O ‘ESTRANHO’ (1919), Sigmund Freud (parte 1)


A presente tradução inglesa é versão consideravelmente modificada da publicada em 1925.

Este artigo, publicado no outono de 1919, é mencionado por Freud numa carta a Ferenczi de 12 de maio do mesmo ano, na qual diz que desenterrou um velho texto de uma gaveta e o está reescrevendo. Não se sabe quando foi originalmente escrito e o quanto mudou, embora a nota citada de Totem e Tabu, na pág. 300, adiante, mostre que o tema já estava presente em sua mente em 1913. As passagens ligadas a ‘compulsão à repetição’ (ver em [1] e segs.) devem, de qualquer maneira, fazer parte da revisão. Esses trechos incluem um resumo de boa parte do conteúdo de Além do Princípio de Prazer (1920g) e falam deste como ‘já concluído’. A mesma carta a Ferenczi, de 12 de maio de 1919, anunciava que um rascunho desse último trabalho estava terminado, ainda que, de fato, o livro só tivesse sido publicado um ano mais tarde. Mais detalhes serão encontrados na Nota do Editor Inglês a Além do Princípio de Prazer, Edição Standard Brasileira, Vol. XVIII, pág. 13, IMAGO Editora, 1976.

A primeira seção do presente artigo, com a sua extensa citação de um dicionário alemão, apresenta especiais dificuldades para o tradutor. Espera-se que os leitores não se deixem desencorajar por esse obstáculo preliminar, pois o artigo está cheio de material importante e interessante e vai muito além dos tópicos simplesmente lingüísticos.

O ESTRANHO

I

Só raramente um psicanalista se sente impelido a pesquisar o tema da estética, mesmo quando por estética se entende não simplesmente a teoria da beleza, mas a teoria das qualidades do sentir. O analista opera em outras camadas da vida mental e pouco tem a ver com os impulsos emocionais dominados, os quais, inibidos em seus objetivos e dependentes de uma hoste de fatores simultâneos, fornecem habitualmente o material para o estudo da estética. Mas acontece ocasionalmente que ele tem de interessar-se por algum ramo particular daquele assunto; e esse ramo geralmente revela-se um campo bastante remoto, negligenciado na literatura especializada da estética.

O tema do ‘estranho’ é um ramo desse tipo. Relaciona-se indubitavelmente com o que é assustador – com o que provoca medo e horror; certamente, também, a palavra nem sempre é usada num sentido claramente definível, de modo que tende a coincidir com aquilo que desperta o medo em geral. Ainda assim, podemos esperar que esteja presente um núcleo especial de sensibilidade que justificou o uso de um termo conceitual peculiar. Fica-se curioso para saber que núcleo comum é esse que nos permite distinguir como ‘estranhas’ determinadas coisas que estão dentro do campo do que é amedrontador.

Nada em absoluto encontra-se a respeito deste assunto em extensos tratados de estética, que em geral preferem preocupar-se com o que é belo, atraente e sublime – isto é, com sentimentos de natureza positiva – e com as circunstâncias e os objetivos que os trazem à tona, mais do que com os sentimentos opostos, de repulsa e aflição. Conheço apenas uma tentativa na literatura médico-psicológica, um artigo fértil, mas não exaustivo, de Jentsch (1906). Mas devo confessar que não fiz um exame muito completo da literatura relacionada com esta minha modesta contribuição, particularmente da literatura estrangeira, por razões que, como pode ser facilmente adivinhado, estão nos tempos em que vivemos; de forma que meu artigo é apresentado ao leitor sem qualquer pretensão de prioridade.

Em seu estudo do ‘estranho’, Jentsch destaca com muita razão o obstáculo apresentado pelo fato de que as pessoas variam muito na sua sensibilidade a essa categoria de sentimento. De fato, o próprio autor da presente contribuição deve declarar-se culpado de particular obtusidade na matéria, onde a extrema delicadeza de percepção seria mais adequada. Há muito tempo que não experimenta ou sabe de algo que lhe tenha dado uma impressão estranha, e deve começar por transpor-se para esse estado de sensibilidade, despertando em si a possibilidade de experimentá-lo. Todavia, tais dificuldades fazem-se sentir poderosamente em muitos outros ramos da estética; não precisamos, por causa disso, desanimar de encontrar exemplos nos quais a qualidade em questão será reconhecida sem hesitações pela maioria das pessoas.

De início, abrem-se-nos dois rumos. Podemos descobrir que significado veio a ligar-se à palavra ‘estranho’ no decorrer da sua história; ou podemos reunir todas aquelas propriedadesde pessoas, coisas, impressões sensórias, experiências e situações que despertam em nós o sentimento de estranheza, e inferir, então, a natureza desconhecida do estranho a partir de tudo o que esses exemplos têm em comum. Direi, de imediato, que ambos os rumos conduzem ao mesmo resultado: o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar. Como isso é possível, em que circunstâncias o familiar pode tornar-se estranho e assustador, é o que mostrarei no que se segue. Acrescente- se também que minha investigação começou realmente ao coligir uma série de casos individuais, e só foi confirmada mais tarde por um exame do uso lingüístico. Na exposição que farei, contudo, seguirei o curso inverso.

A palavra alemã ‘unheimlich’ é obviamente o oposto de ‘heimlich’ [‘doméstica’], ‘heimisch‘ [‘nativo’] – o oposto do que é familiar; e somos tentados a concluir que aquilo que é ‘estranho’ é assustador precisamente porque não é conhecido e familiar. Naturalmente, contudo, nem tudo o que é novo e não familiar é assustador; a relação não pode ser invertida. Só podemos dizer que aquilo que é novo pode tornar-se facilmente assustador e estranho; algumas novidades são assustadoras, mas de modo algum todas elas. Algo tem de ser acrescentado ao que é novo e não familiar, para torná-lo estranho.

De um modo geral, Jentsch não foi além dessa relação do estranho com o novo e não familiar. Ele atribui o fator essencial na origem do sentimento de estranheza à incerteza intelectual; de maneira que o estranho seria sempre algo que não se sabe como abordar. Quanto mais orientada a pessoa está, no seu ambiente, menos prontamente terá a impressão de algo estranho em relação aos objetos e eventos nesse ambiente.

Não é difícil verificar que essa definição está incompleta e, portanto, tentaremos operar para além da equação ‘estranho’ = ‘não familiar’. Em primeiro lugar, voltar-nos-emos para outras línguas. Mas os dicionários que consultamos nada de novo nos dizem, talvez apenas porque nós próprios falamos uma língua que é estrangeira. De fato, temos a impressão de que muitas línguas não têm palavra para essa particular nuança do que é assustador.

Gostaria de expressar a minha gratidão ao Dr. Theodor Reik pelos seguintes excertos:

LATIM: (K.E. Georges, Deutschlateinisches Worterbuch, 1898). Um lugar estranho: locus suspectus; numa estranha hora da noite: intempesta nocte.

GREGO: (Léxicos de Rost e de Schenkl). ␣␣␣␣␣ (isto é, estranho, estrangeiro).

INGLÊS: (dos dicionários de Lucas, Bellows, Flügel e Muret-Sanders). Uncomfortable, uneasy, gloomy, dismal, uncanny, ghastly; (of a house) haunted; (of a man) a repulsive fellow.

FRANCÊS: (Sachs-Villatte). Inquiétant, sinistre, lugubre, mal à son aise. ESPANHOL: (Tollhausen, 1889). Sospechoso, de mal agüero, lúgubre, siniestro. As línguas italiana e portuguesa parecem contentar-se com palavras que

descreveríamos como circunlocuções. Em árabe e hebreu ‘estranho’ significa o mesmo que ‘demoníaco’, ‘horrível’.

Voltemos, portanto, ao alemão. No Wortebuch der Deutschen Sprache (1860, 1, 729), de Daniel Sanders, a seguinte entrada, que reproduzimos integralmente aqui, encontra-se sob a palavra ‘heimlich’. Destaquei com itálicos uma ou duas passagens.Heimlich, adj., subst. Heimlichkeit (pl. Heimlichkeiten): I. Também heimelich, heimelig, pertencente à casa, não estranho, familiar, doméstico, íntimo, amistoso etc.

(a) (Obsoleto) pertencente à casa ou à família, ou considerado como pertencente (cf. latim familiaris, familiar): Die Heimlichen, os membros do lar; Der heimliche Rat (Gen. xli, 45; 2 Sam. xxiii. 23; 1 Chron. xii. 25; Wisd. viii. 4), hoje mais habitualmente Geheimer Rat [Conselheiro Privado].

(b) De animais: domesticado, capaz de fazer companhia ao homem. Em oposição a selvagem, e.g. ‘Animais que não são selvagens nem heimlich‘ etc. ‘Animais selvagens… que são educados para serem heimlich e acostumados ao homem.’ ‘Se essas jovens criaturas são criadas desde os primeiros dias entre os homens, tornam-se bastante heimlich, amistosas’ etc. – Assim também: ‘(O cordeiro) é tão heimlich e come da minha mão.’ ‘Não obstante, a cegonha é um belo heimelich pássaro.’

(c) Íntimo, amigavelmente confortável; o desfrutar de um contentamento tranqüilo etc., despertando uma sensação de repouso agradável e de segurança, como a de alguém entre as quatro paredes da sua casa. ‘Ainda é heimlich para você o seu país, onde estranhos estão abatendo os seus bosques?’ ‘Ela não se sentia muito heimlich com ele.’ ‘Ao longo de uma alta, heimlich, sombreada vereda…, junto a um sussurrante, sentimental e balbuciante riacho silvestre.’ ‘Destruir a Heimlichkeit do lar.’ ‘Não conseguia encontrar prontamente outro lugar tão íntimo e heimlich como este.’ ‘Nós o visualizamos tão confortável, tão encantador, tão aconchegante e heimlich.’ ‘Em tranqüila Heimlichkeit, cercada por estreitas paredes.’ ‘Uma dona de casa cuidadosa, que sabe como fazer uma agradável Heimlichkeit (Häuslichkeit [domesticidade]) com os mais escassos meios.’ ‘O homem que até recentemente fora tão estranho a ele, parecia-lhe agora muito mais heimlich.’ ‘Os proprietários de terra protestantes não se sentem … heimlich entre os seus subordinados católicos.’ ‘Quando tudo fica calmo e heimlich, e só a quietude vespertina espreita a tua cela.’ ‘Tranqüilo, encantador e heimlich, nenhum outro lugar mais adequado para o repouso deles.’ ‘Não se sentia absolutamente heimlich quanto a isso.’ – Também [em compostos] ‘O lugar era tão sereno, tão isolado, tão sombreadamente-heimlich.’ ‘Os fluxos e influxos da corrente, sonhadores e embaladores- heimlich‘ Cf. em particular Unheimlich [ver adiante]. Entre os autores suíços da Suábia, particularmente, com freqüência como trissílabo: ‘Como uma tarde parecia outra vez heimelich a Ivo, quando estava em casa.’ ‘Estava tão heimelig na casa.’ ‘A sala cálida e a tarde heimelig.’ ‘Quando um homem sente, de coração, que é tão pequeno, e tão grande o Senhor – isto é que é verdadeiramente heimelig.’ ‘Pouco a pouco sentiram-se à vontade e heimelig entre si.’ ‘Amável Heimeligkeit.‘. ‘Em nenhum outro lugar estaria tão heimelig como estou aqui.’ ‘Aquele que vem de longe… certamente não vive muito heimelig (heimatlich [em casa], freundnachbarlich [de modo amistoso, em boa vizinhança]) entre as pessoas.’ ‘A cabana onde antes repousara tantas vezes entre os seus, tão heimelig, tão feliz.’ ‘A corneta do sentinela soa tão heimelig da torre, e a sua voz convida com tanta hospitalidade.’ ‘Você vai dormir ali, tão macio e cálido, tão maravilhosamente heim’lig.’ – Esta forma de palavra merece tornar-se geral, de modo a evitar que este sentido perfeitamente bom do vocábulo se torne obsoleto, através

de uma fácil confusão com II [ver adiante]. Cf:‘“Os Zecks [nome de família] são todos ‘heimlich’.” (no sentido II) “’Heimlich’? O que você entende por ‘heimlich’?” “Bem,… são como uma fonte enterrada ou um açude seco. Não se pode passar por ali sem ter sempre a sensação de que a água vai brotar de novo.” “Oh, nós chamamos a isso ‘unheimlich’; vocês chamam ‘heimlich’. Bem, o que faz você pensar que há algo secreto e suspeitoso acerca dessa família?”’ (Gutzkow).

(d) Particularmente na Silésia: alegre, disposto; também em relação ao tempo (clima).

II. Escondido, oculto da vista, de modo que os outros não consigam saber, sonegado aos outros. Fazer alguma coisa heimlich, isto é, por trás das costas de alguém; roubar heimlich; reuniões e encontros heimlich; olhar com prazer heimlich a derrota de alguém; suspirar ou lastimar-se heimlich; comportar-se heimlich, como se houvesse algo a esconder; caso de amor, amor, pecado heimlich; lugares heimlich (que as boas maneiras nos obrigam a esconder) (1 Sam. v. 6). ‘A câmara heimlich‘ (privada) (2 Reis x. 27). Também, ‘a cadeira heimlich‘. ‘Lançar ao poço ou Heimlichkeiten‘. – ‘Conduzidos os cavalos heimlich adiante de Laomedon.’ – ‘Tão reticente, heimlich enganoso e malicioso para com os cruéis senhores… como franco, aberto, simpático e solícito para com um amigo na desgraça.’ ‘Você ainda tem que aprender o que é mais heimlich segredado para mim.’ ‘A arte heimlich‘(mágica). ‘Onde a divulgação pública tem que parar, começam as maquinações heimlich.’ ‘A liberdade é o lema sussurrado de conspiradores heimlich e o grito de batalha de revolucionários declarados.’ ‘Um efeito santo, heimlich.’ ‘Minhas brincadeiras heimlich.‘ ‘Se não lho dão aberta e escrupulosamente, ele pode apanhá-lo heimlich e inescrupulosamente.’ ‘Ele tinha telescópios acromáticos construídos heimlich e secretamente.’ ‘Daqui por diante, desejo que não mais haja nada heimlich entre nós.’ – Descobrir, revelar, trair as Heimlichkeiten de alguém; ‘tramar Hiemlichkeiten por trás de minhas costas’. ‘Na minha época estudamos Heimlichkeiten.‘ ‘A mão da compreensão pode anular sozinha o feitiço impotente de Heimlichkeiten (de ouro escondido).’ ‘Diga, onde é o lugar de encobrimento… em que lugar de oculta Heimlichkeit?’ ‘Abelhas, que fazem o fecho de Heimlichkeiten‘ (isto é, o lacre). ‘Aprendido em estranhas Heimlichkeiten‘ (isto é, o lacre). ‘Aprendido em estranhas Heimlichkeiten’ (artes mágicas).

Para compostos, ver acima, Ic. Note-se particularmente o negativo ‘un‘: misterioso, sobrenatural, que desperta horrível temor: ‘Parecendo-lhe bastante unheimlich e fantástico.’ ‘As horas unheimlich e temíveis da noite.’ ‘Já sentira desde há muito uma sensação hunheimlic e até mesmo horrível.’ ‘Agora estou começando a ter um sentimento unheimlich.‘ …’Sente um horror unheimlich‘. ‘Unheimlich e imóvel como uma imagem de pedra.’ ‘Uma névoa unheimlich chamada nevoeiro da colina.’ ‘Esses jovens pálidos são unheimlich e estão tramando Deus sabe que desordem.’ ‘“Unheimlich” é o nome de tudo que deveria ter permanecido… secreto e oculto mas veio à luz‘ (Schelling). – ‘Encobrir o divino, cercá-lo de uma certa Unheimlichkeit.’ – Unheimlich poucas vezes é usado como oposto ao significado II (acima).

O que mais nos interessa nesse longo excerto é descobrir que entre os seus diferentes matizes de significado a palavra ‘heimlich‘ exibe um que é idêntico ao seu oposto, ‘unheimlich‘. Assim, o que é heimlich vem a ser unheimlich. (Cf. a citação de Gutzkow: ‘Nós os chamamos‘unheimlich”; vocês o chamam “heimlich”.’) Em geral, somos lembrados de que a palavra ‘heimlich‘ não deixa de ser ambígua, mas pertence a dois conjuntos de idéias que, sem serem contraditórias, ainda assim são muito diferentes: por um lado significa o que é familiar e agradável e, por outro, o que está oculto e se mantém fora da vista. ‘Unheimlich’ é habitualmente usado, conforme aprendemos, apenas como o contrário do primeiro significado de ‘heimlich‘, e não do segundo. Sanders nada nos diz acerca de uma possível conexão genética entre esses dois significados de‘heimlich’. Por outro lado, percebemos que Schelling diz algo que dá um novo esclarecimento ao conceito do Unheimlich, para o qual certamente não estávamos preparados. Segundo Schelling, unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas veio à luz.

Algumas dúvidas que, desse modo, surgiram, são afastadas se consul-tamos o dicionário de Grimm. (1877, 4, Parte 2, 873 e segs.)

Lemos: Heimlich; adj. e adv. vernaculus, occultus; MAA. heimelîh, heimlîch. (P. 874.) Em sentido ligeiramente diferente: ‘Sinto-me heimlich bem, liberto do medo.’… [3] (b) Heimlich também se diz de um lugar livre da influência de fantasmas… familiar,

amistoso, íntimo. (P. 875: ␣•) Familiar, amigável, franco. 4.Da idéia de ‘familiar’, pertencente à casa’, desenvolve-se outra idéia de algo afastado

dos olhos de estranhos, algo escondido, secreto; e essa idéia expande-se de muitos modos… (P. 876.) ‘Na margem esquerda do lago jaz uma campina heimlich na floresta.’ (Schiller, Wilhelm Tell, I.4.)… Licença poética, assim raramente usada no discurso moderno… Heimlich é usado em conjunção com um verbo que expressa o ato de ocultar: ‘No segredo do seu tabernáculo ele esconder-me-á heimlich.‘ (Ps. xxvii. 5.) … As partes heimlich do corpo humano, pudenda… ‘os homens que não morreram foram feridos nas suas partes heimlich.‘ (1

Samuel v. 12.)… (c) Funcionários que dão importantes conselhos, que têm que ser mantidos em

segredo, em questões de Estado, são chamados conselheiros heimlich; o adjetivo, de acordo com o uso moderno, foi substituído por geheim [secreto]… ‘Faraó chamou o nome de José “ele, a quem os segredos são revelados”’ (conselheiro heimlich). (Gen. xli. 45.)

(P. 878.) 6. Heimlich, como se diz do conhecimento – místico, alegórico: um significado heimlich, mysticus, divinus, occultus, figuratus.

(P. 878.) Heimlich num sentido diferente, como afastado do conhecimento, inconsciente… Heimlich tem também o significado daquilo que é obscuro, inacessível ao conhecimento… ‘Você não vê? Eles não confiam em nós; eles temem a face heimlich do Duque de Friedland.’ (Schiller, Wallensteins Lager, Cena 2.)

9.A noção de algo oculto e perigoso, que se expressa no último parágrafo, desenvolve- se mais ainda, de modo que ‘heimlich’. Assim: ‘Às vezes sinto-me como um homem que caminha pela noite e acredita em fantasmas; cada esquina para ele é heimlich e cheia de terrores.’ (Klinger, Theater, 3. 298.)

Dessa forma, heimlich é uma palavra cujo significado se desenvolve na direção da ambivalência, até que finalmente coincide com o seu oposto, unheimlich. Unheimlich é, de um modo ou de outro, uma subespécie de heimlich. Tenhamos em mente essa descoberta, embora não possamos ainda compreendê-la corretamente, lado a lado com a definição de Schelling do Unheimlich. Se continuarmos a examinar exemplos individuais de estranheza, essas sugestões tornar-se-ão inteligíveis a nós.

 

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3 opiniões sobre “O ‘ESTRANHO’ (1919), Sigmund Freud (parte 1)

  1. Pingback: Elementos góticos em seriados de TV | Ensaios & Notas - Leonardo M. Alves

  2. Quero comprar o livro. Como faço?
    Preciso para complementar a monografia de pós-graduação e o assunto dissertado no livro se encaixa perfeitamente no assunto.
    Aguardo retorno.
    Maria Passos

    • Olá, Maria Passos,

      Este ensaio encontra-se no volume XVII das Obras completas do Freud. Edição Standard Brasileira V. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1986, pp 237-269.

      Basta compra-lo (tem no site Submarino, por exemplo) ou consulta-lo em qualquer boa biblioteca pública.

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