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Elegia 1938 (Carlos Drummond de Andrade)


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

(Poema publicado em Antologia Poética – 12a edição – Rio de Janeiro: José Olympio, 1978, p. 107)

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A contemporaneidade de “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade
Diante da decadência de uma sociedade que perde gradualmente seus referenciais, o poeta critica a mecanização do homem e a falta de sentido da vida

Sinvaldo Júnior
Especial para o Jornal Opção

Os temas políticos, o so­frimento do ser hu­ma­no e as guerras, a solidão, o mundo frágil, os seres solitários e impotentes ante o sistema são uma das facetas da poesia drummondiana. Num mundo em que se prezam os conflitos (so­bretudo com os quais não se aprende, mas se destrói), a automatização do homem, o cinismo, a indiferença, a hipocrisia, cabe ao poeta, lírico e angustiadamente (dada a sua impotência), cantar este mundo tal como ele é, visto que não pode, sozinho, modificá-lo — é o que se percebe no poema “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade.

Elegia? O que é isso? É um poema composto de versos hexâmetros e pentâmetros alternados — conceito que não se encaixa ao poema em questão —, ou poema lírico de tom terno e triste; canção de lamento — conceitos que se encaixam plenamente com o tom e a temática do poema de Drum­mond.

Embora o sistema do mundo não ofereça nenhum exemplo, nada que verdadeiramente valha a pena, o homem é o maior construtor desse mundo, para o qual trabalha e, em consequência indireta, sente calor, frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual, o que denota sua incoerência ou tamanha cegueira, pois, pergunta-se: por que se ocupar com trabalhos que nada lhe oferecem mas, ao contrário, lhe privam de verdadeiramente viver?; por que contribuir para um sistema que dá mais importância ao capital?; por que se conformar em fazer o que todos fazem (gestos universais) se, mesmo dedicado (cegamente dedicado), não se ganha nada em troca? — são questões levantadas pelo poema, cuja atualidade nos espanta. Ou não?

Os heróis (aí cabe uma ironiazinha) fazem apologia à virtude (mas inventam guerras e matam), à renúncia (mas são vaidosos), ao sangue-frio (mas pregam o ódio) — discurso que contribui e corrobora o verdadeiro intento do sistema e de seus criadores: cegar, desindividualizar o ser humano o máximo possível, porque assim é mais fácil enganar. Prega-se uma coisa aos seguidores (cegos trabalhadores), mas os “heróis” fazem outra, o oposto e, poderosos, possuem direitos que os meros mortais não possuem, como abrir guarda-chuvas de bronze ou se recolher a sinistras bibliotecas quando, à noite, neblina. E jamais — jamais — aceitariam ser destituídos dos seus privilégios em prol do outro, até porque não aceita nem enxerga a alteridade do outro.

A impotência é explícita e inevitável: Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra — única forma de fuga da realidade, válvula de escape. O sono é comparado à morte, pois dormindo, os problemas te dispensam de morrer. Porém, o subterfúgio é efêmero, dado que, ao despertar, tudo volta ao que/como era antes: a Grande Máquina (com letras maiúsculas) existe, é real, posto que invisível (impalpável), o que dificulta uma possível luta contra ela. O ser humano, pequenino, se confronta (confronta?) com o sistema, grandioso. Mas é a insignificância do homem, ante esse mundo, que, na verdade, sobressai. Sim, somos insignificantes. Ou ainda duvida disso?

Mortos, na quarta estrofe, pode equivaler às pessoas inseridas nesse (neste) contexto inumano — metáfora do ser humano, tal qual ele é, visto que, automático, passivo, conformado, é como se realmente morto estivesse. E não está? Os assuntos das conversas se referem — sempre, sempre — ao futuro: esperança adiada. E mais fugas: horas de amor e tempo de semear (sensações concretas e produtivas) são trocados por literatura e telefone (prazeres passageiros e improdutivos, porque segundo muitos a literatura é, de fato, inútil).

Em virtude de tudo isso, basta (infelizmente) conformar-se, adiar para outro século a felicidade coletiva, aceitar (a chuva, contra a qual nada se pode fazer), a guerra, o desemprego e a injusta distribuição (contra as quais muito se poderia (e pode) fazer, mas se…), pois não é possível, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan (símbolo, no passado e mesmo agora, decorridos 74 anos, do sistema capitalista, o qual é o corresponsável por tudo (ou nada). Resta, portanto, a revolta contida, a incapacidade — a frustração. O que mais restaria?

É, assim, possível fazer um paralelo do ano de 1938 (ano em que foi escrito o poema e ao qual se refere) e o século 21 (pleno…), pois se percebe que nada, ou pouco, mudou — daí a (infeliz) contemporaneidade do poema. Escrito um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial, em que poderosos ditavam e subordinados cumpriam, em que homens (cegos ou indiferentes) se conformavam com o status quo (mesmo que esse status quo os oprimissem, os robotizassem, os subjugassem, os matassem) — época que se assemelha ao contexto vigente (de servilismo, de pseudodemocracia, de guerras (injustificáveis), de ditadores (camuflados), de falta de organização e cooperação entre indivíduos realmente individuais). Época, sobretudo e consequentemente, de frustrações, porque sozinho (talvez com um trabalho conjunto sim, vide [aqui cabe uma pitada de humor negro] o World Trade Center em setembro de 2001), não se pode — por mais que se queira — explodir Nova York, símbolo, ainda hoje, de poderio, do capitalismo, de dinheiro, de imperialismo, causas, mesmo que indiretas (é sensato não sermos simplistas), de grandes males da humanidade.

Os poetas (dentre eles Carlos Drummond) existem, felizmente, para explicitar e cantar e escancarar o medo: o medo dos soldados, o medo dos ditadores, o medo dos democratas. É uma voz que destoa, ou deveria destoar. Dessa voz (des)toante, claro está, surge libertações. Libertações inúteis que não mudam o mundo, posto que são libertações individuais e individualistas. Somente de um conjunto de vozes destoantes, mas harmônicas, surgiria a verdadeira libertação. Utopia? Sim, mas a utopia é sempre melhor do que a cegueira e o cinismo. Ou não?

Sinvaldo Júnior é escritor. Doutorando em Literatura.

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As mulheres de 30


O que mais as espanta é que, de repente, elas percebem que já são balzaquianas. Mas poucas balzacas leram A Mulher de Trinta, de Honoré de Balzac, escrito há mais de 150 anos. Olhe o que ele diz:
‘Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis. A mulher jovem tem muitas ilusões, muita inexperiência. Uma nos instrui, a outra quer tudo aprender e acredita ter dito tudo despindo o vestido. (…) Entre elas duas há a distância incomensurável que vai do previsto ao imprevisto, da força à fraqueza. A mulher de trinta anos satisfaz tudo, e a jovem, sob pena de não sê-lo, nada pode satisfazer’.

Madame Bovary, outra francesa trintona, era tão maravilhosa que seu criador chegou a dizer diante dos tribunais: ‘Madame Bovary c’est moi’. E a Marilyn Monroe, que fez tudo aquilo entre 30 e 40?

Mas voltemos a nossa mulher de 30, a brasileira-tropicana, aquela que podemos encontrar na frente das escolas pegando os filhos ou num balcão de bar bebendo um chope sozinha. Sim, a mulher de 30 bebe. A mulher de 30 é morena. Quando resolve fazer a besteira de tingir os cabelos de amarelo-hebe passa, automaticamente, a ter 40. E o que mais encanta nas de 30 é que parece que nunca vão perder aquele jeitinho que trouxeram dos 20. Mas, para isso, como elas se preocupam com a barriguinha!

A mulher de 30 está para se separar. Ou já se separou. São raras as mulheres que passam por esta faixa sem terminar um casamento. Em compensação, ainda antes dos 40 elas arrumam o segundo e definitivo.
A grande maioria tem dois filhos. Geralmente um casal. As que ainda não tiveram filhos se tornam um perigo, quando estão ali pelos 35. Periga pegarem o primeiro quarentão que encontrarem pela frente. Elas querem casar.

Elas talvez não saibam, mas são as mais bonitas das mulheres. Acho até que a idade mínima para concurso de miss deveria ser 30 anos. Desfilam como gazelas, embora eu nunca tenha visto uma (gazela). Sorriem e nos olham com uns olhos claros. Já notou que elas têm olhos claros? E as que usam uns cabelos longos e ondulados e ficam a todo momento jogando as melenas para trás? É de matar.

O problema com esta faixa de idade é achar uma que não esteja terminando alguma tese ou TCC. E eu pergunto: existe algo mais excitante do que uma médica de 32 anos, toda de branco, com o estetoscópio balançando no decote de seu jaleco diante daqueles hirtos seios? E mulher de 30 guiando jipe? Covardia.

A mulher de 30 ainda não fez plástica. Não precisa. Está com tudo em cima. Ela, ao contrário das de 20, nunca ficou. Quando resolve, vai pra valer. Faz sexo como se fosse a última vez. A mulher de 30 morde, grita, sua como ninguém. Não finge. Mata o homem, tenha ele 20 ou 50. E o hálito, então? É fresco. E os pelinhos nas costas, lá pra baixo, que mais parecem pele de pêssego, como diria o Machado se referindo a Helena, que, infelizmente, nunca chegou aos 30?

Mas o que mais me encanta nas mulheres de 30 é a independência. Moram sozinhas e suas casas têm ainda um frescor das de 20 e a maturidade das de 40. Adoram flores e um cachorrinho pequeno. Curtem janelas abertas. Elas sabem escolher um travesseiro. E amam quem querem, à hora que querem e onde querem. E o mais importante: do jeito que desejam.

São fortes as mulheres de 30. E não têm pressa pra nada. Sabem aonde vão chegar. E sempre chegam.

Chegam lá atrás, no Balzac: ‘A mulher de 30 anos satisfaz tudo’.

Ponto. Pra elas.

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Quando eu morrer quero ficar


Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Mário de Andrade

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