírus. Em 2011, foram 113 mortes e em 2010, 21.

A epidemia de H1N1 ocorreu em 2009, quando foram registrados mais de 50 mil casos, sendo 2.060 mortes.

Qual a diferença entre a gripe comum e a influenza A (H1N1), também conhecida como Gripe A ou gripe suína?

Elas são causadas por diferentes subtipos do mesmo vírus da influenza. O subtipo A (H1N1) produziu a pandemia de 2009 e continua circulando como mais um dos subtipos do vírus da influenza.

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Bebida refrescante de limão com café


Ingredientes

  • 20 ml de café pronto (sem adoçar)
  • 1 limão
  • 300 ml de refrigerante de limão (pode ser zero ou normal)

Modo de fazer

1. Esprema o limão e despeje o suco no copo do liquidificador.

2. Acrescente o café e o refrigerante e bata todos os ingredientes. Sirva a bebida gelada.

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Our endless abnegation


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Guerra de classes urbana: As cidades são construídas para os ricos?


Christoph Twickel – Der Spiegel

As lutas de classe de hoje estão ocorrendo cada vez mais nas cidades, diz o teórico social e marxista David Harvey. Em uma entrevista para a “Spiegel Online” ele discute como a urbanização exercerá um papel chave nos conflitos sociais que virão.

Spiegel Online: Por que um marxista deveria se preocupar atualmente com as grandes cidades em vez da classe trabalhadora?

Harvey: Os marxistas tradicionais reconhecidamente veem a vanguarda da revolução na classe trabalhadora industrial. Mas como isso está desaparecendo no rastro da desindustrialização do Ocidente, as pessoas estão começando a entender que os conflitos urbanos provavelmente serão decisivos.

Spiegel Online: Ao longo da crise da dívida, os salários caíram e os benefícios sociais foram reduzidos na Grécia. Enquanto isso, greves gerais não geraram pressão suficiente para reverter as mudanças. Isso pode ser visto como uma evidência que apoia sua teoria, a de que o proletariado tradicional não pode mais paralisar um Estado?

Harvey: Sim. A classe trabalhadora de hoje faz parte de uma configuração mais ampla de classes na qual a luta é centrada na própria cidade. Eu substituo o conceito tradicional de luta de classes pela luta de todos aqueles que produzem e reproduzem a vida urbana. Os sindicatos precisam olhar para a existência urbana cotidiana –uma chave para os conflitos sociais que virão. Nos Estados Unidos, isso levou a central sindical AFL-CIO a começar a colaborar com os trabalhadores domésticos e migrantes.

Spiegel Online: Uma das teses básicas de seu livro “Commonwealth” é que o desenvolvimento urbano resolve o problema do capital excedente. Ele constrói ruas e desenvolve propriedades por meio de crédito e, assim, tenta escapar da recessão.

Harvey: Um relatório do Federal Reserve Bank (o banco central americano) de San Francisco colocou recentemente desta forma, dizendo que, historicamente, os Estados Unidos sempre superaram recessões construindo casas e as enchendo de coisas. A urbanização pode resolver crises, mas, mais do que qualquer outra coisa, é uma forma de sair de crises.

Spiegel Online: Há exemplos atuais dessa estratégia?

Harvey: Onde as economias estão atualmente crescendo mais? Na China e na Turquia. O que vemos em Istambul? Guindastes por toda parte. E quando a crise estourou em 2008, a China perdeu 30 milhões de empregos em seis meses devido à queda das importações americanas de bens de consumo. Mas então o governo chinês criou 27 milhões de novos empregos. Como? Os chineses fizeram uso de seus imensos superávits comerciais para montar um programa gigante de desenvolvimento urbano e infraestrutura.

Spiegel Online: Essa estratégia de curto prazo para combate à crise não é auxiliada pela existência de um regime autoritário como o da China?

Harvey: Imagine Obama ordenando ao Goldman Sachs que desse dinheiro para desenvolvedores urbanos. Boa sorte! Mas quando um banco chinês recebe uma ordem do Comitê Central do Partido Comunista, ele empresta quanto dinheiro for necessário. O governo chinês forçou os bancos a fornecerem grandes quantidades de dinheiro para projetos de desenvolvimento.

Spiegel Online: Esse tipo de urbanização é necessariamente uma coisa ruim?

Harvey: A urbanização é um canal pelo qual o superávit de capital flui para construção de novas cidades para a classe alta. É um processo poderoso que define a razão de ser das cidades, assim como quem pode viver lá e quem não pode. E determina a qualidade de vida nas cidades segundo as estipulações do capital, não das pessoas.

Spiegel Online: Ao mesmo tempo, em Istambul, a Administração de Desenvolvimento Habitacional, Toki, construiu vários grandes projetos habitacionais para os pobres. Isso não contradiz sua tese?

Harvey: Não, porque os moradores do chamado Geçekondus, os projetos habitacionais informais na periferia da cidade, foram sumariamente transplantados para áreas em desenvolvimento a 30 quilômetros do centro da cidade, uma expulsão em massa.

Spiegel Online: A crise das hipotecas subprime (de risco) nos Estados Unidos surgiu precisamente da tentativa de incorporar as classes mais baixas na propriedade de imóveis. Produtos financeiros imprudentes foram criados para que até mesmo os mais pobres pudessem obter empréstimos.

Harvey: Dê crédito! Esse grito de batalha promoveu a agenda neoliberal. Mas isso não é novo. Durante o McCarthismo após a Segunda Guerra Mundial, a classe dominante já reconhecia que a propriedade de imóvel exercia um papel importante na prevenção de distúrbios sociais. Por um lado, os ativistas de esquerda eram combatidos como antiamericanos. Por outro, a construção era promovida com reformas financeiras e hipotecárias. Nos anos 40, a proporção de lares ocupados pelo proprietário nos Estados Unido ainda estava abaixo de 40%. Nos anos 60, já era de 65%. E durante o último boom imobiliário, era de 70%. Nas discussões sobre reforma das hipotecas no final dos anos 30, a frase chave era: “Proprietários de imóveis endividados não entram em greve”.

Spiegel Online: Em seu livro “Commonwealth”, os filósofos Michael Hardt e Tony Negri alegam que a cidade é uma fábrica para produção de bens comuns. O senhor concorda?

Harvey: Muito gira em torno da definição de “bens comuns urbanos”. O fato de as praças centrais serem públicas é significativo em termos do direito à cidade, como demonstraram os movimentos Ocupe em Nova York e Londres ao tomarem parques privatizados. Nesse contexto, eu gosto do modelo histórico da Comuna de Paris: pessoas que moravam na periferia voltaram ao centro da cidade para retomar a cidade da qual foram excluídas.

Spiegel Online: Os movimentos Ocupe deveriam lutar pelo direito à cidade? Casa a casa, parque a parque?

Harvey: Não, para isso é preciso poder político. Mas, atualmente, a esquerda infelizmente se esquiva de projetos de grande escala que exigem políticas públicas –cedendo voluntariamente poder, no meu entender.

Spiegel Online: O senhor é um teórico social e marxista. No seu livro mais recente, o senhor se refere à “arte de alugar”, isto é, quando o capital ganha lucros adicionais com as discrepâncias locais. O que o senhor quer dizer com isso?

Harvey: Colocando de modo simples, um monopolista pode exigir um ágio por um commodity muito procurado. Atualmente, as cidades estão exigindo ágio por anunciarem a si mesmas como culturalmente únicas. Depois que o Museu Guggenheim foi construído em Bilbao em 1997, cidades de todo o mundo seguiram seu exemplo e começaram a desenvolver projetos referenciais. A meta é poder dizer: “Esta cidade é única, e esse é o motivo para ser preciso pagar um preço especial para estar aqui”.

Spiegel Online: Mas se toda cidade tivesse um Museu Guggenheim ou uma filarmônica como a que está sendo construída atualmente em Hamburgo, não haveria um efeito inflacionário em relação a esses projetos que os levaria ao fracasso?

Harvey: A bolha já estourou na Espanha, e muitos dos projetos imensos permanecem apenas semiconcluídos. A propósito, grandes eventos como os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo de futebol e festivais de música servem ao mesmo propósito. As cidades buscam assegurar para si mesmas uma posição nobre no mercado –como um vinho raro de uma safra excepcionalmente boa.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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“Passos, se queres cortes, dá-nos tua cabeça”


Greve geral no nosso país patrício hoje, estou vendo pela RTP (não tenho esse canal em casa, sniiiff…). Será que o Brasil está servindo de exemplo de mobilização? 🙂

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Como o Papalagui cobre a sua carne com muitas tangas e esteiras


O Papalagui está sempre precupado em cobrir bem a sua carne. “O corpo e os membros são carne; só aquilo que está acima do pescoço é que é o homem, realmente”: assim me falava um Branco, muito respeitado e tido como muito sábio. Queria ele dizer que só se devia considerar aquelas partes em que reside o espírito, com todos os pensamentos, bons e maus: a cabeça. A cabeça, sim, e se necessário também as mãos, o Branco permite que fiquem descobertas, embora a cabeça e a mão não sejam mais do que carne e osso. Aquele que, quanto ao mais, deixa que se lhe veja a carne não pode pretender à verdadeira moralidade.

Quando faz de uma moça sua esposa, nunca o rapaz sabe se foi enganado, porque jamais lhe viu, até então, o corpo(1). A moça, por mais bela que seja, tanto quanto a mais bela taopu (2) de Samoa, cobre o corpo para que ninguém o veja, nem tenha prazer em vê-lo. A carne é um pecado, segundo diz o Papalagui, porque o seu espírito é grande, é o que ele pensa. O braço que se ergue, à luz do sol, para atirar, é flecha do pecado; o peito, sobre o qual palpitam as ondas do respirar, é habitação do pecado; os membros com que a moça convida para a siva (3) são pecadores. E também os membros que se tocam para fazer seres humanos, alegrando a vasta terra, são pecaminosos. Tudo que é carne é pecado. Um veneno existe em todos os tendões, malicioso, que salta de um homem para outro. O espetáculo da carne, por si só, é suficiente para envenenar quem a contempla, intoxicá-lo, corrompê-lo e torná-lo tão abjeto quanto aquele que se deixa ver. É o que proclama a moral sagrada do homem branco.

É por isto que o corpo do Papalagui se envolve, da cabeça aos pés, em tangas, esteiras e peles, tão justas, tão apertadas, que olhar humano algum, raio algum do sol as atravessa; tão justas que o corpo se torna lívido, branco, fatigado, assim como as flores que crescem no mais profundo dos bosques.

Escutai, irmãos mais sensatos das muitas ilhas, que fardo um Papalagui carrega no seu corpo. Em primeiro lugar, envolve-o numa delgada pele branca, feita de fibras de certa planta, a chamada pele superior, que se atira para o alto e se enfia de cima para baixo, pela cabeça, peito e braços até as coxas. Por sobre as pernas e coxas até o umbigo, puxada de baixo para cima, vem a chamada pele de baixo. As duas peles são cobertas por uma terceira, mais grossa, tecida com os pelos de certo animal quadrúpede, lanoso, criado especialmente para este fim. É esta, propriamente, a tanga, que consiste quase sempre em três partes: uma cobre a parte de cima do corpo; a outra cobre a parte do meio; a terceira, as pernas. As três partes prendem-se entre si por meio de conchas(4) e tiras, feitas com a seiva ressecada da borracha, de tal forma que dão a impressão de ser uma peça só. Esta tanga quase sempre é cinzenta como a lagoa quando chove, nunca é realmente colorida; quando muito, a peça do meio, e só para aqueles homens que gostam de dar o que falar e de sempre andar atrás das mulheres.

Por fim, os pés ganham uma pele macia e outra muito dura. A pele macia, na maior parte das vezes, pode-se esticar e ajustar bem ao pé, ao passo que a outra quanto mais dura, menos se ajusta. É feita com a pele de um bicho forte que se mergulha, durante algum tempo, na água, se raspa com facas, se bate e se coloca ao sol até enrijecer de todo. Com isso o Papalagui fabrica uma espécie de canoa de bordas altas, justo o suficiente para nele caber um pé; uma canoa para o pé direito, uma canoa para o pé esquerdo. Estas canoas são amarradas, são atadas, ao tornozelo de maneira que os pés ficam dentro de um estojo rígido, tal qual o corpo do caracol. O Papalagui usa-o do nascer ao pôr do sol, sai nele para viajar e com ele dança; mesmo que esteja quente como após a chuva tropical.

Como isso é muito contrário à natureza — conforme até o Branco percebe —, como os pés ficam como se estivessem mortos e começam a cheirar mal, como, de fato, quase todos os pés europeus já não conseguem agarrar nem trepar numa palmeira, por tudo isso o Papalagui tenta esconder a sua tolice, cobrindo com muita lama a pele do bicho, que é vermelha por natureza, dando-lhe, à custa de muita esfregação, um brilho tal que os olhos não suportam o ofuscamento e têm de desviar-se.

Viveu, em certo tempo, na Europa um Papalagui que ficou célebre e que muitos homens vinham procurar porque lhes dizia: “Não é bom que useis peles tãos estreitas e pesadas nos pés; andai descalços sob o céu enquanto o orvalho da noite cobre a relva; assim vos curareis de todas as doenças”. Muito sadio era este homem, e ajuizado, mas riram-se dele e não tardaram a esquecê-lo.

As mulheres, aliás, tal qual os homens, usam muitas esteiras e tangas, enroladas no tronco e nas coxas. Sua pele se mostra sempre coberta de cicatrizes e esfoladuras devido aos cordões. Os seios ficam flácidos, sem leite, por causa de uma esteira que os aperta e vai do pescoço até o ventre e se amarra na frente e também nas costas; esteira que se enrijece com espinhas de peixe, arame e fios. É por isto que a maior parte das mães dão o leite aos filhos num rolo de vidro, fechado em baixo e com uma maminha artificial em cima.

Nem é o leite delas mesmas que dão, mas o de animais vermelhos, feios, chifrados, dos quais o arrancam com violência pelas quatro tetas que têm em baixo.

Aliás, as tangas das mulheres e das moças são mais finas que as dos homens, e também podem ser de cor, muito luzidias. É comum o pescoço e os braços aparecerem, mostrando mais carne do que o homem. Em todo caso, convém que as moças se cubram muito e se diz com benevolência, então, que são pudicas, o que significa: observam os mandamentos da boa moral.

Daí é que nunca entendi por que, nos fonos (5) nos banquetes, as mulheres e moças deixam que se lhes veja a carne do pescoço e das costas, sem daí resultar vergonha. Mas talvez esteja nisso a graça da solenidade: é que aí se permite aquilo que não se permite todos os dias.

Só os homens têm o pescoço e as costas sempre muito cobertos. Do pescoço ao mamilo, o álii, isto é, o chefe, usa um pedaço de tanga tratado a cal, do tamanho de uma folha de taro, por cima da qual, enrolado no pescoço, descansa um aro mais alto, também branco e também tratado a cal. Através deste aro ele passa um pedaço de tanga colorida, fixa-lhe um prego de ouro ou uma conta de vidro, tudo pendente do peitoral. Muitos Papalaguis também usam aros tratados a cal no punho; nunca, porém, nos tornozelos.

Este peitoral branco, como os aros brancos de cal, tem muita importância. Jamais um Papalagui fica sem estes adornos na presença de uma mulher. Pior ainda é se o aro de cal enegrece, fica sem brilho; e é por isto que muitos áliis importantes mudam todos os dias os peitorais e os aros de cal.

Enquanto as mulheres têm, para as festas, muitas esteiras de cor, com as quais enchem uns baús em pé e ocupam muitos de seus pensamentos para saber que tanga gostariam de usar hoje ou amanhã, se pode ser curta ou comprida; enquanto elas falam com muito interesse nos adornos com os quais fixá-los, os homens quase sempre têm um só traje para festas, do qual quase nunca falam. É a chamada roupa de ave, de um preto muito forte, que desce em ponta pelas costas, feito o rabo de papagaio (6). Quando se usa esta roupa de festa, também as mãos levam peles brancas; peles em cada dedo, tão estreitas que o sangue arde e corre para o coração. Por isto se permite que os homens sensatos apenas segurem estas peles nas mãos, ou as coloquem na tanga abaixo dos mamilos.

Assim que saem da cabana para a rua, o homem e a mulher envolvem-se noutra tanga mais larga, grossa ou fina conforme o sol brilhe mais ou menos. Cobrem, então, a cabeça, os homens com um vaso preto, rijo, curvo e oco feito o telhado de uma cabana samoana; as mulheres com grandes malhas de vime ou cestos virados para cima, aos quais prendem flores que nunca murcham, penas ornamentais, tiras, contas de vidro, todo tipo de enfeites. Parecem-se com a tuiga (7)  da taopu durante a dança de guerra; só que esta é muito mais bonita, e só que não cai da cabeça durante a tempestade e a dança. Os homens sacodem estas casas que levam na cabeça sempre que têm de cumprimentar alguém, enquanto as mulheres apenas inclinam para diante a carga que trazem como se fosse uma canoa muito pesada.

Só à noite, quando vai para a esteira, é que o Papalagui tira todas as tangas, mas se enrola, imediatamente, numa outra, uma só, que se abre nos pés e os deixa descobertos. As mulheres e moças quase sempre usam esta roupa de noite, ricamente bordada no pescoço, se bem que pouco se veja. Assim que o Papalagui se deita na esteira, cobre-se, sem mais tardar, até a cabeça, com as penas que se originam de uma grande ave e se juntam numa grande tanga para não se soltarem ou se espalharem para todos os lados.

Estas penas fazem o corpo suar e fazem o Papalagui pensar que está deitado ao sol, mesmo que este não brilhe, porque ao próprio sol o Papalagui não dá muita atenção.

Compreende-se, portanto, que o corpo do Papalagui seja branco e pálido, sem a cor da alegria. Mas é assim que o Branco quer. Até as mulheres, principalmente às donzelas, precupam-se muito em proteger a pele, evitando que se exponha à luz plena; quando saem para o sol, colocam-se embaixo de um grande teto, como se a cor lívida da lua valesse mais que a cor do sol. É que o Papalagui em todas as coisas gosta de fazer uma sabedoria e uma lei a sua maneira. O seu próprio nariz, pontudo como o dente do tubarão, para ele é bonito, ao passo que o nosso, sempre redondo e mole, ele acha feio e disforme, quando nós pensamos exatamente ao contrário.

É porque o corpo das mulheres e moças se cobre tanto que os homens e rapazes desejam ardentemente ver-lhes a carne, o que é natural. Noite e dia, pensam nisso, falam constantemente nas formas do corpo das mulheres e moças, como se fosse grande pecado aquilo que é natural e bonito, só devendo ocorrer na maior escuridão. Se eles deixassem ver a carne à vontade, poderiam pensar em outras coisas; e os olhos não revirariam nem a boca diria palavras impudicas quando encontrassem uma moça.

Mas a carne é pecado, é do aitu*? Existe idéia mais tola, amados irmãos? A crer no que diz o Branco, deveríamos querer, como ele, que a nossa carne fosse dura como a rocha do vulcão, sem a bela quentura que vem de dentro. No entanto, alegramo-nos porque a nossa carne encontra o sol; as nossas pernas mexem-se como o cavalo selvagem, sem tanga que as amarre, nem pele que as contenha e não nos preocupamos com que coisa alguma caia da nossa cabeça. Alegramo-nos ao ver a virgem que mostra seu corpo bonito ao sol e à lua. Tolo, cego é o Branco, que não sente o prazer verdadeiro, ele que precisa cobrir-se tanto para evitar se envergonhar.

*

Notas:

1. Nota de Tuiávii: mesmo mais tarde, ela só o mostrará raramente, e apenas de noite ou ao crepúsculo.

2  Moça aldeã, rainha das moças.

3  Dança nativa.

4  Tuávii refere-se aos botões e elásticos

5  Reuniões, deliberações

6  É do fraque que se trata, certamente.

7 Enfeite de cabeça.

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Dissertações do dia:


(me chamaram a atenção – por um acaso, todas são da área de…urgh, Direito!!)

Assédio moral organizacional nos bancos

Responsabilidade dos hospitais e operadoras de saúde pelos danos causados aos pacientes

Comunicações eletrônicas e dados digitais no processo penal

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O supremo castigo


Em todos os aeródromos,
em todos os estágios,
no ponto principal de todas as metrópoles, existe
– e quem é que não viu? –
aquele cartaz…
De modo que,
se esta civilização desaparecer
e seus dispersos e bárbaros sobreviventes
tiverem de recomeçar tudo desde o princípio
– até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos
– estes hão de sempre encontrar,
nos mais diversos pontos do mundo inteiro,
aquela mesma palavra.
E pensarão eles que coca-cola era o nome do nosso Deus.

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