Famílias enfrentam limite entre acampar e viver sem casa no Alasca


Kirk Johnson
Em Soldotna (no Alasca, EUA)

As pessoas vêm à Península de Kenai por sua beleza natural ou para fugir, no Alasca, das rotinas que moldam a vida em lugares mais agitados.

Há bons empregos na indústria do petróleo e uma aura russa paira sobre a paisagem nos nomes das pequenas cidades e em algumas igrejas ortodoxas que continuam funcionando. Quando os salmões sobem o rio Kenai, é possível pegá-los até os braços ficarem doloridos, as pessoas aqui gostam de dizer.

Mas essa generosidade da natureza, que atraiu colonos e caçadores de fortuna desde a época do capitão Cook, também mascara a dura realidade. Quando a vida de alguém vai mal, por causa de um passo em falso ou de uma traição, da perda de um emprego ou de um despejo, ou apenas um período de má sorte, não há muita segurança aqui.

“Esta é uma região ótima para construir famílias; ela tem coisas maravilhosas e positivas”, disse Cathy Giessel, senadora estadual que representa parte da península. “Mas as pessoas podem ser demitidas com bastante facilidade por fazer escolhas erradas.”

As cidades da península –a maioria apenas pontos num mapa de alguns poucos milhares de pessoas numa paisagem densa de matas e rios– são uma espécie de caminho do meio na vida do Alasca, com um fluxo e refluxo de empregos sazonais nos hotéis de pescadores e pequenos shoppings. Há oportunidades melhores e empregos com salários compatíveis para pessoas capacitadas. Mas o peso das drogas, álcool e pobreza está sempre presente também, dizem os moradores.

Amanda Guillemette sabe como o gelo pode ser fino. Ela está caminhando com as próprias pernas agora, com um trabalho no Dairy Queen Soldotna desde março e uma casa alugada aquecida. Mas o dia em que começou sua odisséia de sem-teto, há quatro anos, ainda reverbera.

Ela estava grávida de nove meses de seu quinto filho quando a família com quem ela vivia a obrigou a sair de casa. Guillemette, 35, diz que foi o sistema público de ensino que estendeu a mão para ela através de um programa para desabrigados. O programa salvou-a e também seus filhos, disse ela, conectando-os com os programas de auxílios estatais e prestando assistência emergencial quando as coisas estavam piores.

“As coisas acontecem por algum motivo”, disse ela com uma calma estóica, numa entrevista na sede do distrito escolar. “Eu fiquei mais forte.”

Nos vilarejos rurais do Alasca, aonde não chegam estradas e muitas famílias são interligadas através do sangue ou da cultura, a falta de moradia é muitas vezes tratada à moda antiga, em que parentes ou vizinhos abrigam aqueles que estão com problemas. Anchorage, a maior cidade do Alasca, tem de longe a maior população de rua do Estado, mas também o maior sistema de ajuda e extensão.

Em Kenai, uma família ou um adolescente com dificuldades pode passar despercebido na paisagem vasta.

“A falta de moradia é um problema escondido”, disse Steve Atwater, superintendente do distrito escolar da Península de Kenai, onde cerca de 1 em 90 alunos está matriculado este ano num programa para mantê-lo na escola mesmo que não tenha endereço permanente. Este número caiu um pouco em relação ao ano passado, e oficiais do distrito suspeitam que a principal razão seja um outono excepcionalmente quente.

De 2011 a 2012, a taxa de desabrigados geral do Alasca caiu 10%, de acordo com um relatório deste ano da Aliança Nacional para Acabar com a Falta de Moradia, uma confederação de organizações. Mas o número de pessoas sem-teto subiu quase 21%, conferindo ao Alasca o nono aumento mais alto do país.

Surfistas de sofá, que dormem na casa dos amigos, não costumam se considerar sem-teto. E num Estado onde acampar é tanto um jeito de viver quanto parte de uma tradição, viver numa barraca na floresta pode ser por escolha ou não.

“Nós meio que chamamos isso de acampar”, disse Tammy Miles, que viveu na floresta numa barraca por 132 dias neste verão –um número que ela repetiu mais duas vezes com os lábios cerrados e dureza–, com dois filhos autistas, de 7 e 10 anos, e, depois que seu namorado deixou-a após 13 anos, sem-teto. Ela e os meninos estavam num abrigo de famílias –o único em Kenai, um condado maior do que West Virginia– quando o local fechou em junho por causa de problemas financeiros, lançando-os à vida na floresta. Foi o segundo despejo da família em um ano.

Em uma tarde recente, com a temperatura máxima em torno de seis graus, um acampamento fora do centro parecia fantasmagórico em meio à geada. Os ocupantes não estavam lá, presumivelmente abrigados. Uma espátula e uma lata de pimenta estavam sobre uma mesa dobrável ao lado de um pequeno fogão de acampamento, pronto para uso. Os campistas estavam lá por escolha ou eram sem-teto? Na Península de Kenai, pode ser difícil dizer.

Há uma sensação de que a fome, uma indicação mais facilmente medida do estresse, está aumentando. No Banco de Alimentos da Península de Kenai, na cidade vizinha de Kenai, o número de pessoas que procuram produtos gratuitos como enlatados e arroz é o maior desde 2010, quando a recessão estava no seu pior momento. A tendência para as pessoas mais jovens e as famílias que chegam com fome persistiu, disse Linda Swarner, diretora-executiva do banco de alimentos.

“A rede de segurança, anos atrás, costumava ser mais pessoal”, disse ela enquanto voluntários serviam cozido e torta para o almoço. “As pessoas não confiam tanto em governos ou entidades sem fins lucrativos.”

Miles, 42, conseguiu um emprego neste outono como caixa de uma loja do Wal-Mart e disse que se sentiu estável à medida que o inverno se aproximava, com uma casa para ela e os filhos, Kyle e Koby. Sua jornada pelo mundo dos sem-teto, por doloroso que tenha sido, também lhe deu um presente estranho: embora ela não tenha família no Alasca, uma vez que se mudou de Utah para o Estado com um ex- namorado de uma década atrás, fez amizade com as outras 26 famílias do abrigo antes que ele fechasse.

É uma nova rede social, e eles estão tentando permanecer em contato da melhor forma que podem, diz ela.

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2013/12/16/familias-enfrentam-limite-entre-acampar-e-viver-sem-casa-no-alasca.htm

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