Tese sobre teses


Um amigo me mandou, em 18 de setembro de 2014 (!!) – nossa, ainda não me conformo como não vi a mensagem dele até ontem…- reflexões a respeito das dissertações de mestrado e teses de doutorado. Depois, se ele me permitir, reproduzo aqui o que ele disse. De toda forma, dentre outros textos, ele me indicou a leitura de um crônica do Mario Prata sobre o assunto.

Lá vai um trecho do texto do Prata, caso o link não funcione futuramente:

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre – sempre – uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspeta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

(…)

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo para, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser – tem de ser! – daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.

Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Não tenho permissão para publicar nem a crônica do Prata e nem os questionamentos do meu amigo, mas posso colar minha resposta a ele aqui, afinal, é de minha autoria😉

Adoro o Mario Prata, ele escreve muito bem! E só ele mesmo para trazer um assunto como teses acadêmicas para o mundo da crônica…que bom que você me apontou essa, acabei de ler.

Os pontos que ele levanta, e os que você levanta, são cruciais, obviamente. Não posso falar por todos, então vou falar apenas da minha experiência, e do que observo por aí.

Venho lendo dissertações e teses desde o segundo ano da faculdade (se soubesse a respeito delas desde o primeiro, teria lido mais algumas, mas eu era tonta e ignorante *rs*). Escolhi um tema difícil para fazer um trabalho final quando estava no segundo ano, e um dos professores me recomendou uma visita à sessão de teses da biblioteca…foi como se estivesse descobrindo outro mundo, uma espécie de biblioteca “palalela”. Não é muito difícil perceber que aquelas prateleiras estão entre as menos frequentadas de todas, o que é uma pena, pois é conhecimento público obtido com dinheiro público e muito esforço pessoal (como o Prata descreveu perfeitamente na crônica dele – aposto que ele teve contato diário com mais de uma pessoa nessa situação, heheheh, tadinho!) que poderia estar sendo transmitido e não está…um conhecimento obtido a partir de inúmeras leituras e destrinchado, muitas vezes mais didático (bom, nem todos os autores de tese se preocupam com o aspecto da inteligibilidade, como bem observou o Prata, mas há várias exceções!).

De lá para cá acho que essa situação não mudou muito, isso que é mais deprimente. Sinto que existe, além da falta de acesso (quem não é da universidade não pode retirar teses), preconceito – é como se pensassem que, por determinado estudo não ter sido publicado, ou seja, ratificado por uma editora comercial, ele não valesse a pena (mesmo tendo passado por banca examinadora duas vezes, hein!).

Mas teve sim uma mudança significativa: as teses passaram a ser disponibilizadas online. Isso ocorreu a partir do ano de 2001, se não me engano. As mais antigas não estão online (eles devem ter um projeto para digitalizar todo o acervo, mas imagino que isso demore séculos, ainda mais que a galera escrevia pra caramba antes, já que os prazos para completar mestrado e doutorado giravam em torno de 10-15 anos…), mas a informação “fresquinha”, sim. Tudo bem que o pessoal de hoje não é nenhum Antonio Candido…até porque, como dito anteriormente, a gente mal entra no mestrado e no doutorado e já tem que qualificar e defender em seguida….e os prazos continuam diminuindo….quando a prioridade das agências financiadoras passa a ser o dinheiro e produtividade, como se pesquisa e conhecimento fossem produzidas numa linha de montagem, e as universidades se tornam reféns delas por conta de falta de verba, dá nisso😦 Mesmo assim, melhor disponibilizar tudo, ainda que de qualidade inferior, do que não haver acesso a nada ou a quase nada.

Algumas teses são super populares, e o motor de busca permite baixar qualquer tese de qualquer faculdade da nossa universidade, ou seja, não se tem mais que encarar aquela burocracia toda, ir pingando de faculdade em faculdade, de biblioteca em biblioteca, procurando as obras manualmente e, depois de encontrar o que interessa, ainda tentar obter autorização da faculdade de origem e da que está emprestando a tese, blablabla…achei maravilhoso!

Já baixei, por pura curiosidade, teses de astronomia (não deu pra entender grande coisa *rs*), medicina (sobre um problema de saúde da minha mãe), psicologia (sobre depressão, assunto sobre o qual acho essencial ler), etc. Aliás, as teses digitais me ajudaram inclusive de última hora, quando estava prestando concurso e não tinha tempo de procurar material fisicamente. E continuam me ajudando agora que dou aulas sobre assuntos nos quais não sou especialista, e sobre os quais aprendi há muitos anos, na graduação…baixo o conteúdo e estudo antes de preparar minha aula. Nem sempre encontro tudo o que gostaria, o que não é de se espantar, considerando-se o desestímulo para qualquer um que queira prosseguir seus estudos e pesquisa😦 Ouvi dizer inclusive que estão sobrando bolsas!!! Na minha época (agora estou soando velhinha MESMO! *rs*) tinha fila de espera pelas bolsas…eu mesma só consegui bolsa no último ano do meu mestrado. Já no doutorado consegui de cara (quem quer fazer doutorado???).

Tudo isso para dizer que sou super fã de teses *rs* Tem as mal escritas? Claro! Tem as irrelevantes, ou com temas irrelevantes? Vixe, é o que mais tem! (outro dia li uma do Recife, sobre tatuagens de periguetes hahahahah) E tem as complicadas, arrogantes, que foram escritas “em código”, apenas para “os pares” lerem e entenderem. Mesmo assim, os benefícios do acesso às informações superam tudo isso.

Ah, esqueci de dizer que, fora essa minha mania de procurar teses e lê-las por conta própria (coisa que todo estudante universitário deveria fazer), no departamento ao qual eu pertencia enquanto doutoranda havia nosso grupo de estudos, que tinha reuniões mensais. O professor incentivava que todos apresentassem aos colegas sobre o que estavam estudando, em que pé estava o projeto, o que já havia sido descoberto durante os estudos e assim por diante. Quando chegava a hora da qualificação, éramos incentivados a comparecer para ver como seriam as críticas àquele trabalho que já estávamos acompanhando há tempos…idem na defesa. O autor disponibilizava a tese antes da defesa para quem quisesse ler, então na defesa a gente não ficava “boiando”, acompanhávamos e sabíamos exatamente do que a banca estava falando. Claro que cada um tem sua própria pesquisa, então a tendência majoritária é quase não dar bola para o trabalho alheio e nem ler o que foi escrito, pela falta de tempo, mas eu li tudo o que os outros orientandos da minha época escreveram, dava o maior orgulho dos meus colegas, tinha coisas muito boas! Não sei se este espírito colaborativo permaneceu lá ou se se esvaiu, tudo depende de quão bem as pessoas se dão umas com as outras….naquela época a gente era super sincronizado uns com os outros, tinha uma camaradagem e tal. Espero que tenha permanecido!

Sim, a questão sempre foi e continua sendo discutir sobre assuntos interessantes e extremamente relvantes com um público muito restrito. Você começou seu texto, e o Mario Prata fez o mesmo na crônica dele, questionando quem vai ler, se é que alguém vai ler, tanta tese importante escrita. E que esse conhecimento vai cair no vácuo. Pois bem. Se eu tivesse parado assim que escrevi meu mestrado e meu doutorado, talvez isso acontecesse mesmo. Só que, depois disso, prestei concurso e hoje leciono (aliás, são minhas últimas semanas aqui, snifff, estou ficando um pouco deprê por conta disso…) numa universidade pública, o que me permite compartilhar tudo o que descobri nos meus estudos, o que aprendi com meus professores e o que continuo aprendendo ao preparar minhas aulas. Não faz sentido estudar e manter esse conhecimento a sete chaves…não entendo por que raios tem gente que faz isso, muito menos por que tem gente que GOSTA de fazer isso, mantém o conhecimento trancado para si e para os “poucos eleitos”. Só pode ser falta de auto-estima, não tem outra explicação…uma pessoa “normal” tem curiosidade, pergunta, vai atrás, lê, e depois que descobriu pelo menos parte das respostas vai querer contar pros outros, não tem como não fazer isso, ainda mais se o assunto é relevante, importante e concerne a todos os seres humanos!!!

Então é isso: você não deve ter receio de entrar de cabeça nisso por conta de que pouca gente vá ler seu trabalho, porque existem outras formas de você expor e continuar este trabalho para um público muito maior (claro que salas de aula não se comparam à audiência da Globo, mas já é alguma coisa…até porque dali vão sair formadores de opinião também). Claro, eu posso estar expondo informações incompletas, opiniões debatíveis, etc., mas pelo menos estou tentando fazer minha parte, e não baseando-me apenas em achismo, e sim no que pesquisei.

Falei, falei, e não li os 5 trabalhos que você me recomendou😦 E preciso ir, fiquei sem tempo!! Beijos!

Categorias: Books/Livros, Hobbies, Notícias e política, People, Quotes | Tags: , , , | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Kate Gale: A Mind Never Dormant

The life of a writer/editor

Biblioteca Florestan

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP

Photography Art Plus

Photography, Animals, Flowers, Nature, Sky

Logical Quotes

Logical and Inspirational quotes

Violet's Veg*n e-Comics

Virtual Vegan Comics for Children

Cafe Book Bean

Talk Books. Drink Coffee.

marioprata.net

Site oficial do escritor Mario Prata

Sabiscuit's Catalog

I can't eat biscuits, but I have a better idea ...

Eric Schlehlein, Author/Freelance writer

(re)Living History, with occasional attempts at humor and the rare pot-luck subject. Sorry, it's BYOB. All I have is Hamm's.

Through Open Lens

Home of Lukas Kondraciuk Photography

OldPlaidCamper

The adventures of an almost outdoorsman...

PROVERBIA

"Crítica Social, Lírica y Narrativa"

The top 10 of Anything and Everything!!!

The top 10 of just about anything everything, from cakes to cats and dogs to caravans. Always a laugh, always worth seeing.

gaygeeks.wordpress.com/

Authors, Artists, Geeks, Husbands

DaniellaJoe's Blog

crochet is my favorite fiber art and my goal is to become a real artist...

espacokaizen.wordpress.com/

Blog do Kaizen: Seu espaço de saúde e bem estar

Opinião Central

Opinião Central - seu Blog de Arte, Filosofia e Cultura Pop

Espaço Pura Luz

Portal de Conhecimento

Canal Meditação

Ensinamentos sobre meditação e espiritualidade.

Espaço Virya

Atividades físicas e psicofísicas

Matheus de Souza

Escritor, Empreendedor e Growth Hacker

CorpoInConsciência

consciência corporal corpo inconsciência integração equilíbrio resistência alongamento respiração alimentação consciência

ICI & LA NATURE PICTURES

Walk and Bike in France. www.icietlanature.com

For the pleasure of Govinda

Art and craft for the soul

In punta di piedi

Entra in punta di piedi e spia nel buco della serratura

Daily Rock Report

Because you like it hard and Loud.

Pa-Kua Minas Gerais

Escola destinada ao ensino de práticas orientais

Ambiente Consultoria

Consultor em feng shui

In the Dark

A blog about the Universe, and all that surrounds it

Humor de Mulher!

Um pouco do que gosto, sinto e penso!

Candilejas

Fotoblogueando desde Panamá

Attenti al Lupo

www.attentiallupo2012.com

Lusty Writer

Explore the fun side of the world.

Katzenworld

Welcome to the world of cats!

We. See Hope

'Expect With Confidence. Never Give Up Hope. It's Just The Beginning'

Aurora

...porque me falta espaço!

Devine Decorating Results for Your Interior

Interior design ideas, tips & tricks, plus before & after images

La Audacia de Aquiles

"El Mundo Visible es Sólo un Pretexto" / "The Visible World is Just a Pretext".-

Daily (w)rite

A DAILY RITUAL OF WRITING

Spirituality Exploration Today

Delving into the cross roads of rationality and intuition

Não Sou Exposição

Questionamentos sobre imagem corporal, amor próprio, saúde e comida.

%d blogueiros gostam disto: