Direto às fontes


por Bruno Gripp

Comentei de passagem sobre uma questão que, a meu ver, é de grande importância para se compreender as dúvidas que cercam a música clássica hoje. Eu falo da mudança no modo de fruição musical que se verificou ao longo do século XX. Essa mudança resultou em uma atitude em relação à música completamente diferente daquela de antes, e é sobre uma dessas mudanças que desejo me concentrar neste post: a recente ascensão da música por streaming.

As diversas revoluções tecnológicas certamente têm deixado sua marca na maneira de se ouvir música desde antes mesmo da mecanização da audição, levada a cabo ao longo da primeira metade do século XX. Com efeito, um recital de piano solo para o grande público seria impossível em um cravo ou mesmo nos pianos contemporâneos de Mozart, e mesmo os de Beethoven. Foi apenas depois do desenvolvimento da metalurgia e do uso de cordas de aço em pianos de armação de aço que o piano cresceu em volume e pôde assim, sozinho, encher um auditório.

Sem esse aporte tecnológico, jamais seria possível que um Liszt se tornasse a personalidade que foi. Dessa forma, a ascensão do culto ao virtuosismo e a personalidade do artista romântico devem, ainda que em parte, sua existência aos desenvolvimentos da revolução industrial. Ou seja, torna-se evidente que mudanças tecnológicas afetam a música desde antes de sua mecanização.

Adiantando-me no futuro, vivemos hoje uma nova mudança cultural, que é o surgimento e a dominância da música por streaming. Como muitos de meus leitores sabem, mas nem todos, imagino, os serviços por streaming são aqueles em que, ou gratuitamente, ou por meio do pagamento de uma quantia mensal, o ouvinte tem acesso a uma base de dados musicais que ele ouve diretamente do servidor, sem fazer download da música. Os serviços mais populares são o Spotify, o Deezer e, até ainda recentemente, o Rdio, que encerrou suas atividades em dezembro de 2015; mas existem mesmo diversos outros servidores, orquestras e casas de ópera que também o fazem. Mais recentemente, gigantes como a Amazon, a Apple e o Google têm se interessado nesse mercado e devem se tornar grandes concorrentes.

Não me interessa o aspecto econômico desse mercado, um assunto que já vem sendo discutido há um tempo e do qual eu tenho bem pouco de novo a acrescentar. Atrai-me muito mais as questões relativas ao efeito que esse serviço causa na própria fruição musical. E não é pequeno.

Até o surgimento da música eletrônica, na década passada, o principal meio de audição, sobretudo para a música clássica, era o de gravações que se comprava em lojas ou pela Internet. Mais do que a música popular, a música clássica dependia de gravações: enquanto a primeira vive de modas e se concentrava em um grupo pequeno de gravações e musicistas, a música clássica (da mesma forma que outros nichos, como o jazz) tem um universo muito amplo e pouco concentrado, o que diminui a atratividade de rádios, que têm que apelar para um denominador comum bastante difícil de se identificar. Isso fazia que um audiófilo médio dedicasse sempre uma porção de seu orçamento à compra de CDs.

Eu vivi essa fase ainda, e quando adolescente e jovem adulto era muito difícil se conseguir música. Até hoje lembro que demorei muitos anos para ouvir uma obra hoje simples como a Paixão segundo são Mateus de Bach. Nunca aconteciam apresentações na cidade da minha infância (BH) e eu não tinha outras chances de ouvi-la. Conhecia apenas por sua fama e, incrível de penar hoje em dia, por MIDIs que conseguia encontrar na Internet. É até impressionante, tendo em vista a enorme acessibilidade de uma obra como essa hoje, pensar que há não muito tempo ela era virtualmente inatingível.

Gostar de música nessa época, para pessoas que não viviam em uma cidade de vida musical intensa, consistia em adquirir gravações, das maneiras que estavam a nosso alcance. Dessa forma, uma discoteca de volume razoável era um apêndice natural na sala de uma família comum.

Essa necessidade aquisitiva tinha consequências não completamente positivas. A primeira é que ela estimulava um comportamento colecionista que é antípoda da real fruição musical. Os discos eram comprados apenas por seu interesse de coleção: por exemplo, não se gostava de Bruckner, mas, mesmo assim, comprava-se suas sinfonias completas para completar sua coleção. Dessa maneira, muitas discotecas realmente grandes foram formadas mais como um hobby de coleção do que um real interesse musical.

A segunda consequência, talvez mais nefasta porque mais disseminada, estava na mentalidade de que a gravação era o centro da vida musical. Considerações que hoje são completamente sem sentido eram comuns há não muito tempo, por exemplo, a noção de que havia “gravações definitivas” ou “essenciais”. Falava-se no “Chopin do Rubenstein”, no “Debussy do Michelangeli” no “Puccini da Callas”, como se os intérpretes fossem apêndices naturais dos compositores. Isso faz sentido em um mundo onde não há um acesso tão fácil a essas gravações, e elas se tornam bens escassos, mas, onde eles não são mais escassos, não há motivo em falar tal tipo de coisa.

Inclusive, se examinado a contento, esse comportamento que atribui a um ou outro musicista uma proeminência absoluta não faz o menor sentido. Um texto musical tem uma multidão de leituras possíveis, e a multiplicidade avoluma e permite que conheçamos melhor essa música. Na verdade, uma boa peça musical evade completamente essa noção de “gravação definitiva”. Nesta estação natalina, ouvi diversas gravações do Messias de Händel: Pinnock, Cleobury, Beecham, Jacobs, Haim, Gardiner. Longe de conseguir achar uma que seja a melhor, eu vejo que cada uma me faz amar mais a grande obra-prima de Händel. Se eu fosse investir na aquisição dos CDs de cada uma dessas gravações, eu gastaria uma quantia acima dos 700 reais.

Com o streaming, esse comportamento não tem mais lugar. Para que gastar fortunas se você pode ter acesso a uma quantidade de música maior que a duração da sua vida por uma quantia mensal menor do que um PF no centro? CDs hoje são um tormento mais do que um prazer: ocupam espaço, acumulam poeira, estragam, enfim, se justificam apenas em casos muito específicos.

Dessa maneira, considero que o streaming tem algumas boas consequências, principalmente ligadas ao fim da fetichização da gravação. Permite ao ouvinte concentrar-se muito mais na música do que no seu veículo. No fim das contas, importa a música que você conhece e ama, e não a que está na sua estante. E isso é muito bom.

No entanto, o streaming tem consequências não tão benéficas para a audição. A primeira tem a ver com uma diminuição da importância da música. De fato, o próprio meio eletrônico que concentra a música por streaming contribui para que a música seja afastada para a periferia da concentração do ouvinte. Diante de um computador ou um smartphone, cheio de atrações e notificações, a tendência imediata é que o ouvinte vá fazer outras atividades enquanto ouve música. Dessa forma, a audição é removida para um campo periférico.

É fácil perceber, a partir daí, que a música sai barateada nesse contexto. Há uma tendência cada vez maior para ela perder o protagonismo, que possuía há 40 ou 50 anos, quando o tocador de discos era a figura central na sala e não havia tantas diversões tão explícitas a seu redor. Isso é negativo para a música porque ela se torna algo menor, apenas um acessório, uma trilha sonora para sua vida. É comum mesmo o “ouvinte” sequer perceber a mudança de autor, uma vez que sua concentração não está na música, mas sim em outra coisa.

Que tipo de comunicação vai ter uma música que é enviada para as laterais do seu mundo? Ela pode gerar muito dinheiro, mas, em termos de importância, ela é menor do que a que possui em uma tribo africana, onde pessoas se reúnem para ouvir recitações poético-musicais. Por mais que uma Lady Gaga seja aparentemente famosa e influente, isso não se dá por sua música, mas apenas pela máquina de publicidade que a circunda.

Não obstante, mesmo quando o ouvinte encontra-se concentrado na música, ele ainda experimenta um certo barateamento da audição. As opções são muitas, e é difícil se concentrar nelas. Tive um exemplo disso com meu carro, que, mais velho, aceita um número restrito de CDs. Por uma época, eu não tive muito tempo de modificar o conteúdo do changer e fiquei uns dois meses com o mesmo grupo de CDs. A consequência dessa restrição foi muito positiva, eu acabei conhecendo muito bem a música e aprendendo a amá-la mais. Muitos estilos exigem que se acostume com suas idiossincrasias, e uma audição repetida é uma forma de se ir depurando o gosto. Com o streaming não há essa oportunidade, é mais fácil voltar-se para outra coisa do que tentar educar seu gosto para um estilo estranho. Paradoxalmente, a grande oferta tende a diminuir a capacidade de se gostar de estilos diferentes, favorecendo o ouvinte a ficar em seus redutos confortáveis.

Há questões ainda mais centrais, onde tanto a audição por gravação, quanto a audição por streaming concordam. Falo da questão de até que ponto ouvir gravações isolado em casa é um modo natural e esperado de se ouvir música. Isso, entretanto, deve ser assunto para outro post.

fonte: euterpe.blog.br

Categorias: Entertainment, Música, Music | Tags: , , | Deixe um comentário

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