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Dos baús e fendas de pedra e do que entre eles existe


O Papalagui mora, como o marisco, numa casca dura; e vive no meio de pedras, tal qual a escalopendra*entre fendas de lava, com pedras em volta, dos lados e por cima. A cabana em que mora parece-se com um baú de pedra em pé, com muitos compartimentos e furos.

A gente desliza para dentro e para fora da casca de pedra apenas por um lugar que o Papalagui chama entrada quando vai para dentro, e saída quando vem para fora, embora ambas as coisas sejam absolutamente uma só e a mesma. Neste lugar existe uma grande folha de madeira que se tem de empurrar com força para entrar na cabana. Mas isto é só para começar: tem-se de empurrar ainda outras folhas para estar, de fato, na cabana.

Quase todas as cabanas são habitadas por mais pessoas do que as que moram numa só aldeia samoana; por isto, tem-se de saber exatamente o nome da aiga (1) que se quer visitar. Cada aiga tem para si uma parte especial do baú de pedra, ou em cima, ou embaixo, ou no meio, à esquerda, à direita, ou mesmo na frente. E cada aiga não sabe nada da outra, nada mesmo, como se entre elas não houvesse um muro de pedra mas, sim, Manono, Apolima, Saváii (2) e numerosos mares.

É muito comum nem saberem o nome umas das outras; e se se encontram no buraco por onde entram e saem, cumprimentam-se de má vontade, ou resmungam qualquer coisa, tal qual insetos hostis, dando a impressão de estarem zangadas por terem de viver perto umas das outras.

Se a aiga habita no alto, embaixo do próprio teto da cabana, tem-se de subir por muitos galhos, em ziguezague ou em círculo, para chegar ao lugar em que está escrito na parede o nome da família. Vê-se, então, a imitação graciosa de uma maminha que se aperta até que ressoe um grito e apareça a família. Esta olha por um pequeno furo gradeado, redondo, para saber se não é um inimigo, caso em que enchendo sempre o ar de fumaça e cinzas, como se fosse a erupção da grande cratera de Saváii. Fumaça e cinzas que chovem nas fendas, de modo que os altos baús de pedra parecem o limo dos pântanos; as pessoas recebem nos olhos e nos cabelos terra preta, além de areia dura entre os dentes.

Apesar disso tudo, os homens andam por estas fendas da manhã à noite, muitos até contentíssimos. Nota-se que em algumas fendas há uma confusão para a qual as pessoas acorrem feito limo grosso. São as ruas onde se construíram enormes caixas de vidro nas quais se mostram todas as coisas necessárias à vida do Papalagui: tangas, enfeites para a cabeça, peles para as mãos e os pés, coisas de comer, carne, alimentos verdadeiros como frutas, legumes e muitas outras coisas. Tudo está ali exposto para atrair os homens. No entanto, ninguém pode tirar coisa alguma, mesmo em caso de precisão extrema. Para isso, tem-se de conseguir uma licença especial e fazer uma oferenda.

Nestas fendas, de todos os lados, há perigos que ameaçam; os homens não somente esbarram uns nos outros, mas circulam e galopam a cavalo, cruzando-se e entrecruzando-se, ou se fazem carregar em grandes baús de vidro, que deslizam sobre tiras metálicas. É grande o barulho. Os ouvidos ficam surdos, porque os cavalos batem com os cascos nas pedras do chão, as pessoas batem com as peles duras que lhes cobrem os pés. As crianças berram, os homens gritam de alegria ou medo, todos gritam. Ninguém pode entender o que o outro diz senão gritando. É um rugido geral, um ronco, um bater de pés, um grunhido, como se a gente estivesse no penhasco de Saváii, com a tempestade bramindo; bramido que, no entanto, é mais agradável e não enlouquece como o rugido que se ouve entre as fendas de pedra.

Tudo isso: os baús de pedra com a quantidade de homens, as fendas altas, o ir-e-vir, por assim dizer, de muitos rios, as pessoas no meio deles, o barulhos, os rugidos, a areia preta, a fumaça negra, principalmente, sem uma árvore, sem azul do céu, sem ar leve, nem nuvens – tudo isso é o que o Papalagui chama “cidade”, sua criação, de que tem muito orgulho. Aí vivem homens que nunca viram uma árvore, um bosque, um céu claro; nunca viram o Grande Espírito face a face. Homens que vivem como se fossem répteis na lagoa, como se fossem bichos debaixo dos corais, mas esses no entanto, estão cercados pela água límpida do mar e o sol pode chegar até eles com a sua boca quente. O Papalagui tem orgulho das pedras que ajunta? Não sei. O Papalagui é um ente humano que pensa de modo especial: faz muita coisa que nada significa e que lhe faz mal, mas apesar disso, ele se jacta, gaba-se do que constrói.

Portanto, a cidade é isso que falei; mas existem muitas cidades, pequenas e grandes. As maiores são aquelas onde moram os chefes mais importantes do país. Todas as cidades estão espalhadas como se fossem ilhas no meio do mar: é comum umas estarem à distância de umas tantas braçadas pelo mar; mas há outras que se leva um dia de viagem para alcançar. Todas estas ilhas de pedra estão ligadas entre si por meio de caminhos marcados. Mas pode-se também ir num navio terrestre, fino e comprido feito um verme, que está sempre cuspindo fumaça e que desliza, muito rápido, em fios de ferro comprido, mais rápido do que um bote de doze assentos, a toda velocidade. Mas se a pessoa apenas quer dizer talofa (4) a um amigo de outra ilha, não precisa ir até à casa dele: sopra o que quer dizer em fios metálicos, que vão de uma ilha de pedra a outra, feito compridos cipós. Mais depressa do que uma ave voando, o recado chega ao lugar pensado.

Entre todas as ilhas de pedra está o país que, propriamente, se chama Europa, onde a terra é, em parte, bela, e dá frutos como a nossa, com árvores, rios, florestas e também pequenas aldeias de verdade. Aí as cabanas são também de pedra e possuem muitas árvores frutíferas, que a chuva lava e o vento torna a secar.

Nestas aldeias vivem outros homens que sentem e pensam diferente dos que vivem na cidade. Chamam-se homens do campo e têm as mãos mais grossas do que os homens que vivem nas fendas e tangas mais sujas. Mas comem muito mais. A vida deles é muito mais saudável e mais bela do que a dos homens das fendas. É raro, no entanto, que acreditem nisso e invejam os outros a quem chamam de preguiçosos, porque não cavam a terra e não plantam, nem colhem. Vivem em luta com os da cidades porque têm de lhes dar a comida que tiram das suas terras; têm de colher as frutas que o homem das fendas come; têm de criar e abrigar o gado até engordá-lo e dar a metade ao homem da cidade. O caso é que precisam fazer muita força para dar comida aos homens das fendas e não compreendem por que estes se envolvem em tangas mais bonitas; por que têm as mãos mais brancas; por que não suam debaixo do sol, nem têm de padecer o frio e a chuva como eles.

O homem das fendas, no entanto, pouco se importa, convencido de que tem mais direitos do que o homem do campo e de que o seu trabalho vale mais do que plantar e colher. Mas esta briga entre as duas partes não chega ao ponto de se guerrearem: em geral, o Papalagui acha que tudo está bem, conforme está, quer viva entre fendas, quer no campo. O homem do campo admira os domínios do homem das fendas quando vai à cidade; e o homem das fendas canta e arruma quando passa pelas aldeias. O homem das fendas deixa que o homem do campo engorde seus porcos artificialmente, e este deixa o homem das fendas construir e armar os seus baús de pedra.

Quanto a nós, livres filhos do sol e da luz, o que nós queremos é permanecer fiéis ao Grande Espírito e não lhe sobrecarregar com pedras o coração. Só homens loucos, doentes, que já não seguram a mão de Deus, podem viver felizes entre fendas, sem sol, sem luz, sem vento. Deixemos ao Papalagui a sua felicidade duvidosa, mas vamos obstar-lhe toda tentativa de construir baús de pedras em nossas praias ensolaradas e de matar a nossa alegria de viver com pedras, fendas, sujeira, barulho, fumaça e areia, conforme ele pensa e quer.

*

Notas:

1. Uma espécie de centopéia.

2. Família

3.Três ilhas do grupo de Samoa

4. Cumprimento samoano. Literalmente: “gosto de ti”

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(veja também a parte 1!)

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