O crepúsculo de Roma


Em 410 os visigodos pilharam Roma, tornando suas fronteiras mais abertas a cada ano. Não levaria muito tempo para que o último – e fraco – imperador fosse deposto

por Bruno Dumézil

“Ela foi tomada, a Cidade que tomou o universo inteiro.” Em Belém, para onde se havia retirado, São Jerônimo ficou desolado: nesse 24 de agosto de 410, os visigodos entraram em Roma e a saquearam. Para o Pai da Igreja, era o Império em sua totalidade que, a partir daquele momento, estava sob a ameaça de ser envolvido por um turbilhão bárbaro.

Que estrangeiros estivessem presentes em massa no território romano em 410 era um fato incontestável. Que se tratasse de uma invasão, ou mesmo de uma novidade, eis o que parecia muito mais discutível. Desde o século III, o Império Romano sofria na realidade de uma grave crise demográfica. Ter menos homens significava contar com um número menor de legionários para guardar a fronteira do Reno-Danúbio, esse limes (como eram chamados os marcos fronteiriços entre Roma e os territórios germânicos) no qual os príncipes do Alto Império multiplicaram os bastiões e as fortalezas. Em diversas ocasiões, grupos bárbaros tinham aproveitado uma falha na vigilância para abrir uma brecha e se entregar à pilhagem nas províncias vizinhas. Em 276, alguns deles conseguiram até mesmo chegar aos montes Pireneus.

Portanto, para evitar que tais incursões se sucedessem, o Império decidiu contratar… bárbaros! Prisioneiros de guerra reduzidos à submissão, mercenários escandinavos em busca de riquezas, chefes de tribos à beira da fome: Roma acolhia todos aqueles que aceitassem servi-la. Valorosos e leais na maioria dos casos, esses bárbaros, chamados de “imperiais”, galgaram com rapidez os degraus da hierarquia militar, até assumirem nela uma importância considerável. Desde os anos 380, o Estado-Maior romano era composto por mais de 50% de germânicos.

Armas que conduzem ao trono imperial Como o imperador tinha confiança nesses oficiais, ele não hesitava em fazê-los ingressar em sua família. Teodósio I deu assim sua sobrinha em casamento ao general vândalo Estilicão; por sua vez, a filha deste último desposou o imperador Honório.

Controlando diversos corpos essenciais do exército romano, os bárbaros por vezes viram-se tentados pela aventura política. Desse modo, entre 350 e 353, o norte da Gália reconheceu como imperador um certo Magnêncio, general de origem franca. A maioria dos comandantes bárbaros, no entanto, aparentemente se contentou em participar do jogo de facções entre os competidores tradicionais ao trono imperial. Assim, em 392-394, o franco Arbogasto apoiou o senador romano Eugênio em uma tentativa de derrubar Teodósio I. Pouco a pouco, viram-se também oficiais estrangeiros assumir a regência em nome de imperadores menores de idade; foi o caso do grande Estilicão – filho de um vândalo com uma cidadã romana –, que governou o Império Romano do Ocidente entre 395 e 408.

Diante de uma tal sede de poder, não é o caso de investigar eventuais manifestações de ambição desenfreada de germânicos incapazes de se adaptar à civilização do Mediterrâneo. As estratégias que se podem observar são ao contrário o signo da profunda romanização dos bárbaros e de suas excelentes relações com as elites romanas. Desde o final do século IV, chefes bárbaros e comandantes romanos estavam com frequência ligados pelo parentesco. A maior parte desses homens era proveniente dos espaços das fronteiras, onde as identidades étnicas se mostravam muito maleáveis. Isso explica como foi encontrado, perto de Aquicum (Budapeste, Hungria), a comovente inscrição de um combatente: “Quanto a mim, eu sou um franco, mas, sob as armas, sou um cidadão romano”. De fato, ter nascido alguns quilômetros além ou aquém do limes era realmente importante, quando alguém afirmava não existir senão para servir ao Império?

Evidentemente, aconteceu de as manobras de alguns chefes de tropas se voltarem contra os interesses romanos. No início do século V, o godo Alarico revelou-se um mestre do jogo duplo. Designado como rei por seu povo, ele era considerado pelas autoridades imperiais como um “senhor das milícias”, quer dizer, como um generalíssimo do exército romano. Trocando de papel diversas vezes, Alarico exerceu uma chantagem constante sobre o imperador Honório para obter dinheiro e suprimentos para suas tropas. Resgate pago a um inimigo bárbaro? Soldo devido a um soldado de Roma? Tudo é uma questão de interpretação.

Vencido em 401 e 402 por Estilicão, Alarico voltou à carga nos anos seguintes. Para infelicidade dos romanos, Estilicão se encontrava naquele momento às voltas com uma cabala senatorial que investia contra suas origens estrangeiras: o vândalo que protegia Roma perdeu o apoio do imperador Honório e terminou por ser executado em 22 de agosto de 408.

A marcha sobre a cidade eterna Não tendo mais adversário à sua altura, Alarico pôde então marchar sobre Roma, que ele sitiou pela primeira vez no outono de 408. Os senadores compraram a sua partida, mas o imperador persistiu na sua recusa em fornecer víveres aos godos. Alarico retornou sobre seus passos, cercou de novo a cidade e depois negociou longamente com Honório, sem sucesso. Afinal, depois de uma longa e exaustiva resistência, ele se apoderou de Roma em 24 de agosto de 410. Em termos militares, o evento não teve grande impacto: o saque durou apenas três dias e as muralhas e o patrimônio arquitetônico da cidade permaneceram intactos. Politicamente, o episódio também não se revestiu de muito significado: a capital do Império do Ocidente encontrava-se então em Ravena, ou seja, Alarico se apoderou de uma concha vazia.

Em contrapartida, no plano humano, o balanço foi muito pesado: a fome e a pilhagem castigaram a população, ainda que Alarico tivesse respeitado o direito de asilo das igrejas cristãs e proibido seus homens de penetrar em seu interior. Finalmente, em termos de civilização, a data de 410 não poderia ser considerada uma guinada fundamental. Foi certamente um exército gótico que entrou em Roma, seguindo o rei Alarico, mas sem dúvida esse exército não contava com um número maior de bárbaros do que o exército romano que acompanhou Constantino quando este se apoderou da cidade em 312.

Os verdadeiros infortúnios do Império vinham de outras partes. Para resistir a Alarico, Estilicão teve de desguarnecer a fronteira do Reno; em 407, as Gálias foram invadidas e jamais se recuperaram plenamente desse golpe. Como consequência, tornou-se impossível defender a Grã-Bretanha. Os exércitos imperiais abandonaram a ilha, encarregando os notáveis locais de organizar por si mesmos a defesa. Estes contrataram alguns mercenários vindos da Saxônia, assim como guerreiros anglos da península da Jutlândia (atual Dinamarca e norte da Alemanha). O efeito disso foi que esses estrangeiros assumiram progressivamente o controle do território.

O pior golpe desferido contra o Império, de fato, foi a perda da África, conquistada em 439 por uma coalizão de vândalos e alanos. Roma perdeu desde então o controle das províncias que lhe forneciam boa parte de seu abastecimento em cereais e a melhor parcela de seus recursos fiscais. Para resistir aos bárbaros, o Império do Ocidente teve, como sempre fazia, de apelar a outros bárbaros. Mas, como as autoridades romanas não dispunham mais de dinheiro ou suprimentos para pagar o soldo dos mercenários, viram-se obrigadas a ceder-lhes terras. Assim, em 418, foram concedidas aos godos as províncias da Aquitânia; alguns decênios mais tarde, a Espanha foi acrescentada a essa doação. Em meados do século V, os francos receberam por sua vez o norte da Gália, enquanto o vale do Ródano se tornou terra de assentamento dos burgúndios. Essas transferências de autoridade entre romanos e bárbaros não devem ser confundidas com uma conquista territorial: houve de cada vez um tratado oficial, um foedus. Por esse texto, os felizes beneficiários tornaram-se “federados” da potência imperial, não devendo usar suas armas senão para servi-la. E tais bárbaros, sob contrato de exclusividade, prestaram bons serviços. Por exemplo, em 451, foram os francos e os visigodos que detiveram Átila na Batalha dos Campos Cataláunicos.

Os bárbaros federados eram ainda percebidos como estrangeiros? Nos anos 460, um senador e fino letrado gaulês, Sidônio Apolinário, estava perplexo. Os visigodos, dizia ele, vestem-se de peles, mas dirigem uma administração bem equilibrada. Fazem questão de falar o gótico, mas seus reis são capazes de recitar os poemas de Virgílio. Na África, passadas as primeiras ondas de violência, também os vândalos causaram uma impressão muito boa: eles restauraram as termas públicas, encorajaram o mecenato literário, lutaram contra a prostituição e, sobretudo, aprenderam a comer deitados, como verdadeiros romanos. Mais ainda, uns após os outros, todos os reis bárbaros instalados nas províncias puseram-se a promulgar textos de direito.

Velha nobreza e novos senhores Fala-se tradicionalmente de “leis bárbaras”, mas isso significa esquecer que esses tratados eram redigidos em latim e que eram inspirados pelos princípios jurídicos romanos. Isso equivale a dizer que os visigodos e burgúndios se contentaram em varrer a poeira dos velhos códigos de direito imperial, sem perder o espírito ou a lógica destes.

Enquanto esses federados assumiam o controle das províncias, o Império do Ocidente se esforçava para sobreviver com uma extensão territorial reduzida à Itália e à Provença (sul da França). Ainda assim, também lá, eram os bárbaros que se encontravam em ação. O último grande general romano, Aécio, ativo entre 425 e 453, apoiou-se em uma organização militar formada em parte por germânicos e em parte por hunos. Essa organização foi a incubadora dos últimos oficiais do Império. E, em 455, quando o último príncipe da dinastia teodosiana desapareceu, foram esses comandantes bárbaros que passaram a designar os novos imperadores. Os visigodos ofereceram assim a púrpura ao senador gaulês Ávito em 456; no ano seguinte, o italiano Majoriano deveu seu trono ao apoio do general suevo Ricimero. Sem dúvida, Constantinopla tentou retomar o controle do Ocidente, mas sem um verdadeiro sucesso.

Aliás, o fracasso de um príncipe vindo do Oriente, Júlio Nepos, contribuiu para esvaziar a credibilidade da instituição imperial. Em contrapartida, os habitantes das províncias aprenderam a apreciar as qualidades de seus dirigentes bárbaros.

Nos anos 460, Sidônio Apolinário escreveu que os burgúndios eram selvagens que fediam a manteiga rançosa. Dez anos mais tarde, ele fechou o nariz e celebrou seu senso de justiça. Por sua vez, os últimos imperadores de Roma nada tinham de “romanos”, no sentido tradicional do termo. Anício Olíbrio (472) era aparentado aos vândalos; seu sucessor Glicério (473-474) era muito próximo dos burgúndios. Quanto a Rômulo Augústulo (475-476), apesar de seu nome sonoramente romano, provinha de uma família estabelecida do outro lado do limes. Seu pai, o ilustre patrício Orestes, era, de resto, um antigo colaborador de Átila.

Em 476, a Itália romana não era mais guardada senão por mercenários de identidade étnica incerta e sem dúvida muito mesclada. Pagos sem regularidade, esses soldados escolheram um rei na pessoa do chefe hérulo Odoacro. O homem era um instrutor de sabre, herético ainda por cima, mas possuía grande experiência e gozava de boa reputação tanto junto aos combatentes quanto aos senadores. Sob suas ordens, o jovem Rômulo Augústulo foi deposto.

Rômulo Augústulo sai de cena Com esse gesto, Odoacro não pretendia contestar a autoridade romana. Pelo contrário! As insígnias imperiais foram oficialmente expedidas para Constantinopla, em sinal de submissão do novo rei da Itália ao império universal, que a partir daquele momento se considerava reunificado. Quanto a Rômulo, ele recebeu a oferta de um belo domínio rural acompanhado por uma renda vitalícia.

Roma não foi construída num só dia; ela tampouco caiu em um só dia, quer se tratasse de um dia do ano 410 ou de 476. Em termos culturais, o Império não cessou de irradiar sobre o Ocidente bárbaro, que continuou a utilizar sua língua, sua moeda, seus livros de direito, e que aceitou até mesmo, em pouco tempo, converter-se a sua religião, o catolicismo. Os únicos colapsos notáveis foram políticos e militares. Ora, a esse respeito, é complexo estabelecer a responsabilidade dos bárbaros: os homens que fizeram cair o Império do Ocidente foram também aqueles que, até o fim, tentaram sustentá-lo.

BRUNO DUMÉZIL é historiador e especialista em civilizações bárbaras

Leia mais matérias do Dossiê “O crepúsculo de Roma” na História Viva 122

 

Categorias: Sem categoria | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Kate Gale: A Mind Never Dormant

The life of a writer/editor

Biblioteca Florestan

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP

Photography Art Plus

Photography, Animals, Flowers, Nature, Sky

Logical Quotes

Logical and Inspirational quotes

Violet's Veg*n e-Comics

Virtual Vegan Comics for Children

Cafe Book Bean

Talk Books. Drink Coffee.

marioprata.net

Site oficial do escritor Mario Prata

Sabiscuit's Catalog

I can't eat biscuits, but I have a better idea ...

Eric Schlehlein, Author/Freelance writer

(re)Living History, with occasional attempts at humor and the rare pot-luck subject. Sorry, it's BYOB. All I have is Hamm's.

Through Open Lens

Home of Lukas Kondraciuk Photography

OldPlaidCamper

The adventures of an almost outdoorsman...

PROVERBIA

"Crítica Social, Lírica y Narrativa"

The top 10 of Anything and Everything!!!

The top 10 of just about anything everything, from cakes to cats and dogs to caravans. Always a laugh, always worth seeing.

Authors, Artists, Geeks, Husbands

DaniellaJoe's Blog

crochet is my favorite fiber art and my goal is to become a real artist...

Blog do Kaizen: Seu espaço de saúde e bem estar

Opinião Central

Opinião Central - seu Blog de Arte, Filosofia e Cultura Pop

Espaço Pura Luz

Portal de Conhecimento

Canal Meditação

Ensinamentos sobre meditação e espiritualidade.

Espaço Virya

Atividades físicas e psicofísicas

Matheus de Souza

Escritor, Empreendedor e Growth Hacker

CorpoInConsciência

consciência corporal corpo inconsciência integração equilíbrio resistência alongamento respiração alimentação consciência

ICI & LA NATURE PICTURES

Walk and Bike in France. www.icietlanature.com

For the pleasure of Govinda

Art and craft for the soul

In punta di piedi

Entra in punta di piedi e spia nel buco della serratura

Daily Rock Report

Because you like it hard and Loud.

Pa-Kua Minas Gerais

Escola destinada ao ensino de práticas orientais

Ambiente Consultoria

Consultor em feng shui

In the Dark

A blog about the Universe, and all that surrounds it

Humor de Mulher!

Um pouco do que gosto, sinto e penso!

Candilejas

Fotoblogueando desde Panamá

Attenti al Lupo

www.attentiallupo2012.com

Lusty Writer

Explore the fun side of the world.

Katzenworld

Welcome to the world of cats!

We. See Hope

'Expect With Confidence. Never Give Up Hope. It's Just The Beginning'

Aurora

...porque me falta espaço!

Devine Decorating Results for Your Interior

Interior design ideas, tips & tricks, plus before & after images

La Audacia de Aquiles

"El Mundo Visible es Sólo un Pretexto" / "The Visible World is Just a Pretext".-

Daily (w)rite

A DAILY RITUAL OF WRITING

Spirituality Exploration Today

Delving into the cross roads of rationality and intuition

Não Sou Exposição

Questionamentos sobre imagem corporal, amor próprio, saúde e comida.

%d blogueiros gostam disto: