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Dos baús e fendas de pedra e do que entre eles existe


O Papalagui mora, como o marisco, numa casca dura; e vive no meio de pedras, tal qual a escalopendra*entre fendas de lava, com pedras em volta, dos lados e por cima. A cabana em que mora parece-se com um baú de pedra em pé, com muitos compartimentos e furos.

A gente desliza para dentro e para fora da casca de pedra apenas por um lugar que o Papalagui chama entrada quando vai para dentro, e saída quando vem para fora, embora ambas as coisas sejam absolutamente uma só e a mesma. Neste lugar existe uma grande folha de madeira que se tem de empurrar com força para entrar na cabana. Mas isto é só para começar: tem-se de empurrar ainda outras folhas para estar, de fato, na cabana.

Quase todas as cabanas são habitadas por mais pessoas do que as que moram numa só aldeia samoana; por isto, tem-se de saber exatamente o nome da aiga (1) que se quer visitar. Cada aiga tem para si uma parte especial do baú de pedra, ou em cima, ou embaixo, ou no meio, à esquerda, à direita, ou mesmo na frente. E cada aiga não sabe nada da outra, nada mesmo, como se entre elas não houvesse um muro de pedra mas, sim, Manono, Apolima, Saváii (2) e numerosos mares.

É muito comum nem saberem o nome umas das outras; e se se encontram no buraco por onde entram e saem, cumprimentam-se de má vontade, ou resmungam qualquer coisa, tal qual insetos hostis, dando a impressão de estarem zangadas por terem de viver perto umas das outras.

Se a aiga habita no alto, embaixo do próprio teto da cabana, tem-se de subir por muitos galhos, em ziguezague ou em círculo, para chegar ao lugar em que está escrito na parede o nome da família. Vê-se, então, a imitação graciosa de uma maminha que se aperta até que ressoe um grito e apareça a família. Esta olha por um pequeno furo gradeado, redondo, para saber se não é um inimigo, caso em que enchendo sempre o ar de fumaça e cinzas, como se fosse a erupção da grande cratera de Saváii. Fumaça e cinzas que chovem nas fendas, de modo que os altos baús de pedra parecem o limo dos pântanos; as pessoas recebem nos olhos e nos cabelos terra preta, além de areia dura entre os dentes.

Apesar disso tudo, os homens andam por estas fendas da manhã à noite, muitos até contentíssimos. Nota-se que em algumas fendas há uma confusão para a qual as pessoas acorrem feito limo grosso. São as ruas onde se construíram enormes caixas de vidro nas quais se mostram todas as coisas necessárias à vida do Papalagui: tangas, enfeites para a cabeça, peles para as mãos e os pés, coisas de comer, carne, alimentos verdadeiros como frutas, legumes e muitas outras coisas. Tudo está ali exposto para atrair os homens. No entanto, ninguém pode tirar coisa alguma, mesmo em caso de precisão extrema. Para isso, tem-se de conseguir uma licença especial e fazer uma oferenda.

Nestas fendas, de todos os lados, há perigos que ameaçam; os homens não somente esbarram uns nos outros, mas circulam e galopam a cavalo, cruzando-se e entrecruzando-se, ou se fazem carregar em grandes baús de vidro, que deslizam sobre tiras metálicas. É grande o barulho. Os ouvidos ficam surdos, porque os cavalos batem com os cascos nas pedras do chão, as pessoas batem com as peles duras que lhes cobrem os pés. As crianças berram, os homens gritam de alegria ou medo, todos gritam. Ninguém pode entender o que o outro diz senão gritando. É um rugido geral, um ronco, um bater de pés, um grunhido, como se a gente estivesse no penhasco de Saváii, com a tempestade bramindo; bramido que, no entanto, é mais agradável e não enlouquece como o rugido que se ouve entre as fendas de pedra.

Tudo isso: os baús de pedra com a quantidade de homens, as fendas altas, o ir-e-vir, por assim dizer, de muitos rios, as pessoas no meio deles, o barulhos, os rugidos, a areia preta, a fumaça negra, principalmente, sem uma árvore, sem azul do céu, sem ar leve, nem nuvens – tudo isso é o que o Papalagui chama “cidade”, sua criação, de que tem muito orgulho. Aí vivem homens que nunca viram uma árvore, um bosque, um céu claro; nunca viram o Grande Espírito face a face. Homens que vivem como se fossem répteis na lagoa, como se fossem bichos debaixo dos corais, mas esses no entanto, estão cercados pela água límpida do mar e o sol pode chegar até eles com a sua boca quente. O Papalagui tem orgulho das pedras que ajunta? Não sei. O Papalagui é um ente humano que pensa de modo especial: faz muita coisa que nada significa e que lhe faz mal, mas apesar disso, ele se jacta, gaba-se do que constrói.

Portanto, a cidade é isso que falei; mas existem muitas cidades, pequenas e grandes. As maiores são aquelas onde moram os chefes mais importantes do país. Todas as cidades estão espalhadas como se fossem ilhas no meio do mar: é comum umas estarem à distância de umas tantas braçadas pelo mar; mas há outras que se leva um dia de viagem para alcançar. Todas estas ilhas de pedra estão ligadas entre si por meio de caminhos marcados. Mas pode-se também ir num navio terrestre, fino e comprido feito um verme, que está sempre cuspindo fumaça e que desliza, muito rápido, em fios de ferro comprido, mais rápido do que um bote de doze assentos, a toda velocidade. Mas se a pessoa apenas quer dizer talofa (4) a um amigo de outra ilha, não precisa ir até à casa dele: sopra o que quer dizer em fios metálicos, que vão de uma ilha de pedra a outra, feito compridos cipós. Mais depressa do que uma ave voando, o recado chega ao lugar pensado.

Entre todas as ilhas de pedra está o país que, propriamente, se chama Europa, onde a terra é, em parte, bela, e dá frutos como a nossa, com árvores, rios, florestas e também pequenas aldeias de verdade. Aí as cabanas são também de pedra e possuem muitas árvores frutíferas, que a chuva lava e o vento torna a secar.

Nestas aldeias vivem outros homens que sentem e pensam diferente dos que vivem na cidade. Chamam-se homens do campo e têm as mãos mais grossas do que os homens que vivem nas fendas e tangas mais sujas. Mas comem muito mais. A vida deles é muito mais saudável e mais bela do que a dos homens das fendas. É raro, no entanto, que acreditem nisso e invejam os outros a quem chamam de preguiçosos, porque não cavam a terra e não plantam, nem colhem. Vivem em luta com os da cidades porque têm de lhes dar a comida que tiram das suas terras; têm de colher as frutas que o homem das fendas come; têm de criar e abrigar o gado até engordá-lo e dar a metade ao homem da cidade. O caso é que precisam fazer muita força para dar comida aos homens das fendas e não compreendem por que estes se envolvem em tangas mais bonitas; por que têm as mãos mais brancas; por que não suam debaixo do sol, nem têm de padecer o frio e a chuva como eles.

O homem das fendas, no entanto, pouco se importa, convencido de que tem mais direitos do que o homem do campo e de que o seu trabalho vale mais do que plantar e colher. Mas esta briga entre as duas partes não chega ao ponto de se guerrearem: em geral, o Papalagui acha que tudo está bem, conforme está, quer viva entre fendas, quer no campo. O homem do campo admira os domínios do homem das fendas quando vai à cidade; e o homem das fendas canta e arruma quando passa pelas aldeias. O homem das fendas deixa que o homem do campo engorde seus porcos artificialmente, e este deixa o homem das fendas construir e armar os seus baús de pedra.

Quanto a nós, livres filhos do sol e da luz, o que nós queremos é permanecer fiéis ao Grande Espírito e não lhe sobrecarregar com pedras o coração. Só homens loucos, doentes, que já não seguram a mão de Deus, podem viver felizes entre fendas, sem sol, sem luz, sem vento. Deixemos ao Papalagui a sua felicidade duvidosa, mas vamos obstar-lhe toda tentativa de construir baús de pedras em nossas praias ensolaradas e de matar a nossa alegria de viver com pedras, fendas, sujeira, barulho, fumaça e areia, conforme ele pensa e quer.

*

Notas:

1. Uma espécie de centopéia.

2. Família

3.Três ilhas do grupo de Samoa

4. Cumprimento samoano. Literalmente: “gosto de ti”

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Como o Papalagui cobre a sua carne com muitas tangas e esteiras


O Papalagui está sempre precupado em cobrir bem a sua carne. “O corpo e os membros são carne; só aquilo que está acima do pescoço é que é o homem, realmente”: assim me falava um Branco, muito respeitado e tido como muito sábio. Queria ele dizer que só se devia considerar aquelas partes em que reside o espírito, com todos os pensamentos, bons e maus: a cabeça. A cabeça, sim, e se necessário também as mãos, o Branco permite que fiquem descobertas, embora a cabeça e a mão não sejam mais do que carne e osso. Aquele que, quanto ao mais, deixa que se lhe veja a carne não pode pretender à verdadeira moralidade.

Quando faz de uma moça sua esposa, nunca o rapaz sabe se foi enganado, porque jamais lhe viu, até então, o corpo(1). A moça, por mais bela que seja, tanto quanto a mais bela taopu (2) de Samoa, cobre o corpo para que ninguém o veja, nem tenha prazer em vê-lo. A carne é um pecado, segundo diz o Papalagui, porque o seu espírito é grande, é o que ele pensa. O braço que se ergue, à luz do sol, para atirar, é flecha do pecado; o peito, sobre o qual palpitam as ondas do respirar, é habitação do pecado; os membros com que a moça convida para a siva (3) são pecadores. E também os membros que se tocam para fazer seres humanos, alegrando a vasta terra, são pecaminosos. Tudo que é carne é pecado. Um veneno existe em todos os tendões, malicioso, que salta de um homem para outro. O espetáculo da carne, por si só, é suficiente para envenenar quem a contempla, intoxicá-lo, corrompê-lo e torná-lo tão abjeto quanto aquele que se deixa ver. É o que proclama a moral sagrada do homem branco.

É por isto que o corpo do Papalagui se envolve, da cabeça aos pés, em tangas, esteiras e peles, tão justas, tão apertadas, que olhar humano algum, raio algum do sol as atravessa; tão justas que o corpo se torna lívido, branco, fatigado, assim como as flores que crescem no mais profundo dos bosques.

Escutai, irmãos mais sensatos das muitas ilhas, que fardo um Papalagui carrega no seu corpo. Em primeiro lugar, envolve-o numa delgada pele branca, feita de fibras de certa planta, a chamada pele superior, que se atira para o alto e se enfia de cima para baixo, pela cabeça, peito e braços até as coxas. Por sobre as pernas e coxas até o umbigo, puxada de baixo para cima, vem a chamada pele de baixo. As duas peles são cobertas por uma terceira, mais grossa, tecida com os pelos de certo animal quadrúpede, lanoso, criado especialmente para este fim. É esta, propriamente, a tanga, que consiste quase sempre em três partes: uma cobre a parte de cima do corpo; a outra cobre a parte do meio; a terceira, as pernas. As três partes prendem-se entre si por meio de conchas(4) e tiras, feitas com a seiva ressecada da borracha, de tal forma que dão a impressão de ser uma peça só. Esta tanga quase sempre é cinzenta como a lagoa quando chove, nunca é realmente colorida; quando muito, a peça do meio, e só para aqueles homens que gostam de dar o que falar e de sempre andar atrás das mulheres.

Por fim, os pés ganham uma pele macia e outra muito dura. A pele macia, na maior parte das vezes, pode-se esticar e ajustar bem ao pé, ao passo que a outra quanto mais dura, menos se ajusta. É feita com a pele de um bicho forte que se mergulha, durante algum tempo, na água, se raspa com facas, se bate e se coloca ao sol até enrijecer de todo. Com isso o Papalagui fabrica uma espécie de canoa de bordas altas, justo o suficiente para nele caber um pé; uma canoa para o pé direito, uma canoa para o pé esquerdo. Estas canoas são amarradas, são atadas, ao tornozelo de maneira que os pés ficam dentro de um estojo rígido, tal qual o corpo do caracol. O Papalagui usa-o do nascer ao pôr do sol, sai nele para viajar e com ele dança; mesmo que esteja quente como após a chuva tropical.

Como isso é muito contrário à natureza — conforme até o Branco percebe —, como os pés ficam como se estivessem mortos e começam a cheirar mal, como, de fato, quase todos os pés europeus já não conseguem agarrar nem trepar numa palmeira, por tudo isso o Papalagui tenta esconder a sua tolice, cobrindo com muita lama a pele do bicho, que é vermelha por natureza, dando-lhe, à custa de muita esfregação, um brilho tal que os olhos não suportam o ofuscamento e têm de desviar-se.

Viveu, em certo tempo, na Europa um Papalagui que ficou célebre e que muitos homens vinham procurar porque lhes dizia: “Não é bom que useis peles tãos estreitas e pesadas nos pés; andai descalços sob o céu enquanto o orvalho da noite cobre a relva; assim vos curareis de todas as doenças”. Muito sadio era este homem, e ajuizado, mas riram-se dele e não tardaram a esquecê-lo.

As mulheres, aliás, tal qual os homens, usam muitas esteiras e tangas, enroladas no tronco e nas coxas. Sua pele se mostra sempre coberta de cicatrizes e esfoladuras devido aos cordões. Os seios ficam flácidos, sem leite, por causa de uma esteira que os aperta e vai do pescoço até o ventre e se amarra na frente e também nas costas; esteira que se enrijece com espinhas de peixe, arame e fios. É por isto que a maior parte das mães dão o leite aos filhos num rolo de vidro, fechado em baixo e com uma maminha artificial em cima.

Nem é o leite delas mesmas que dão, mas o de animais vermelhos, feios, chifrados, dos quais o arrancam com violência pelas quatro tetas que têm em baixo.

Aliás, as tangas das mulheres e das moças são mais finas que as dos homens, e também podem ser de cor, muito luzidias. É comum o pescoço e os braços aparecerem, mostrando mais carne do que o homem. Em todo caso, convém que as moças se cubram muito e se diz com benevolência, então, que são pudicas, o que significa: observam os mandamentos da boa moral.

Daí é que nunca entendi por que, nos fonos (5) nos banquetes, as mulheres e moças deixam que se lhes veja a carne do pescoço e das costas, sem daí resultar vergonha. Mas talvez esteja nisso a graça da solenidade: é que aí se permite aquilo que não se permite todos os dias.

Só os homens têm o pescoço e as costas sempre muito cobertos. Do pescoço ao mamilo, o álii, isto é, o chefe, usa um pedaço de tanga tratado a cal, do tamanho de uma folha de taro, por cima da qual, enrolado no pescoço, descansa um aro mais alto, também branco e também tratado a cal. Através deste aro ele passa um pedaço de tanga colorida, fixa-lhe um prego de ouro ou uma conta de vidro, tudo pendente do peitoral. Muitos Papalaguis também usam aros tratados a cal no punho; nunca, porém, nos tornozelos.

Este peitoral branco, como os aros brancos de cal, tem muita importância. Jamais um Papalagui fica sem estes adornos na presença de uma mulher. Pior ainda é se o aro de cal enegrece, fica sem brilho; e é por isto que muitos áliis importantes mudam todos os dias os peitorais e os aros de cal.

Enquanto as mulheres têm, para as festas, muitas esteiras de cor, com as quais enchem uns baús em pé e ocupam muitos de seus pensamentos para saber que tanga gostariam de usar hoje ou amanhã, se pode ser curta ou comprida; enquanto elas falam com muito interesse nos adornos com os quais fixá-los, os homens quase sempre têm um só traje para festas, do qual quase nunca falam. É a chamada roupa de ave, de um preto muito forte, que desce em ponta pelas costas, feito o rabo de papagaio (6). Quando se usa esta roupa de festa, também as mãos levam peles brancas; peles em cada dedo, tão estreitas que o sangue arde e corre para o coração. Por isto se permite que os homens sensatos apenas segurem estas peles nas mãos, ou as coloquem na tanga abaixo dos mamilos.

Assim que saem da cabana para a rua, o homem e a mulher envolvem-se noutra tanga mais larga, grossa ou fina conforme o sol brilhe mais ou menos. Cobrem, então, a cabeça, os homens com um vaso preto, rijo, curvo e oco feito o telhado de uma cabana samoana; as mulheres com grandes malhas de vime ou cestos virados para cima, aos quais prendem flores que nunca murcham, penas ornamentais, tiras, contas de vidro, todo tipo de enfeites. Parecem-se com a tuiga (7)  da taopu durante a dança de guerra; só que esta é muito mais bonita, e só que não cai da cabeça durante a tempestade e a dança. Os homens sacodem estas casas que levam na cabeça sempre que têm de cumprimentar alguém, enquanto as mulheres apenas inclinam para diante a carga que trazem como se fosse uma canoa muito pesada.

Só à noite, quando vai para a esteira, é que o Papalagui tira todas as tangas, mas se enrola, imediatamente, numa outra, uma só, que se abre nos pés e os deixa descobertos. As mulheres e moças quase sempre usam esta roupa de noite, ricamente bordada no pescoço, se bem que pouco se veja. Assim que o Papalagui se deita na esteira, cobre-se, sem mais tardar, até a cabeça, com as penas que se originam de uma grande ave e se juntam numa grande tanga para não se soltarem ou se espalharem para todos os lados.

Estas penas fazem o corpo suar e fazem o Papalagui pensar que está deitado ao sol, mesmo que este não brilhe, porque ao próprio sol o Papalagui não dá muita atenção.

Compreende-se, portanto, que o corpo do Papalagui seja branco e pálido, sem a cor da alegria. Mas é assim que o Branco quer. Até as mulheres, principalmente às donzelas, precupam-se muito em proteger a pele, evitando que se exponha à luz plena; quando saem para o sol, colocam-se embaixo de um grande teto, como se a cor lívida da lua valesse mais que a cor do sol. É que o Papalagui em todas as coisas gosta de fazer uma sabedoria e uma lei a sua maneira. O seu próprio nariz, pontudo como o dente do tubarão, para ele é bonito, ao passo que o nosso, sempre redondo e mole, ele acha feio e disforme, quando nós pensamos exatamente ao contrário.

É porque o corpo das mulheres e moças se cobre tanto que os homens e rapazes desejam ardentemente ver-lhes a carne, o que é natural. Noite e dia, pensam nisso, falam constantemente nas formas do corpo das mulheres e moças, como se fosse grande pecado aquilo que é natural e bonito, só devendo ocorrer na maior escuridão. Se eles deixassem ver a carne à vontade, poderiam pensar em outras coisas; e os olhos não revirariam nem a boca diria palavras impudicas quando encontrassem uma moça.

Mas a carne é pecado, é do aitu*? Existe idéia mais tola, amados irmãos? A crer no que diz o Branco, deveríamos querer, como ele, que a nossa carne fosse dura como a rocha do vulcão, sem a bela quentura que vem de dentro. No entanto, alegramo-nos porque a nossa carne encontra o sol; as nossas pernas mexem-se como o cavalo selvagem, sem tanga que as amarre, nem pele que as contenha e não nos preocupamos com que coisa alguma caia da nossa cabeça. Alegramo-nos ao ver a virgem que mostra seu corpo bonito ao sol e à lua. Tolo, cego é o Branco, que não sente o prazer verdadeiro, ele que precisa cobrir-se tanto para evitar se envergonhar.

*

Notas:

1. Nota de Tuiávii: mesmo mais tarde, ela só o mostrará raramente, e apenas de noite ou ao crepúsculo.

2  Moça aldeã, rainha das moças.

3  Dança nativa.

4  Tuávii refere-se aos botões e elásticos

5  Reuniões, deliberações

6  É do fraque que se trata, certamente.

7 Enfeite de cabeça.

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Do metal redondo e do papel pesado


Irmãos sensatos, escutai com fé o que vou dizer e sabei como somos felizes por não conhecer a angústia e o pavor dos Brancos. Podeis todos testemunhar o que o missionário diz: Deus é amor; um cristão de verdade faz bem se tiver sempre diante de si a imagem do amor; só assim é que vale para o grande Deus a adoração do Branco. Ele nos enganou, nos mentiu, os Brancos, corromperam os missionários para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espírito. Pois o metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que são a verdadeira divindade dos Brancos.

Fale a um Europeu do Deus do amor: ele torce o rosto, sorri. Sorri da simplicidade com que pensas. Estenda-lhe, no entanto, um pedaço redondo, brilhante, de metal, ou um papel grande, pesado: sem tardar, seus olhos brilham, muita saliva lhe vem aos lábios. O dinheiro é o objeto do seu amor, é a sua divindade. Todos os Brancos pensam nele, até dormindo. Muitos há cujas mãos de tanto querer agarrar o metal e o papel ficaram tortas e parecidas com as pernas da grande formiga do bosque. Há muitos cujos olhos cegaram de tanto contar dinheiro. Muitos que renunciaram à alegria pelo dinheiro; ao riso, à honra, à consciência, à felicidade, até à mulher e aos filhos. E quase todos renunciam à saúde pelo dinheiro, pelo metal redondo e pelo papel pesado.

Carregam-no em suas tangas, dentro de peles duras dobradas. À noite colocam-no debaixo do rolo onde pousam a cabeça para que ninguém o tire. Pensam todos os dias, todas as horas, em todos os momentos no dinheiro. Todos, todos! Até as crianças têm de pensar nele, devem nele pensar! É o que aprendem com a mãe, é o que vêem o pai fazer. Todos os europeus! Se fores às fendas de pedra de Siamani (1) a todo momento ouvirás um brado: marco! E sem parar: marco! Ouves este brado em toda parte: o nome que dão ao metal brilhante e ao papel pesado em Falani (2) é franco; em Peletânia (3) xelim; na Itália, lira. Lira, marco, franco, xelim, é tudo a mesma coisa. Tudo isto quer dizer dinheiro, dinheiro, dinheiro. O dinheiro, e mais nada, é o verdadeiro Deus do Papalagui, se Deus é aquilo que mais adoramos, que mais veneramos.

É necessário dizer que não é possível, na terra dos Brancos, ficar sem dinheiro, em momento algum, desde que o sol se levanta até que se deita. Se estás inteiramente sem dinheiro, não acalmas a fome nem a sede, não encontras esteira para dormir. Te mandarão para o fale pui pui (4) falarão de ti nos muitos papéis (5) se não tiveres dinheiro. Tens de pagar, quer dizer, tens de dar dinheiro pelo chão em que andas, pelo lugar em que ergues tua cabana, pela esteira em que passas a noite, pela luz que aclara tua cabana. Tens de pagar se quiseres atirar num pombo, se quiseres banhar teu corpo no rio. Se quiseres ir aos lugares em que as pessoas se alegram, em que cantam ou dançam, se quiseres pedir conselho ao teu irmão, tens de dar muito metal redondo, muito papel pesado. Tens de pagar por tudo.

Onde quer que vás hás de ver teu irmão com a mão estendida, pronto a desprezar-te, a enfurecer-se contigo se nela nada puseres. Nem servirá de nada a humildade do teu sorriso, a simpatia do teu olhar para abrandar-lhe o coração. Ele abrirá a goela e berrará: “Miserável! Vagabundo! Ladrão!” Tudo isso quer dizer a mesma coisa: a maior vergonha que se pode inflingir a um homem. Até para nascer tens de pagar; e quando morreres, a tua aiga tem de pagar por ti, por teres morrido e também para o teu corpo baixar à terra; e pela pedra que rolarem sobre a sepultura em tua memória.

Só vi uma coisa pela qual, na Europa, ainda não se exige dinheiro, da qual todos podem participar quanto queiram: a respiração do ar. Mas acho que apenas se esqueceram disso; e não hesito em declarar que, se ouvissem o que digo na Europa, imediatamente também exigiriam pelo ar que se respira o metal redondo e o papel pesado. Pois todos os europeus estão sempre à procura de novos motivos para exigir dinheiro.

Na Europa, sem dinheiro, és um homem sem cabeça, sem membros; és nada. Precisas ter dinheiro, precisas dele para comer, beber, dormir.

Quanto mais dinheiro tens, melhor te será a vida porque, tendo-o, podes ter com ele tabaco, anéis, tangas bonitas. Podes ter tanto tabaco, tantos anéis e tangas quanto for o dinheiro que tenhas. Se tiveres muito dinheiro, podes ter muitas coisas. Não há quem não queira ter muitas coisas e por isto todos querem ter muito dinheiro; e cada um mais do que o outro. Daí a ânsia por consegui-lo, a atenção com que os olhos o buscam a todo momento. Jogue um metal redondo na areia e verás que as crianças se atiram em cima, brigam por ele; aquela que o agarra e guarda é a vencedora e fica contente. Mas é muito raro alguém jogar dinheiro na areia.

De onde vem o dinheiro? Como é que se pode ganhar muito dinheiro? Oh! De muitas formas, com facilidade ou com dificuldade. Se cortas o cabelo do teu irmão, se tiras a sujeira da frente da cabana dele, se levas uma canoa na água, se tens uma boa idéia. Diga-se, por amor à justiça, que se tudo exige muito papel pesado e metal redondo, é no entanto, fácil ganhá-los em troca de qualquer coisa. Basta fazeres o que chama na Europa “trabalhar”. “Se trabalhares, terás dinheiro”, é o que diz uma regra moral dos europeus.

Existe aí uma grande injustiça que o Papalagui não nota, nem quer pensar sobre isto para não ser obrigado a reconhecer que ela existe. Nem todos que têm muito dinheiro trabalham muito. (Por sinal, todos gostariam de ter muito dinheiro sem trabalhar). É assim: quando um Branco ganha tanto dinheiro que dá para comer, para ter sua cabana e sua esteira e mais algumas coisas, imediatamente, com o dinheiro que tem a mais, faz seu irmão trabalhar para ele.

Dá-lhe, primeiro, o trabalho que lhe sujou e endureceu as mãos; faz que limpe os excrementos que ele próprio expeliu. Se é mulher, arranja uma moça que trabalhe para ela, mandando-a limpar a esteira suja, lavar a louça e as peles em que coloca os pés, consertar as tangas que se rasgaram, sem ter o direito de fazer nada que não seja bom para seu amo. Homem ou mulher, quem assim procede fica com tempo para o trabalho mais importante, mais divertido, que não suja as mãos, não cansa e dá mais dinheiro. Se ele é construtor de barcos, o outro deverá ajudá-lo a construir os barcos. Do dinheiro que este produz, ajudando, e que devia, portanto, ficar todo para ele, o amo tira-lhe uma parte, a maior e, assim que pode, põe mais dois irmãos trabalhando para ele, depois três, e mais, e mais, em número cada vez maior, até cem ou mais, seus irmãos constróem os barcos para ele. Enfim, o amo já não faz coisa alguma senão deitar-se na esteira, bebendo kava européia, queimando rolos de fumaça, vendendo os barcos quando estes estão prontos e recebendo o metal e o papel que os outros, trabalhando, ganharam para ele. Dizem, então: ele é rico. Invejam-no, adulam-no muito e lhe falam com palavras sonoras, porque a importância de um homem, no mundo branco, não é dada por sua nobreza, coragem, o brilho das suas idéias, mas pela quantidade de dinheiro que tem, quanto dinheiro é capaz de ganhar por dia, quanto guarda no seu forte baú de ferro que terremoto algum pode destruir.

Há muitos Brancos que amontoam o dinheiro que outros fizeram para eles; levam-no para um lugar muito bem guardado e vão trazendo cada vez mais até que, certo dia, já não precisam fazer os outros trabalharem para eles. Agora é o próprio dinheiro que trabalha no lugar deles. Como é possível isso acontecer sem qualquer feitiçaria brava, nunca pude saber, mas a verdade é que o dinheiro se multiplica como as folhas de uma árvore; e o homem vai ficando mais rico, mesmo quando dorme.

Mesmo quando um homem tem muito dinheiro, muito mais do que a maior parte dos outros, tanto dinheiro que daria para aliviar o trabalho de cem, até mil pessoas, nem assim lhes dá coisa alguma; pega no metal redondo e senta-se em cima do papel pesado com avidez e volúpia brilhando nos olhos. Se lhe perguntares: “Que vais fa-,zer com todo esse dinheiro? Não podes ter mais na terra do que roupa,* comida, água para beber”. Ele não sabe o que responder, ou diz: “Quero ter cada vez mais dinheiro; mais e mais”. E tu vês logo que o dinheiro o pôs doente, que sua mente está inteiramente possuída pelo dinheiro.

Está doente, obcecado, porque a alma lhe pende do metal redondo e do papel pesado; porque jamais terá o bastante, jamais deixará de apoderar-se do mais que puder. Ele não pensa desta forma: “Irei deste mundo tal qual a ele vim, sem provocar enfermidades e nem injustiça, pois o Grande Espírito me mandou à terra sem metal redondo e papel pesado”. São poucos os que assim pensam. A maior parte continua doente, sem recuperar jamais a saúde do coração, se regozijando com o poder que a grande quantidade de dinheiro lhe dá. Ficam inchados de orgulho, como as frutas podres quando cai a chuva tropical. Com volúpia mandam muitos dos seus irmãos para o trabalho pesado a fim de poderem engordar e prosperar. Fazem isso sem que a consciência lhes doa. Alegram-se porque têm os dedos bonitos, dedos limpos, que nunca se sujam. Não os atormenta, não lhes tira o sono saber que estão roubando, a todo momento, a força dos outros, força que tornam sua. Nem sonham em dar aos outros parte do dinheiro que têm para lhes facilitar o trabalho.

Assim é que existe, na Europa, metade que tem de trabalhar muito e se sujando enquanto a outra metade pouco ou coisa alguma faz. Aquela metade não tem tempo para deitar-se ao sol; a outra tem demais. Diz o Papalagui: “Todos os homens não podem ter a mesma quantidade de dinheiro, nem todos podem deitar-se ao sol ao mesmo tempo!” Com esta doutrina ele assume o direito de ser cruel, por amor ao dinheiro. Tem o coração duro, o sangue frio. Finge até, mente, é sempre desonesto, sempre ameaça, quando quer botar a mão no dinheiro. É comum um Papalagui matar outro por causa do dinheiro. Mata-o com o veneno das palavras, atordoa-o para despojá-lo e é por isso que quase ninguém confia no outro, porque todos conhecem a fraqueza comum. Jamais sabes se aquele que tem muito dinheiro tem bom coração; é bem possível que ele seja mau. Nunca se sabe de que maneira e de onde o outro tirou a sua riqueza.

Em compensação, o rico nunca sabe se as honras que lhe prestam são para ele mesmo ou para o seu dinheiro. Na maior parte dos casos, são por causa do dinheiro. É por isto que não compreendo porque se envergonham tanto os que não têm muito metal redondo nem papel pesado e porque invejam o rico em vez de se sentirem invejáveis. Não convém, nem é bonito pendurar no pescoço muitos colares de conchas; assim também, não convém sobrecarregar-se com o peso do dinheiro que tira o fôlego do homem e a liberdade de movimento necessária a seus membros.

Mas não há Papalagui que renuncie ao dinheiro; não há mesmo. Quem não ama o dinheiro é ridicularizado, é “valea”, quer dizer, estúpido. “A riqueza (ter muito dinheiro) dá a felicidade”, diz o Papalagui. “O país que mais dinheiro tem é mais feliz”.

Nós todos, luminosos irmãos, somos pobres; e a nossa terra é a mais pobre que há debaixo do sol. Não temos tanto metal redondo, nem tanto papel pesado que dê para encher um baú. Somos uns mendigos, uns miseráveis aos olhos do Papalagui. Mas quando vos vejo os olhos e os comparo com os dos ricos áliis, vejo que os deles são sem brilho, abatidos, cansados, ao passo que os vossos, tal qual a grande luz, irradiam alegria, força, vida, saúde! Olhos como os vossos, só os vi nas crianças do Papalagui, quando ainda não sabem falar, porque até então nada sabem do dinheiro. Como nos favoreceu o Grande Espírito preservando-nos do aitu, pois o dinheiro é um aitu; porque todos que tratam com ele são maus e fazem mal. Quem apenas toca no dinheiro é tomado pelo seu feitiço; quem o ama tem de servi-lo e dar-lhe todas as forças, todas as alegrias, enquanto viver. Amemos os nossos nobres costumes que nos ensinam a desprezar aquele que exige alguma coisa pela sua hospitalidade; que reclama um alofa (7) pelo fruto que dá. Amemos os nossos usos que não nos permitem suportar que alguém tenha muito mais do que o outro, nem que alguém tenha muito e o outro nada. Não sejamos de coração como o Papalagui, que pode sentir-se feliz e contente mesmo se o irmão junto dele está triste e infeliz.

Livremo-nos, porém, antes de mais nada, do dinheiro. O Papalagui oferece-nos o metal redondo e o papel pesado para nos dar o seu gosto. Eles querem nos convencer de que o dinheiro nos fará mais ricos e felizes. Já são muitos dentre nós os que se deixaram deslumbrar e se contagiaram com essa grave doença. Mas se acreditardes no que vos diz o vosso humilde irmão; se perceberdes que vos falo a verdade quando vos digo que o dinheiro jamais dá alegria e felicidade mas, pelo contrário, confunde e angustia completamente o coração, a alma toda do homem; quando vos digo que com dinheiro, jamais se ajudou realmente homem algum a ser mais alegre, mais forte, mais feliz; então havereis de detestar o metal redondo e o papel pesado como o vosso pior inimigo.

*

Notas:

1 Alemanha

2 França

4 Inglaterra

5 Prisão

6 Jornais

7 Presente, retribuição.

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O Papalagui (2)


VII
O Grande Espírito é mais
forte que o Papalagui

O Papalagui faz muitas coisas que não sabemos fazer, que jamais entenderemos, que para a nossa mente mais não são do que pedras pesadas. São coisas das quais não sentimos falta; coisas que aos fracos dentre nós podem até causar espanto e falsamente humilhar. Vamos pois, sem temor, observar quais são essas artes singulares do Papalagui. 

O Papalagui sabe fazer de tudo um dardo, uma clava. Apossa-se do relâmpago bravo, do fogo quente, da água veloz e deles dispõe à sua vontade. Tranca-os e dá-lhes ordens, às quais eles obedecem; são os seus guerreiros mais valorosos, porque o Papalagui tem o segredo de fazer o fogo quente ainda mais quente, a água veloz mais veloz ainda.

O Papalagui parece ser realmente aquele que furou o céu, o enviado de Deus, porque domina o céu e a terra como quer. É peixe e ave ao mesmo tempo; ao mesmo tempo é verme e cavalo. Penetra na terra, através da terra; e se enfia nos mais largos rios de água doce. Desliza pelas montanhas, pelo rochedos. Ata rodas de ferro aos pés e galopa mais rápido do que o mais rápido dos cavalos. Sobe aos ares: sabe voar e eu o vi deslizar pelo céu como se fosse a gaivota. Tem um grande barco para andar pela água e outro para andar por baixo do mar. Anda de barco de uma nuvem para outra.

Irmãos amados, dou com as minhas palavras testemunho da verdade; e deveis crer no vosso servo, ainda que vosso bom senso vos faça duvidar do que narro. Porque grandes e dignas de muito admirar são as coisas do Papalagui. Temo até que muitos dentre vós percam a confiança em si mesmos ante semelhante força. E se eu vos contar tudo quanto os meus olhos espantados viram, por onde devo começar?

Todos vós conheceis aquele grande barco que o Branco chama navio. Não é tal qual um grande peixe, um enorme peixe? Não sei como ele consegue ir, de ilha a ilha, mais depressa que o mais forte dos nossos jovens remando numa canoa. Vistes a grande nadadeira que ele leva no rabo, quando se move? Que bate e se mexe tal qual os peixes da lagoa? É esta grande nadadeira que empurra o grande barco para diante. Como isso é possível, só o Papalagui sabe: é um segredo que está dentro do grande peixe. Ali é que está a máquina que dá tanta força à grande nadadeira. E é a máquina que encerra a grande força. O que é uma máquina, minha inteligência não é capaz de explicar. Só sei que ela come pedras negras e dá em troca a sua força, força que jamais homem algum terá.

A máquina é a clava mais forte que o Papalagui tem. Dêem-lhe o mais forte ifi da floresta virgem: a mão da máquina despedaça o tronco, feito a mãe que parte o fruto do taro para os filhos. A máquina é o grande mago da Europa, de mãos fortes, mãos que nunca se cansam; querendo, corta cem, até mil tanoas num só dia. Eu a vi tecendo tangas tão finas, tão graciosas que nem as mãos mais delicadas de uma moça seriam capazes de tecer; e vai tecendo da manhã à noite, cuspindo montes e montes de tangas. Mesquinha, miserável é a nossa força diante da força imensa da máquina.

O Papalagui é um mago, um feiticeiro. Se cantares uma canção, ele a captura e a devolve quando quiseres. Põe na tua frente uma chapa de vidro e captura nela a tua imagem, tantas vezes quantas quiseres.

Mas vi prodígios maiores ainda. Já vos disse que o Papalagui agarra os relâmpagos do céu; e é mesmo verdade. Agarra-os e os coloca na máquina que deve comê-los, devorá-los, e cuspi-los de noite em milhares de estrelinhas, vagalumes, pequenas luas. Com a maior facilidade o Papalagui será capaz de iluminar as nossas ilhas à noite, tornando-as tão claras, tão luminosas quanto o dia.

É comum ele fazer os relâmpagos das máquinas trabalharem para ele, indicando-lhes um caminho por onde devem ir para levar mensagens para os irmãos que moram longe. Os relâmpagos obedecem e levam o recado.

O Papalagui soube aumentar a força de todos os seus membros: com as mãos passa por cima dos mares e atinge as estrelas; com os pés, vence ondas e ventos. Os ouvidos do Papalagui percebem qualquer sussuro em Saváii e a sua voz tem asas feito as aves. Com os olhos vê mesmo durante a noite; vê através de si mesmo, como se sua carne fosse tão clara quanto a água; e vê qualquer sujeira que na água exista.

Tudo isso que presenciei e vos narro é apenas pequena parte do que meus olhos viram com espanto. Crede, irmãos, que a ambição do Branco é grande: está sempre querendo realizar milagres novos e mais imponentes; milhares dentre eles ficam pensando, à noite, na maneira de ganhar vitórias sobre Deus, porque é certo que o Papalagui se esforça por ser igual a Deus. Por seu gosto, destruiria Deus e se apoderaria da sua força, mas Deus é mais forte ainda, maior ainda do que o grande Papalagui. Deus é mais forte do que a máquina do Papalagui, e é ele que determina quem dentre nós deve morrer e quando. É a Deus, em primeiro lugar, que o sol, a água, o fogo servem; e não houve jamais Branco que à sua vontade conseguisse determinar quando a lua se levanta ou em que direção os ventos sopram.

E já que assim é, pouca importância têm os prodígios que o Papalagui faz. E fraco é aquele dentre nós, irmãos amados, que se impressiona com eles, que adora o Branco pelas suas obras e se julga pobre e indigno porque nem a sua mão, nem o seu espírito é capaz de fazer o mesmo. Pois mesmo se os prodígios e habilidades do Papalagui parecem espantosos aos nossos olhos, vistos à mais clara luz do sol, não têm mais importância do que talhar uma clava, ou tecer uma esteira; no fundo, tudo quanto o Papalagui faz nada mais é do que brincadeira de criança na areia. Coisa alguma que o Branco tenha feito se compara, nem de longe, aos prodígios do Grande Espírito.

Magníficas, imponentes e enfeitadas são as cabanas dos áliis importantes que se chamam palácios; mais belas ainda são as altas cabanas que se erguem em honra de Deus, mais altas, em muitos casos, do que o pico do Tofua*. No entanto, grosseiro, rude, sem o verdadeiro calor da vida é tudo isto em comparação com uma só moita de hibisco que dá flores cor de fogo; em comparação com um ramo da palmeira, com uma floresta de coral, inebriante pelas cores e pelas formas. Jamais o Papalagui fiou tanga tão fina quanto as teias que Deus fia; nem máquina alguma é tão requintada e artificiosa quanto a pequena formiga da areia que vive em nossa cabana.

O Branco voa até as nuvens, disse-vos eu, mas a linda gaivota voa mais alto ainda e voa mais rápido que o homem, em meio a todas as tempestades, e as suas asas pertencem realmente ao seu corpo, ao passo que as asas do Papalagui são falsas, sujeitas a se quebrarem, a caírem com facilidade.

Assim,todas as coisas prodigiosas do Papalagui têm um lado fraco, oculto em algum lugar; máquina não há que não precise de quem a vigie, de quem a toque; máquina não há que não contenha uma secreta maldição. A mão poderosa da máquina faz tudo, sim, mas enquanto trabalha, vai devorando o amor que encerram as coisas que fazemos com as mãos. De que me serve uma canoa, uma clava talhada pela máquina? Uma máquina é um ente frio, sem sangue, que não sabe falar do seu trabalho, que não sorri quando acaba; que não pode mostrá-lo ao pai e à mãe para que eles também fiquem contentes. Como é que poderei amar minha tanoa se uma máquina é capaz de fazer outra igual a qualquer momento, sem o meu trabalho? Aí está a grande maldição da máquina: é que o Papalagui já não ama coisa alguma porque a máquina pode refazer tudo, a qualquer momento. Para que a máquina lhe dê os seus prodígios sem amor, o homem deve alimentá-la com o próprio coração.

O Grande Espírito é que determina, sozinho, as forças do céu e da terra; é quem as reparte como lhe parece melhor. Não cabe ao homem fazer isso; não é impunemente que o Branco tenta transformar-se em peixe, ave, cavalo e verme. E com isso ganha muito menos do que confessa. Quando atravesso uma aldeia a cavalo, vou mais depressa, é claro; mas quando caminho a pé, vejo mais coisas e o meu amigo pode me convidar para entrar em sua cabana. Raramente se ganha de verdade quando se chega mais rapidamente ao que se procura. Mas o Papalagui está sempre querendo chegar depressa ao seu objetivo. Quase todas as suas máquinas servem, apenas, para chegar rápido a certa meta. Mas, quando chega, outra meta o atrai. O Papalagui desse modo vive sem jamais repousar; e cada vez mais desaprende o que é andar, passear, caminhar alegremente em direção ao que não procuramos mas vem ao nosso encontro.

É por isto que vos digo: a máquina é um bonito brinquedo dessas crianças grandes que são os Brancos. Nenhuma das suas artes deve assustar-nos. O Papalagui até o momento jamais construiu máquina que o preserve da morte; jamais fez coisa alguma maior do que
aquilo que Deus faz a todo momento. Não há máquina, nem arte, nem encantamento que prolongue a vida humana, que lhe dê mais alegria ou felicidade. Contentemo-nos, portanto, com as máquinas maravilhosas do artista que é Deus; e desprezemos o Branco quando ele quer brincar de Deus.

* Montanha de Upolu

* * *

VIII
Da profissão do Papalagui e
da confusão que ela provoca

É  difícil dizer o que é profissão, mas todo Papalagui em uma. É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isto acontece. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa, uma só coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum. Se com minhas mãos outra coisa não faço além de construir cabanas, ou tecer esteiras, construir cabanas ou tecer esteiras é minha profissão. 

Profissões há para homens e para mulheres. Lavar roupa na lagoa, dar brilho às peles que se põem nos pés, são profissões de mulher; conduzir um navio pelo mar, caçar pombos no bosque são profissões de homem. A mulher larga a profissão assim que se casa; o homem quando se casa é que realmente se consagra à sua profissão. Nenhum álii dá a filha a um pretendente que não tenha profissão. Papalagui sem profissão não pode se casar. Todo homem branco precisa ter uma profissão.

Por isto é que todo Papalagui, muito antes do tempo em que o jovem se tatua, deve decidir que trabalho vai fazer durante a vida inteira. Chama-se isso “escolher uma profissão”. É uma coisa tão importante que dela se fala tanto na aiga quanto do que se tem vontade de comer no dia seguinte. Se o jovem álii quer tecer esteiras, o velho álii leva-o a um homem que só faz isso e que mostrará ao jovem como é que se tece uma esteira. Ele deve lhe ensinar a tecer uma esteira sem precisar olhar o que faz. É comum levar muito tempo mas, assim que o jovem aprende, larga o seu mestre e, então, se diz: “Ele tem uma profissão”.

Mas se o Papalagui, mais tarde, chega a perceber que prefere construir cabanas a tecer esteiras, dizem: “Ele errou de profissão”, o que é a mesma coisa que dizer: “errou o tiro!” Isso é uma coisa muito séria porque é contra a moral adotar, simplesmente, outra profissão. O Papalagui decente corre o risco de perder sua honra se disser: “Não posso fazer isto, não tenho nenhum prazer”; ou “Minhas mãos não obedecem quando faço esse trabalho!”

Tem o Papalagui tantas profissões quantas são as pedras da lagoa. Tudo que faz o Papalagui se transforma em profissão. Se alguém junta as folhas murchas da árvore da fruta pão, é uma profissão; se lava os pratos em que come, é também uma profissão. Tudo que se faz é uma profissão, com as mãos ou com a cabeça. Também é profissão ter idéias ou olhar para as estrelas. Não há, a bem dizer, coisa alguma que um homem seja capaz de fazer que o Papalagui não transforme em profissão.

Quando, então, um Branco diz: “Sou tussi-tussi” (1), quer dizer: esta é a sua profissão; ele nada mais faz do que escrever uma carta depois da outra. Não enrola a sua esteira e a pendura numa trave, não vai para a cozinha cozinhar uma fruta, não lava os pratos em que come. Come peixes, mas não vai pescar; come frutas, mas não as tira da árvore. Escreve tussi e mais tussi, e isso é sua profissão. Da mesma maneira como também é profissão: enrolar a esteira e pendurá-la numa trave, cozinhar frutas, lavar pratos, pescar, apanhar frutas. É só a profissão que dá a alguém o direito de ter uma atividade. 

É por isto que quase todos os Papalaguis só sabem fazer aquilo que é a sua profissão. Nem o chefe mais importante, que tem a cabeça cheia de sabedoria e o braço cheio de força, é capaz de enrolar e pendurar a sua esteira, de lavar os seus pratos. Também é por isto que aquele que sabe escrever um tussi com várias cores não é capaz de remar numa canoa pela lagoa, e inversamente. Ter profissão quer dizer: saber apenas correr ou apenas provar ou apenas cheirar ou apenas lutar; em todos os casos, saber apenas uma coisa. Esse só^-ber-fazer-uma-coisa é uma grande fraqueza e um grande perigo porque qualquer um pode se ver, um dia, obrigado a remar numa canoa pela lagoa.

O Grande Espírito nos deu as mãos para colhermos as frutas das árvores, para apanharmos os caroços de taro nos pântanos, para proteger-nos o corpo contra todos os inimigos. Deu-nos as mãos para nos divertirmos, dançando e brincando, folgando de todos os modos. Não as deu para construirmos apenas cabanas, apenas colhermos frutas ou caroços; mas, sim, para nos servirem, para nos defenderem em todos os momentos, em todas as ocasiões.

O Papalagui não compreende isso. Mas que a sua atividade é errada, errada mesmo, contra todos os mandamentos do Grande Espírito, nós o percebemos pelo seguinte: é que existem Brancos que já não podem correr pois criam muita gordura no ventre, como os puaas(2) porque têm de estar sempre parados, obrigados pela profissão; já não podem levantar e lançar um dardo pois suas mãos estão muito habituadas a segurar o osso que lhes serve para escrever e eles estão sempre sentados à sombra, só escrevendo tussi; não são capazes de dominar um cavalo selvagem porque estão sempre ocupados em olhar para as estrelas ou inventar idéias. 

É raro ver um Papalagui que ainda salte, que pule como criança, depois que fica adulto. Pelo contrário, quando anda, arrasta o corpo, como se alguma coisa entravasse seu movimento. O Papalagui disfarça, nega esta fraqueza, dizendo que correr, pular, saltar não são decentes para um homem importante. Hipocrisia: é que seus ossos estão duros, sem movimento e seus músculos não têm mais animação porque a profissão os fêz sonolentos e mortos. E a profissão é também um aitu que destrói a vida; um aitu que ao homem insinua bonitas coisas mas lhe chupa o sangue.

A profissão ainda prejudica o Papalagui de outra forma; e de outra forma mostra que é um aitu. É uma alegria construir uma cabana, derrubar árvores na floresta, talhá-las em forma de estacas, erguê-las, arqueá-las para fazer o teto e, finalmente, depois de amarrar as estacas e tudo mais com fios de coqueiro, cobri-las com as folhas secas de cana-de-acúcar. Não preciso dizer-vos como é grande a alegria de toda a comunidade depois de construir todos juntos a casa do chefe; até as crianças e as mulheres participam da festança.

Mas que diríeis se só alguns poucos homens da aldeia pudessem ir à floresta abater as árvores e talhá-las em estacas? E estes poucos não poderiam ajudar a erguer as estacas porque a profissão deles seria apenas a de derrubar árvores e talhar estacas? E os que erguessem as estacas não poderiam entrançar os caibros do teto porque, como profissão, teriam apenas a de erguer as estacas; e os que tecessem os caibros não poderiam ajudar a cobrir a cabana com cana porque só teriam que entrançar caibros. Nem todos poderiam ajudar a apanhar cascalho na praia para forrar o chão porque só poderiam fazer isso aqueles que tivessem esta profissão. E só poderiam festejar a construção, inaugurar a cabana aqueles que nela morassem e não aqueles que a tivessem construído.

Estais rindo! E estou certo de que dirão como eu: “Se tivéssemos o direito de fazer apenas uma coisa e não pudéssemos participar de todos os trabalhos que precisam da força humana, teríamos só metade da alegria, ou talvez nenhuma!” E por certo chamaríeis louco todo aquele que pedisse das vossas mãos apenas um só trabalho, como se todos os outros membros e sentidos do vosso corpo fossem aleijados e mortos.

É daí que vem a miséria maior do Papalagui. É agradável ir buscar água no riacho uma vez, até várias vezes por dia; mas quem tiver de ir buscá-la da manhã à noite, todos os dias, em todos os momentos, enquanto tiver forças, e isso sem cessar, afinal há de enfurecer-se, há de querer romper as correntes que o prendem,pois não há coisa que pese tanto ao homem quanto fazer sempre a mesma coisa.

Mas se só houvesse Papalaguis que, dia após dia, fossem buscar água na mesma fonte, isso ainda poderia até ser para eles muito bom. Mas, não: há uns que apenas levantam ou abaixam a mão, ou empurram um pau, numa sala suja, sem luz, nem sol; nada fazem que exija esforço ou dê prazer. No entanto, segundo o modo de pensar do Papalagui, é absolutamente necessário que eles levantem ou abaixem a mão ou que empurrem uma pedra pois é isso que faz andar ou regular a máquina que fabrica aros de cal, por exemplo, ou peitorais, ou conchas para calças, ou seja o que for. Existem menos palmeiras em nossas ilhas do que, na Europa, Papalaguis com o rosto acizentado porque não gostam do que fazem, porque a profissão devora toda a sua alegria e não lhes dá nenhum fruto, nem sequer uma folha com a qual se regozijem.

E é por isto que existe ódio ardente entre os homens que têm profissões diferentes. Todos guardam no coração uma coisa como um animal preso por grilhões, que se rebela sem conseguir soltar-se. Todos estão sempre comparando as suas profissões, cheios de inveja e má-vontade; fala-se em profissões elevadas e baixas, embora todas sejam apenas atividades parciais. O homem, na verdade, não é apenas mão, ou apenas pé, cabeça; é todo um só. Mão, pé, cabeça são feitos para formarem um todo. Se todos os membros e sentidos trabalham juntos, o coração se alegrará, sadio; não acontecerá isso quando só uma parte tem vida e todas as outras estão mortas. Daí vem a confusão, o desespero, a doença.

Por causa da profissão, o Papalagui vive confuso. É claro que não quer pensar nisso. E decerto, se me ouvisse falar, diria que sou louco; que quero julgar sem poder porque nunca tive profissão e nunca trabalhei como os europeus.

Mas o Papalagui nunca conseguiu nos fazer compreender por que havemos de trabalhar mais do que Deus exige para que possamos comer à vontade, cobrir a cabeça com um teto, nos divertirmos com as festas da aldeia. Talvez este trabalho lhe pareça pouco, e pobre a nossa existência sem profissões. Mas o homem justo, o irmão das nossas muitas ilhas faz o seu trabalho com alegria, jamais com desgosto. Para ele, se não for assim é melhor nada fazer. E aí é que somos diferentes dos Brancos. O Papalagui suspira quando fala no seu trabalho, como se uma carga o sufocasse; mas é cantando que os jovens samoanos vão para os campos de taro; cantando, as moças lavam as tangas nas correntezas do riacho. O Grande Espírito não quer, certamente, que fiquemos cinzentos por causa das profissões, nem que nos arrastemos feito as tartarugas e os pequenos animais rasteiros da lagoa. Ele deseja que continuemos orgulhosos e tesos em tudo quanto fazemos; que não percamos a alegria de nossos olhos nem a agilidade dos nossos membros.
*

Notas:

1  Tussi  =  carta. Tussi-Tussi = aquele que escreve cartas.
2  Porco

* * *
IX
Do lugar onde a vida é de
mentira e dos muitos papéis

Amados irmãos do vasto mar, muito teria o vosso  humilde servo a vos contar para conhecerdesa verdade sobre a Europa. Para tanto, minha fala precisaria ser tal qual a cachoeira que corre da manhã à noite e, mesmo assim, não seria possível contar tudo pois a vida do Papalagui assemelha-se à vida do mar cujo princípio e fim jamais se pode ver com exatidão. A vida do Papalagui tem tantas ondas quanto o mar, a grande água, e pode ser tempestuosa, movimentada, sorridente, sonhadora. Tal qual homem algum conseguiria retirar a água do mar com o oco da mão, também não me é possível trazer-vos o grande mar que é a Europa com a pequenez do meu espírito. 

Mas não quero deixar de vos contar, pelo menos, que assim como o mar não existe sem água, assim não pode haver vida na Europa sem a vida de mentira e sem os muitos papéis. Se alguém tirar uma coisa ou a outra do Papalagui, ele ficará como o peixe lançado à praia pela ressaca, o peixe que consegue apenas bater os membros, sem nadar, no entanto, sem se mexer conforme gosta.

O lugar da vida de mentira! Não é fácil explicar-vos como é este lugar que o Branco chama cinema; explicarmos tão claramente que vos seja fácil compreender. Em todas as aldeias da Europa, existe este lugar misterioso, mais procurado do que a casa do missionário; que faz sonhar até as crianças e ocupa o seu espírito.

O cinema é uma cabana maior do que a maior cabana de chefe de Upolu; muitor maior até. Escura, mesmo durante o dia, e tão escura que ninguém reconhece quem está perto; tão escura que se fica cego quando se entra e mais cego ainda quando de novo se sai. Por esta cabana as pessoas arrastam-se ao longo das paredes, às apalpadelas até vir uma moça com um fogo na mão a fim de levá-los até onde há lugar. Os Papalaguis ficam sentados uns junto dos outros, na escuridão, sem se enxergarem; e a sala escura fica cheia de gente, todos calados; cada um sentado numa tábua estreita; e todas as tábuas estão dispostas na direção de uma mesma parede.

Desta parede, embaixo, digamos assim, de uma garganta profunda, vem um zumbido, um barulho; e assim que os olhos se acostumam à escuridão, vê-se um Papalagui que, sentado, luta com um baú, batendo nele com os dedos abertos, batendo numas linguetas brancas e pretas, muitas linguetas, que o grande baú vai apresentando; e cada lingueta range alto, com vozes diferentes cada vez que é tocada, de tal forma que produz guinchos selvagens, desordenados, tal qual uma briga na aldeia.

Este barulho todo é para desviar os nossos sentidos, para enfraquecê-los, a fim de acreditarmos no que estamos vendo e não duvidarmos de que é verdade. Na parede brilha um raio de luz, dando a impressão de uma lua cheia, onde se vêem pessoas, pessoas de verdade, que parecem Papalaguis de verdade, vestidos como eles, movendo-se, andando para cá e para lá, correndo, rindo, saltando, tal qual existem em todos os lugares da Europa. É como se fosse a imagem da lua na lagoa, é a lua e não é; é apenas cópia. Todos mexem com a boca, não há dúvida de que falam, mas não se ouve nada, som algum, palavra alguma, por mais que se preste atenção, por mais que se fique nervoso por não escutar nada. Daí por que aquele Papalagui bate no baú: é para dar a impressão de que é por causa de seu barulho que “não se escuta o que as pessoas falam; e é por isto que, de vez em quando, aparecem uns escritos na parede, explicando o que os Papalaguis disseram ou vão dizer.

Mas é certo que estes homens na parede são homens de mentira, não são homens de verdade. Se se pudesse agarrá-los, ver-se-ia que são feitos apenas de luz, que não é possível pegar neles. Servem somente para mostrar ao Papalagui todos os seus prazeres e pesares, suas tolices e fraquezas. O Papalagui vê as mais bonitas mulheres, os mais belos homens perto de si, pertinho mesmo. São mudos, mas o Papalagui vê seus olhos brilhantes e seus movimentos; dão a impressão de que nos vêem, de que nos falam. O Papalagui, assim, vê os chefes mais importantes dos quais jamais se aproximará, sem dificuldade, como se fosse um igual. Participa dos grandes banquetes, fonos, e outras festas. Parece que ele está mesmo ali, comendo junto, festejando junto. Mas também vê o Papalagui roubando a moça de uma outra aiga; ou uma moça traindo o namorado. Ele vê um homem furioso agarrando um álii rico pela garganta, enterrando-lhe os dedos no pescoço; ele vê os olhos do álii saltando até morrer, o homem furioso arrancando-lhe da tanga o metal redondo e o papel pesado.

Enquanto seus olhos vêem estas coisas alegres ou horríveis, o Papalagui deve ficar quietinho, sem poder ralhar com a moça, nem socorrer o álii rico, sem poder salvá-lo. Não sente, no entanto, dor alguma, não sofre nada, olha para tudo isso muito contente, como se não tivesse coração. Não sente medo, nem repugnância, mas observa tudo como se fosse, ele próprio, um ser de outra espécie, porque está sempre convencido de que é melhor do que os homens que ele vê no raio de luz, convencido de que nunca faria as loucuras que o outro faz. Quieto, sem tomar fôlego, fica com os olhos na parede. Quando vê um homem forte, nobre, fixa essa imagem e pensa consigo: “Eu sou assim!”. Absolutamente imóvel no seu assento de madeira, olha para a parede abrupta, Usa, na qual só existe uma luz enganadora que um feiticeiro joga através de uma fenda estreita da parede do fundo; nesta luz, a vida é de mentira.
Estas imagens sem vida, que não respiram, dão ao Papalagui muito contentamento. Nesta sala escura, ele pode se iludir com uma vida de mentira, sem sentir vergonha, sem ser visto pelos outros. O pobre faz-se de rico, o rico faz-se de pobre; o enfermo julga-se sadio, o fraco julga-se forte. Na escuridão, cada um vive uma vida de mentira, que jamais viveu, nem viverá na realidade.

Entregar-se a esta vida de mentira tornou-se uma verdadeira paixão para o Papalagui. Tão grande, às vezes, que o faz esquecer de sua vida de verdade. É doentia esta paixão porque o homem saudável não vive a vida de mentira numa sala escura; vive a vida real, com calor, ao sol claro. O que acontece, por causa desta paixão, é que muitos Papalaguis, quando saem do lugar onde a vida é de mentira, já não podem distingui-la da vida de verdade e enlouquecem. Julgam-se ricos quando são pobres, ou bonitos quando são feios; ou praticam ações más, que seriam incapazes de praticar na vida de verdade; mas praticam-nas porque já não sabem diferençar o que é de verdade e o que é de mentira. É tal qual o estado que todos vós já vistes nos europeus, quando bebem kava demais e ficam pensando que caminham pelas ondas.
Também os muitos papéis produzem uma espécie de embriaguez, de delírio no Papalagui. Que história é esta dos muitos papéis? Imaginai uma esteira de tapa, fina, branca, dobrada, dividida e outra vez dobrada, com todos os lados cobertos com inscrições miudinhas: estes são os muitos papéis que os Papalaguis chamam de jornais.

E nestes papéis que está inscrito o grande saber do Papalagui que tem, pela manhã e à noite, de meter a cabeça neles a fim de alimentá-la, fartá-la, para pensar melhor, para ser mais rico em idéias; tal qual o cavalo que, para correr melhor, precisa comer bananas em quantidade, precisa encher a barriga com regularidade. O álii ainda está deitado na sua esteira quando uns mensageiros correm pelo país, distribuindo os muitos papéis. É a primeira coisa que o Papalagui pega assim que acorda. E lê, quer dizer, prega os olhos naquilo que os muitos papéis contam; e todos os Papalaguis fazem o mesmo: lêem, lêem o que os chefes mais importantes, ou seus porta-vozes disseram nos seus fonos; e isso está marcado direitinho na tal esteira, no tal papel, mesmo que sejam só bobagens. Até as tangas com que estavam vestidos está dito; até o que tal ou tal álii comeu, o nome do seu cavalo; até se ele próprio está com elefantíase, ou se está com a mente fraca.

Para dar uma idéia do que seriam esses papéis em nossa terra, imaginai que eles diriam o seguinte: “O pule nuu*de Matautu, hoje de manhã, depois de dormir bem, primeiro comeu um resto de taro de ontem, depois foi pescar, voltou para a cabana ao meio-dia, deitou-se na esteira, leu a Bíblia e cantou até a noite. A mulher dele, Sina, primeiro deu de mamar ao neném, depois foi tomar banho e achou, de volta, uma bela flor de pua que pôs no cabelo para enfeitar-se; depois voltou para a cabana.” E assim por diante.

Tudo quanto acontece, o que a gente faz e não faz, tudo está escrito ali: os pensamentos bons e maus, o fato de alguém ter matado uma galinha ou um porco ou de ter construído uma canoa nova. Coisa alguma acontece no país inteiro que não se conte fielmente. Isso é que o Papalagui chama “estar informado de tudo”. O Papalagui quer estar informado de tudo que acontece no país, do despontar de um dia ao despontar de outro. E fica com raiva quando alguma coisa lhe escapa, porque está sempre ávido de meter tudo para dentro de si mesmo, aqueles horrores, aquilo tudo que um homem de mente sadia trataria de esquecer o quanto antes, tem de ser comunicado a todos e, aliás, é justamente o que é ruim, o que entristece, que se comunica com mais minúcias do que aquilo que é bom; como se contar o que é bom não fosse muito mais importante e mais alegre do que contar o que é ruim.

Quem lê o jornal não precisa ir a Apolima, Manono, Saváii para saber o que os amigos fazem, pensam, comemoram. Pode-se ficar deitado, calmamente, na esteira que os muitos papéis contam tudo. É muito bonito, muito agradável, ao que parece, mas é ilusão, porque se dois irmãos se encontram, se cada um deles já meteu a cabeça nos muitos papéis, nenhum dos dois terá novidades ou curiosidades a contar! Cada um dos dois traz na cabeça as mesmas coisas; os dois ficam calados ou apenas repetem entre si o que os papéis disseram. Entretanto, sempre é mais interessante ter alguma coisa, uma alegria ou uma tristeza a comemorar ou a lamentar em comum, do que apenas ouvir contá-la por uma boca estranha que nada viu com os próprios olhos.

Mas não é só isto que faz do jornal uma coisa tão ruim para a nossa mente, quando nos conta o que aconteceu; é que ele também nos diz o que devemos pensar a respeito disso e daquilo, a respeito do nosso chefe, dos chefes de outros países, de tudo quanto ocorre, de tudo que a gente faz. O jornal gostaria de fazer que todos os homens pensassem igual; o jornal é inimigo da minha cabeça, é inimigo do que eu penso. Exige que todo homem lhe dé a cabeça, os pensamentos; e consegue. Se tiveres lido os muitos papéis de manhã, saberás ao meio-dia o que cada Papalagui tem na cabeça, o que pensa.

O jornal é também uma espécie de máquina que fabrica, todos os dias, idéias novas, muito mais idéias novas do que a cabeça de um só homem pode fabricar. Acontece, no entanto, que a maior parte das idéias são fracas, não têm dignidade, nem força, enchem nossa cabeça de muito alimento, mas não a fortalecem; é a mesma coisa que enchê-la de areia. O Papalagui entope a cabeça com este inútil alimento de papel: antes de digerir uma idéia, já está absorvendo outra nova. A mente do Papalagui é tal qual o pântano que sufoca no seu próprio limo, onde já não cresce nenhum verdor, nenhum fruto; onde só se elevam miasmas nocivos e nuvens de insetos que picam. O lugar em que a vida é de mentira, junto com os muitos papéis, fizeram do Papalagui o que ele é: um homem fraco, confuso, que gosta do que não é real e que já não sabe reconhecer aquilo que é real; que toma a imagem da lua pela própria lua, que vê numa esteira escrita a própria vida.

* O juiz 

* * *
X
A grave doença que
é pensar sem parar


Quando a palavra “espírito” vem à boca do Papalagui, seus olhos ficam grandes, redondos, fixos; o peito alteia-se, a respiração torna-se mais profunda, a atitude é a do guerreiro que abateu o inimigo. Pois este “espírito” é coisa de que o Papalagui tem orgulho especial. Não se trata do grande, do poderoso espírito que o “missionário chama “Deus”, do qual todos somos imagens mesquinhas, mas do pequeno espírito que acompanha o homem, que faz o homem pensar. 

Quando olho daqui a mangueira que está atrás da igreja do missionário, não é espírito porque apenas a vejo. Mas se reconheço que é mais alta do que a igreja, é espírito. Quer dizer, não basta apenas ver uma coisa, é preciso também tirar daí algum saber, saber alguma coisa. É este saber que o Papalagui exerce da manhã à noite. O espírito do Papalagui é como um tubo de fogo carregado, uma vara de pescar atirada à água. Ele tem pena de nós, povos das muitas ilhas, porque não exercemos este saber. Ele acha que somos pobres de espíritos, estúpidos como os bichos selvagens.

É certo, sim, que exercemos pouco o saber que o Papalagui chama “pensar”. Mas a questão é saber se é estúpido quem não pensa muito, ou quem pensa demais. O Papalagui está sempre pensando: “Minha cabana é menor que a palmeira; a palmeira dobra-se à tempestade; a tempestade ruge”. É assim que ele pensa, à sua maneira, naturalmente. Mas também pensa a respeito de si mesmo: “Sou baixo; meu coração alegra-se sempre que vejo uma moça; gosto muito de sair em malaga (1)“. E assim por diante. 

Bem, isto é alegre, é bom, talvez tenha alguma utilidade pessoal para quem gosta desta brincadeira interior. Mas o Papalagui pensa tanto que para ele pensar se tornou costume, necessidade, até obrigação, coação. Tem de estar sempre pensando. É difícil para ele não pensar, é difícil viver com todas as partes do corpo ao mesmo tempo. E comum ele viver só com a cabeça enquanto todos os sentidos dormem profundamente. Embora isso não o impeça de andar normalmente, de falar, comer, rir, ele fica preso em seus pensamentos: esses são os frutos da reflexão. Há uma espécie de embriaguez nos seus próprios pensamentos.

Por exemplo, quando o belo sol brilha, o Papalagui pensa imediatamente: “Como o sol está brilhando agora, que beleza!” E continua pensando, pensando: “Como o sol está brilhando, como está bonito!” Isto está errado, inteiramente errado, absurdo, porque o melhor é não pensar em nada quando o sol brilha. O samoano inteligente estira os membros à luz quente do sol e não pensa em nada. Ele recebe o sol tanto com a cabeça quanto com as mãos, os pés, as coxas, a barriga, todas as partes do corpo. Ele deixa que a pele e os membros pensem por si; e certamente eles também pensam de uma forma diferente da cabeça. Mas para o Papalagui o pensamento está sempre no meio do caminho, tal qual um grande bloco de lava que ele não desloca. Pensa em coisas alegres, é certo, mas sem sorrir; pensa certamente em coisas tristes, mas sem chorar. Sente fome, mas não pega no taro, nem no palusami(2). O Papalagui quase sempre vive um combate perpétuo entre seus sentidos e seu espírito; ele é um homem dividido em dois pedaços. 

A vida do Papalagui é, por muitas formas, semelhante à de um homem que vai de canoa para Saváii e que, mal se afasta da praia, pensa: “Quanto tempo vou levar para chegar a Saváii?” Pensa mas não vê a paisagem agradável que tem diante dos olhos. Se aparece na margem esquerda, uma serra, os olhos do Papalagui assim que a vêem, dela não se afastam: “Que é que haverá atrás desta montanha? Talvez uma enseada profunda, talvez uma enseada estreita?” Entregue a estes pensamentos, esquece-se de cantar as cantigas do mar que os jovens cantam; nem ouve as brincadeiras divertidas das moças. Assim que a enseada e a serra ficam para trás, outro pensamento o atormenta: “Será que Vai cair um temporal antes de anoitecer? Será?” O Papalagui procura, então, no céu nuvens sombrias. Só pensa no temporal que pode cair; que não cai e a Saváii ele chega sem dificuldade. Mas é como se não tivesse viajado, porque as idéias estiveram, a todo momento, separadas do corpo, fora da canoa. Teria sido o mesmo ficar em casa, em Upolu.

Um espírito que nos atormenta desta forma é um aitu; e não compreendo por que hei de amá-la. O Papalagui ama, honra o seu espírito e o alimenta com idéias da sua cabeça. Não o deixa sem alimento, e não sofre com o fato de que as idéias se devoram umas às outras. O Papalagui fala muito nos pensamentos que tem, deixa que façam tanto barulho quanto crianças malcriadas. Porta-se como se as idéias fossem tão preciosas quanto as flores, os montes, os bosques. Fala tanto nos pensamentos como se não tivesse importância alguma a bravura de um homem, o contentamento de uma moça. Ele se comporta como se houvesse um mandamento, um mandamento divino que ordenasse aos homens pensar muito. Se as palmeiras e os montes pensam, nem por isto fazem barulho; e certamente se pensassem tão alto e tão selvagemente quanto o Papalagui, as palmeiras não teriam lindas folhas verdes, nem frutos dourados (pois todos sabemos que pensar envelhece e enfeia depressa). E os frutos cairiam antes de amadurecer. Mas o que é provável é que pensem muito pouco.

Além disto, existem muitas formas, muitas maneiras de pensar e existem muitos alvos para a flecha do pensamento. Triste sorte a daquele que pensa no que está longe. “Como será a aurora do dia de amanhã? Que é que o Grande Espírito pensa fazer de mim quando eu for para o Saléfé’é (3)? Onde é que eu estava antes de os enviados do Tageloa (4) me darem uma alma?” É tão inútil pensar nisso quanto querer ver o sol de olhos fechados. Não adianta, nem é possível pensar no que está longe, pensar em como foi o começo. Aqueles que tentam, ficam parados no mesmo lugar, da mocidade à velhice, tal qual o martim-pescador, sem ver o vasto mar, a moça bonita, sem alegria, sem coisa alguma, sem coisa alguma mesmo. Nem a kava lhes sabe bem e, quando dançam na praça da aldeia, olham para o chão. Não vivem, embora não estejam mortos. Atacou-os a doença grave que é pensar sem parar. 

Na Europa se diz que pensar assim torna grande e alto o espírito. Quando alguém pensa muito e pensa depressa, diz-se, na Europa, que é uma grande cabeça. Em vez de despertar pena, essas cabeças são muito honradas. As aldeias as transformam em chefes. Quando uma grande cabeça vai a uma aldeia, sente-se obrigada a comunicar seus pensamentos às pessoas que se sentem, então, muito alegres, deleitadas. Se morre uma grande cabeça, o país inteiro põe luto, chora-se muito o que se perdeu. Talha-se na pedra uma imagem da grande cabeça que morreu para se mostrar a todos na praça do mercado. Esta cabeça de pedra é muito maior do que era em vida para que o povo possa admirá-la bem e possa refletir na sua própria cabeça, tão pequena.

Se se perguntar a um Papalagui porque ele pensa tanto, responderá: “Porque não quero ser tolo.” É valea (5) todo Papalagui que não pensa, se bem que, na verdade, é bem um sinal de inteligência quem sabe encontrar seu caminhar sem pensar muito. 

Mas creio que isso não passa de pretexto e que certo impulso mau persegue o Papalagui: o que ele deseja, realmente, quando pensa, é atingir os poderes secretos do Grande Espírito. Ele próprio dá um bonito nome a esse desejo: “conhecer”. Conhecer quer dizer ter uma coisa tão perto dos olhos que se pode nela tocar com o nariz, e até atravessá-la, penetrá-la. Esta procura, este desejo de penetrar tudo é uma ansiedade impertinente, desprezível. Ele pega uma escalopendra, atravessa-a com um pequeno dardo, arranca-lhe uma perna e quer ver que aparência tem essa perna separada do corpo; de que forma está a este presa; depois quebra a perna do animal para ver sua grossura. Para ele, isto é importante, é essencial. Arranca da perna uma lasca do tamanho de um grão de areia e coloca-a em baixo de um tubo comprido, dotado de certa força misteriosa, que aguça muito a visão. Com este olho grande e forte, o Papalagui vê tudo, tuas lágrimas, uma tirinha da tua pele, um cabelo, tudo, mas tudo mesmo. Ele parte todas estas coisas até o ponto de não haver mais o que quebrar nem partir. Este ponto é quase sempre o mais minúsculo possível, mas é também quase sempre o mais importante porque é por ele que se chega ao mais alto conhecimento, que só o Grande Espírito possui.
Mas aí chegar não é dado ao Papalagui e nem a força mágica dos seus olhos mais penetrantes jamais conseguiram pois o Grande Espírito não deixa que lhe tomem os segredos. Nunca.

Quem jamais conseguiu trepar mais alto do que o topo da palmeira a que as pernas
se agarram? Chegando ao topo, tem-se de descer novamente, pois não há mais tronco por onde subir. O Grande Espírito também não gosta da curiosidade dos homens e foi por isto que atou fortes cipós por cima das coisas, de todas elas, sem princípio nem fim; eis porque todo aquele que está sempre desdobrando e desdobrando o seu pensamento é obrigado a reconhecer que continua ignorante e a deixar ao Grande Espírito as respostas impossíveis de descobrir. Se bem, no entanto, que os Papalaguis mais inteligentes e corajosos o reconheçam, existem alguns, doentes de tanto pensar, que não cedem em sua paixão de querer saber e daí resulta que, de tanto pensar, se desorientam de mil maneiras, tal qual penetrassem numa floresta virgem sem trilhas por onde caminhar. Extraviam-se e chega um momento em que a inteligência deles não consegue mais, de repente, conforme já tem de fato acontecido, distinguir entre homens e animais; e acabam afirmando que os homens são animais e que os animais são gente.

Daí porque é particularmente ruim, é nefasto que todos os pensamentos, bons e maus, sejam logo inscritos em umas esteiras finas, brancas. Então, diz o Papalagui que “estão impressos”, quer dizer, o que aqueles doentes pensam é escrito por uma máquina, muitíssimo estranha, esquisita, que tem mil mãos e que encerra a vontade poderosa de muitos grandes chefes. E não é uma vez só, nem duas, mas muitas vezes, vezes infindáveis, que ela escreve sempre os mesmos pensamentos. Depois, comprimem-se muitas esteiras de pensamentos em pacotinhos, chamados “livros” que são enviados para todas as partes do país. Todos que absorvem estes pensamentos, num instante contaminam-se. Eles engolem estas esteiras como se fossem bananas doces. Levam estes livros para casa, amontoam-nos, enchem com eles baús inteiros. E todos, moços e velhos, roem-nos feito ratos que roem a cana-de-açúcar. E por isto que existem tão poucos Papalaguis capazes ainda de pensar com sensatez, de ter idéias naturais, como são as de qualquer samoano ajuizado.

Da mesma forma metem-se na cabeça das crianças tantos pensamentos quanto se pode, obrigando-as, todos os dias, a roer certa quantidade de esteiras com pensamentos. Só as mais sadias repelem esses pensamentos ou deixam que lhes passem pelo espírito como se fosse uma rede. A maior parte, no entanto, sobrecarrega-se com tantos pensamentos que já espaço não resta para que a luz penetre. É o que se chama “formar o espírito”. O que sobra de tamanha confusão é o que chamam “instrução”. A “instrução” se espalha por toda a parte.
“Instrução” quer dizer: encher a cabeça de saber até as bordas. Quem tem instrução sabe a altura da palmeira, o peso do coqueiro, o nome de todos os seus grandes chefes, e quando é que guerrearam. Sabe de que tamanho é a lua, as estrelas, e todos os países do mundo.

Conhece todos os rios pelo nome, todos os animais, todas as plantas. Sabe tudo, tudo mesmo. Se fizeres qualquer pergunta a um homem que tenha instrução, ele te dispara a resposta antes de fechares a boca. A cabeça dele está sempre carregada de munição, sempre pronta para disparar. Não há europeu que não dê os mais belos momentos da sua vida ao trabalho de transformar a cabeça no tubo de fogo mais rápido possível. Mesmo quem tenta escapar, é obrigado a se instruir porque todo Papalagui tem que saber e tem que pensar.
A única coisa capaz de curar os doentes de tanto pensar seria esquecer e expulsar os pensamentos. Mas eles não farem isso ou só pouquíssimos; a maior parte leva na cabeça um fardo, um fardo que fatiga o corpo, tira as forças, envelhece antes do tempo.

Amados irmãos que não pensam: depois de tudo quanto vos disse devemos, realmente, querer imitar o Papalagui e aprender a pensar como ele pensa? Não, eu digo. Não devemos, nem podemos fazer coisa alguma que não nos torne mais fortes de corpo, mais alegres e melhores de espírito. Precisamos, e isto é o mais importante, evitar tudo quanto nos prive da alegria de viver, de tudo que nos obscureça o espírito, lhe tire a luz clara, e faça a cabeça brigar com o corpo. O Papalagui, por sua maneira de viver, nos prova que pensar sem parar é doença grave que muito diminui o valor do homem.

*

Notas:
1 Inferno dos samoanos.
2 O deus mais poderoso da lenda.
3 Viajar
4 Prato predileto dos samoanos.
5 Tolo
* * *
XI
O Papalagui quer nos arrastar
para a escuridão em que vive


Irmãos amados, tempo houve em que vivíamos na escuridão e nenhum de nós conhecia a luz radiante do Evangelho; vagávamos como crianças que não conseguem encontrar a sua cabana; o nosso coração nao sabia de nenhum grande amor; eram surdos ainda os nossos ouvidos à palavra de Deus. 

O Papalagui trouxe-nos a luz; veio a nós para nos libertar da escuridão em que vivíamos. Por isto o honramos; porque foi portador da luz, porque foi porta-voz do Grande Espírito que os Brancos chamam Deus. Reconhecemos o Papalagui e o consideramos como irmão; não lhe fechamos as portas da nossa terra, mas com ele dividimos, filhos de um só Pai, todos os frutos e todos os alimentos, na maior franqueza.

O homem branco não se esquivou de nenhum esforço para nos trazer o Evangelho; sequer quando, crianças teimosas, resistíamos ao que nos ensinava. Por estes esforços, por tudo isto que por nós sofreu, havemos de ser-lhes gratos; e por todos os tempos o festejaremos, o honraremos porque nos trouxe a luz.

O missionário do Papalagui foi o primeiro que nos ensinou o que é Deus e nos desviou dos nossos antigos deuses, que chamou de falsos ídolos porque não tinham dentro de si o verdadeiro Deus. Foi por isto que deixamos de adorar as estrelas da noite, o poder do fogo e do vento, e nos voltamos para o seu Deus, o grande senhor do céu.

O primeiro bem que Deus nos fez foi o seguinte: com a ajuda do Papalagui nos tomou todos os tubos de fogo, todas as armas, a fim de que vivêssemos em paz uns com os outros, como bons cristãos. Sabeis que Deus nos manda amar uns aos outros e não matar, e este é o mais importante dos seus mandamentos. Jogamos fora as nossas armas e, desde aí, não há mais guerra a devastar as nossas ilhas e todos se amam como irmãos. Aprendemos que as ordens de Deus são boas porque hoje todas as aldeias vivem em paz, aldeias onde, antigamente, só havia agitação e susto incessante. Não é ainda em todos dentre nós que Deus reside, não são todos dentre nós que o têm no coração, mas todos lhe somos gratos porque nos tornamos maiores e mais fortes desde que adoramos em Deus, o Grande, o Maior chefe da tribo, o Senhor do céu e da terra. Reverentes, agradecidos, ouvimos as suas palavras sensatas e majestosas que fazem cada vez maior o nosso amor, este amor que cada vez mais nos enche com o seu Grande Espírito.

Disse eu que o Papalagui nos trouxe a luz, a luz magnífica que flamejou em nossos corações, que encheu de alegria e gratidão os nossos sentidos. O Papalagui recebeu a luz antes de nós; já a recebia quando os mais velhos dentre nós ainda não eram nascidos. Mas ele só tem a luz na mão que estende para iluminar os outros; ele próprio vive na treva; tem o coração longe de Deus, embora o chame com a boca, porque a luz é só nas mãos que a tem.

Não há para mim nada mais triste, coisa alguma me enche mais de luto o coração, ó amados irmãos das muitas ilhas, do que ter que vos dizer isso. Mas não podemos, não devemos nos enganar a respeito do Papalagui para não sermos por ele arrastados à treva em que vive. O Papalagui nos trouxe a palavra divina, mas ele próprio não compreende a palavra nem o ensinamento de Deus. Compreende-as com a boca, com a cabeça, mas não com o corpo. Não o penetrou a luz de tal forma que irradie e, onde quer que vá, tudo ilumine a partir do seu coração; esta luz que também se chama amor.

Nem ele percebe mais, realmente, que as suas palavras e os seus atos se contradizem. Mas é o que já se vê pela sua incapacidade de pronunciar com o coração a palavra “Deus”. Quando a pronuncia, torce o rosto, como se estivesse cansado, como se a palavra nada significasse. Todos os Brancos chamam-se filhos de Deus; e gostam que isso seja confirmado pelos escritos de certos senhores do seu mundo. Mas Deus lhes é estranho, ainda que todos hajam recebido o ensinamento certo, ainda que todos saibam de Deus. Nem aqueles que têm o encargo de falar de Deus nas grandes cabanas que constróem em sua honra, nem estes têm Deus no coração; o que dizem o vento carrega, o que dizem cai no vazio. Os que falam em nome de Deus não o têm nas suas falas; e falam feito as ondas que batem nos recifes; já ninguém os ouve, mesmo quando rugem, e rugem sem cessar.

Posso dizer isso sem que Deus se encolerize. Nós, filhos da ilhas, não éramos piores, quando adorávamos as estrelas e o fogo, do que é, hoje, o Papalagui. Éramos maus, sim, vivíamos no escuro, porque não conhecíamos a luz. 0 Papalagui, no entanto, conhece a luz, mas vive na escuridão, e é mau. O que há de pior é que se chama de filho de Deus e cristão; e quer nos fazer acreditar que é o fogo porque tem uma chama nas mãos.
É raro o Papalagui pensar em Deus. E só quando a tempestade o apanha, quando a chama da sua vida quer se apagar, é que ele pensa na existência de forças acima de si, de senhores mais fortes do que ele. De dia não se preocupa com Deus, afasta-o dos seus estranhos gozos, das suas estranhas alegrias. Sabe que não agradam a Deus, e sabe também que, se a luz de Deus realmente brilhasse nele, teria de jogar-se na areia de vergonha. É só ódio, é só avidez, é só hostilidade que o enchem. O coração do Papalagui é como um grande gancho pontudo, gancho que só serve para roubar, que não é luz, luz que dissipa a treva que tudo aclara e aquece.

Cristão chama-se a si mesmo o Papalagui, nome que é tão belo quanto o mais belo dos cantos. Cristão! Possamos nós chamar-nos cristãos por todos os tempos. Ser cristão quer dizer: amar a Deus poderoso e amar ao seu irmão, e só depois amar a si mesmo. E amar quer dizer fazer o bem; o amor tem de estar em nós tal qual o nosso sangue, ser uma só coisa com o coração e a mão. Mas o Papalagui tem as palavras cristão, amor, Deus só na boca. Bate-as com a língua, faz muito barulho, mas nem o seu coração, nem o seu amor inclinam-se ante Deus; inclinam-se apenas ante as coisas, ante o metal redondo e o papel pesado; ante as idéias de prazer, ante as máquinas. Não é a luz que o alimenta, mas é a avidez selvagem do tempo, é a insensatez da profissão. Ele irá dez vezes mais ao lugar onde a vida é de mentira do que à procura de Deus, que está longe, longe.
Irmãos amados, o Papalagui tem, hoje em dia, mais ídolos do que jamais tivemos noutros tempos, se ídolo é algo que, além de Deus, se adora e se venera, que se tem no coração como o que há de mais digno de amor. Deus não é o que vive no melhor lugar dentro do coração do Papalagui. E é por isto que ele não faz a sua vontade, e sim a vontade do aitu. Penso e digo: o Papalagui trouxe-nos o Evangelho como se fosse uma espécie de mercadoria, a fim de carregar em troca os nossos frutos e a parte maior e mais bela da nossa terra. Considero-o bem capaz disso porque vi muita sujeira, muito pecado no coração do Papalagui; e sei que Deus mais nos ama do que a ele, ele que nos chama selvagens, quer dizer, iguais aos que têm dentes de feras e que não têm coração.

Mas Deus faz cair a cegueira dos olhos destes selvagens, faz que eles vejam como são os Papalaguis. Deus disse ao Papalagui: “Sê o que quiseres, não te dou mais mandamento algum.” O Branco, então, mostrou o que é. Ó vergonha! Ó horror! Com uma voz orgulhosa nos tirou as armas e falou o que Deus fala: “Amai-vos uns aos outros!” E daí? Ó irmãos, sabeis da notícia espantosa das coisas que acontecem contra o amor, contra Deus, contra a luz: a Europa se devora. Os Papalaguis se tornaram loucos furiosos. Eles se matam. O sangue, o pavor, a destruição reinam. O Papalagui confessa, afinal, que não tem Deus dentro de si. A luz que tem na mão está para apagar-se. Os seus caminhos estão escuros, mais não se ouve do que o terrível bater das asas dos cães que voam e o grito das corujas.

Irmãos, enche-me o amor por Deus, o amor por vós e é por isto que Deus me deu voz para vos dizer tudo que eu vos disse: para guardarmos nossa força interior, para não nos deixarmos seduzir pela voz do Papalagui, que fala depressa e astutamente. Quando ele vier nos procurar, levantemos nossos braços e brademos: “Cala-te, cala a tua voz ruidosa; tuas palavras são para nós o barulho da ressaca, o silvo do vento nas palmeiras, enquanto não for alegre o teu rosto, e saudável; enquanto teus olhos forem vazios; enquanto a imagem de Deus de ti não irradie como o sol”.

Juremos também que haveremos de lhe dizer: “Afasta-te de nós com teus prazeres e teus gozos, com tua avidez selvagem de riquezas que juntas nas mãos e na cabeça, com tua ânsia de ser mais do que o teu irmão, com tua atividade demasiada e insensata, com a obra desatinada das tuas mãos; com teu pensamento e teu saber que procuram e, entretanto, nada sabem; com todas as tuas loucuras que te impedem de dormir tranqüilo na esteira e te inquietam. Não precisamos de nada disto; contentamo-nos com as alegrias nobres e
belas que Deus nos dá em quantidade”. Que Deus nos ajude, nao deixando que a sua luz nos cegue e nos leve ao erro; que nos mostre, sim o caminho, conduzindo-nos à claridade magnífica e com ela nos inunde para que amemos uns aos outros e tenhamos pleno de talofas o coração.

* * *

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O Papalagui


Comentários de Tuiávii, chefe da tribo
Tiavéia nos mares do sul,
recolhidos por Erich Scheurmann

IV
As coisas em quantidade
empobrecem o
 Papalagui 

Reconhecereis também o Papalagui por seu desejo de nos convencer de que somos pobres, miseráveis e precisamos de muita ajuda e compaixão porque não temos as “coisas”. Vou contar-vos, amados irmãos das muitas ilhas, o que é uma coisa. O coco é uma coisa; o apanha-moscas, a tanga, a concha, o anel, o prato que se come, o enfeite que se põe na cabeça, tudo isso são coisas. Mas há duas espécies de coisas. Há coisas que o Grande Espírito é que faz, sem ninguém, que não custam esforço nem trabalho algum, como o coco, a concha e a banana. E há coisas que são os homens que fazem, que custam muito trabalho e esforço: o anel, o prato, o apanha-moscas.

O álii, então, acha que nos faltam as coisas que ele próprio faz com as mãos, as coisas dos homens, pois nas coisas do Grande Espírito ele não pensa. Ora, quem é mais rico, quem mais do que nós tem as coisas do Grande Espírito? Olhai em volta, olhai longe, longe, até onde a borda da terra sustenta a abóbada azul. Tudo está cheio de grandes coisas: a floresta virgem com seus pombos selvagens, os colibris e papagaios, a lagoa com suas holotúrias, conchas, lagostas, e outros bichos aquáticos, a praia com seu claro semblante e a pele macia da areia, a grande água, capaz de enfurecer-se como um guerreiro e sorrir como uma taopu; a imensa abóbada azul, que a toda hora se transforma, carregada de grandes flores que nos dão luz dourada e prateada. Por que é que havemos de ser loucos a ponto de querer mais coisas além das belas coisas do Grande Espírito?

Jamais poderemos criar como ele cria porque o nosso espírito é por demais pequeno e fraco em comparação com o poder do Grande Espírito. A nossa mão é fraca demais comparada com a sua grande e poderosa mão. Tudo quanto fizermos será medíocre; nem vale a pena falar disso. Podemos alongar com um pau o nosso braço, aumentar o oco da nossa mão com uma tanoa (1). mas não há Samoano nem Papalagui capaz de fazer uma palmeira nem o tronco de uma kava.

O Papalagui acredita, decerto, que pode fazer coisas assim porque se julga tão forte quanto o Grande Espírito. É por isto que milhares e milhares de mãos, da manhã à noite, não fazem mais do que fabricar coisas: coisas humanas que não sabemos para que servem e cuja beleza não percebemos. E o Papalagui está sempre procurando inventar mais coisas novas. Com as mãos febris, o rosto cor de cinza, as costas curvas, seu olhar se ilumina de alegria quando consegue fazer uma coisa nova. E todos logo querem ter a nova coisa; adoram-na, contemplam-na, cantam-na em sua língua.

Ó irmãos, acreditai no que vos digo: ocultei-me atrás dos pensamentos do Papalagui e vi o que ele quer, como se o iluminasse o sol do meio-dia. Destruindo, onde quer que vá as coisas do Grande Espírito, o Papalagui com sua própria força pretende dar vida, novamente, àquilo que matou, convencendo-se assim de que é o Grande Espírito porque faz muitas coisas.

Irmãos, imaginai que de repente venha a grande tempestade, arrancando a floresta virgem com as suas montanhas, com toda a folhagem e todas as árvores, levando todos os animais da lagoa, não deixando sequer uma flor de hibisco para que nossas moças enfeitem seus cabelos. Que tudo quanto vemos desapareça, mais nada reste além da areia: que a terra fique parecendo uma mão chata, estendida, ou um morro pelo qual escorreu a lava ardente -todos nós teremos saudades da palmeira, da concha, da floresta, de tudo teremos saudades. Lá onde estão as cabanas dos Papalaguis, os lugares que chamam cidades, lá, no entanto, a terra está deserta tal qual uma mão vazia e, por isto, o Papalagui fica louco, imagina ser o Grande Espírito, a fim de esquecer o que não tem. Porque está muito pobre, porque a sua terra está muito triste, o Papalagui pega nas coisas, ajunta-as, feito o doido que ajunta folhas murchas e com elas enche a sua cabana. Mas é também por isto que nos inveja e deseja que fiquemos tão pobres quanto ele.

Mostra que é muito pobre aquele que precisa de coisas em quantidade porque, assim, prova que lhe faltam as coisas do Grande Espírito. O Papalagui é pobre porque é obcecado pelas coisas, sem as quais já não consegue viver. Quando do dorso da tartaruga faz uma ferramenta com que alisa os cabelos, depois de neles passar óleo, o Papalagui ainda faz uma pele para a ferramenta e para esta pele faz um pequeno baú e para o pequeno baú faz outro grande; tudo ele coloca em peles e baús. Tem baús para as tangas, para as roupas de cima e de baixo, para os panos com que se enxuga, com que limpa a boca, e outros panos mais; baús para as peles que põe nas mãos e para as peles que põe nos pés, para o metal redondo e o papel pesado, para as provisões de boca e para o livro sagrado, para tudo, para tudo mesmo. Ele faz muitas coisas quando apenas uma é suficiente, ele faz inumeráveis coisas. Se fores à cozinha do europeu, verás uma quantidade de pratos, tijelas, potes que nunca serão usados. E para cada comida há uma tanoa diferente, e mais outra para a água, para a kava européia, para o coco, para os pombos.

As cabanas européias têm tantas coisas que, mesmo se cada habitante de uma aldeia samoana enchesse suas mãos e seu braços, a aldeia inteira não bastaria para levá-las todas. Numa só cabana existem tantas coisas que a maioria dos chefes brancos precisam de muitos homens e mulheres que nada fazem senão pôr todas estas coisas nos lugares em que devem estar e limpá-las da areia que as cobre. E mesmo a taopu mais importante passa muito do seu tempo contando as muitas coisas que tem, arrumando-as, limpando-as.
Sabeis, irmãos, que não minto, que vos digo o que, em verdade vi, sem tirar, nem pôr. Podeis acreditar que existem, na Europa, homens que levam à própria fronte o cano de fogo para se matarem porque acham melhor morrer do que viver sem as coisas. Pois o Papalagui embriaga de todas as formas o seu espírito e se convence de que não pode viver sem as coisas, tal qual o homem não vive sem comida.

Foi por isto que jamais vi cabana na Europa onde pudesse deitar-me na esteira; onde alguma coisa não me impedisse de esticar os membros. Todas as coisas brilhavam como relâmpagos, todas berravam com a boca das suas cores, de tal forma que não conseguia fechar os olhos. Jamais consegui encontrar a verdadeira tranqüilidade, jamais fiquei tão desejoso de minha cabana de Samoa, onde nada mais tenho do que minhas esteiras e o rolo em que ponho a cabeça para dormir; onde nada me atinge senão o brando vento alísio do mar.

Quem poucas coisas tem julga-se pobre, sente-se triste. Não há Papalagui que cante, que seja alegre, se só tiver, como cada um de nós, apenas uma esteira e um prato. Os homens e as mulheres do mundo dos Brancos sofreriam em nossas cabanas e correriam a buscar madeira do bosque, carapaças de tartaruga, vidro, arame, pedras coloridas e muitas outras coisas; e poriam suas mãos em movimento, da manhã à noite, até que as suas casas se enchessem de coisas pequenas e grandes; coisas que se estragam com facilidade, que qualquer fogo, qualquer grande chuva tropical destrói, sempre obrigando a fazer outras novas.

Quanto mais se é europeu de verdade, de mais coisas se precisa. É por isto que as mãos do Papalagui estão sempre fazendo coisas. £ por isto que o rosto de muitos Brancos se mostra cansado e triste; é por isto que pouquíssimos dentre eles têm tempo para ver as coisas do Grande Espírito, para brincar na praça da aldeia, inventar e cantar canções alegres, dançar à claridade do sol e dar aos corpos a alegria para a qual todos fomos feitos (2).

Os Papalaguis precisam fazer coisas, precisam guardá-las. Elas se prendem e se agarram a eles como formiguinhas de areia. Os Papalaguis cometem crimes a sangue-frio para se apossarem das coisas. Guerreiam entre si, mas não é pela honra, nem para medir a sua força verdadeira; é só para ter as coisas.

No entanto, eles sabem quanto é pobre a vida deles; senão, não haveria tantos Papalaguis que são muito estimados porque passam a vida inteira mergulhando pêlos em líquidos de várias cores e com eles jogando belas imagens em esteiras brancas; copiando todas as bonitas coisas de Deus, com todas as nuances das cores, com toda a alegria sincera de que são capazes. Modelam também criaturas de barro mole, sem tanga, moças tão bonitas, com movimentos livres e tão belos quanto a taopu de Matautu ou formas de homens que brandem a clava, retesam o arco e perseguem o pombo selvagem na floresta: homens de barro para os quais o Papalagui constrói cabanas alegres, e vem gente de longe para visitá-los e apreciar sua divina beleza. Ficam todos parados olhando, embrulhados nas suas muitas tangas. Vi Papalaguis chorando de emoção ao contemplar tanta beleza, a beleza que eles mesmos perderam.

Os homens brancos gostariam de trazer para nós os seus tesouros, suas coisas, para que nós também fôssemos ricos. Estas coisas, no entanto, não são mais do que flechas envenenadas que matam aqueles em cujo peito se penduram. “Precisamos obrigá-los a ter necessidades”, ouvi da boca de certo homem que conhece a nossa terra. Necessidades, quer dizer, coisas. “Pois só assim eles terão verdadeiro gosto pelo trabalho”, disse então o homem inteligente. Queria dizer que nós também devemos pôr as nossas mãos a trabalhar, fazendo coisas; coisas para nós, sim, mas em primeiro lugar coisas para o Papalagui. Nós também devemos ficar cansados, cinzentos, curvados.

Irmãos das muitas ilhas, precisamos velar e ter juízo porque as palavras do Papalagui são doces como a banana, mas cheias de dardos escondidos, capazes de nos privar de toda luz e de toda alegria. Jamais nos esqueçamos de que só precisamos de poucas coisas além daquelas que são do Grande Espírito. Ele nos deu os olhos para ver as suas coisas; e para vê-las todas é preciso mais do que uma vida de homem. A boca do homem branco nunca disse maior inverdade do que esta: “As coisas do Grande Espírito não valem”. As coisas deles é que valem muito, é que valem mais. No entanto, as coisas dele que são tantas e tão relampejantes e cintilantes,que atraem e seduzem tanto e de tantas formas, até hoje não fizeram mais bonito o corpo do Papalagui, não lhe deram mais brilho aos olhos, não lhe fortaleceram o juízo.

Portanto, essas coisas de nada servem; o que o Papalagui diz, o que nos quer impor, é animado pelo espírito mau e seu pensamento é carregado de veneno.

Notas:
1. Recipiente de pau, com vários pés, onde se fabrica a bebida nacional.
2. As comunidades samoanas reúnem-se com muita freqüência para brincar e dançar. A dança pratica-se desde a adolescência. Cada aldeia tem suas canções e seu poeta. À tarde e à noite canta-se em todas as cabanas. É muito agradável tanto pela riqueza da língua em vogais quanto pela sensibilidade musical muito apurada dos insulares.

* * *

V
O Papalagui não tem tempo

O Papalagui gosta do metal redondo e do papel pesado; gosta de meter para dentro da barriga muitos líquidos que saem das frutas mortas, além da carne do porco e da vaca, e de outros animais horríveis; mas ele gosta, principalmente, daquilo que não se pode pegar e que, no entanto, existe: o tempo. Fala muito no tempo, diz muita tolice a respeito do tempo. Nunca existe mais tempo do que aquele que vai do nascer ao pôr do sol e, no entanto, isto nunca é suficiente para o Papalagui. O Papalagui nunca está satisfeito com o tempo que tem;e acusa o grande Espírito por não lhe ter dado mais. Chega a blasfemar contra Deus, contra a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo em pedaços cada dia que se levanta de acordo com um plano muito exato. Divide o dia tal qual um homem partiria um coco mole com uma faca em pedaços cada vez menores. Todos os pedaços têm nome: segundo, minuto, hora. O segundo é menor do que o minuto, este é menor do que a hora; juntos, minutos e segundos formam a hora e são precisos sessenta minutos e uma quantidade maior de segundos para fazer o que se chama hora.
É uma coisa complicada que nunca entendi porque me faz mal estar pensando mais do que é necessário em coisas assim pueris. Mas o Papalagui disso faz uma ciência importante: os homens, as mulheres, até as crianças que mal se têm nas pernas usam na tanga, presa a correntes grossas de metal, ou pendurada no pescoço, ou atada com tiras de couro ao pulso, certa pequena máquina, redonda, na qual lêem o tempo, leitura que não é fácil, que se ensina às crianças, aproximando-lhes do ouvido a máquina para diverti-las.
Esta máquina, fácil de carregar em dois dedos, parece-se por dentro com as máquinas que existem dentro dos grandes navios, que todos vós conheceis. Mas também existem máquinas do tempo grandes e pesadas, que se colocam dentro das cabanas, ou se suspendem bem alto para serem vistas de longe. Para indicar que passou uma parte do tempo, há do lado de fora da máquina uns pequenos dedos; ao mesmo tempo, a máquina grita e um espírito bate no ferro que está do lado de dentro. Sim, produz-se mesmo muito barulho, um grande estrondo nas cidades européias quando uma parte do tempo passa.

Ao escutar este barulho, o Papalagui queixa-se: “Que tristeza que mais uma hora tenha se passado”. O Papalagui faz, então, uma cara feia, como um homem que sofre muito; e no entanto logo depois vem outra hora novinha.
Só consigo entender isso pensando que se trata de doença grave. “O tempo voa!”; “O tempo corre feito um corcel!”; “Dêem um pouco mais de tempo”: são as queixas do Branco.

Digo que deve ser uma espécie de doença porque, supondo que o Branco queira fazer alguma coisa, que seu coração queime de desejo, por exemplo, de sair para o sol, ou passear de canoa no rio, ou namorar sua mulher, o que acontece? Ele quase sempre estraga boa parte do seu prazer pensando, obstinado: “Não tenho tempo de me divertir”. O tempo que ele tanto quer está ali, mas ele não consegue vê-lo. Fala em uma quantidade de coisas que lhe tomam o tempo, agarra-se, taciturno, queixoso, ao trabalho que não lhe dá alegria, que não o diverte, ao qual ninguém o obriga senão ele próprio. Mas, se de repente vê que tem tempo, que o tempo está ali mesmo, ou quando alguém lhe dá um tempo — os Papalaguis estão sempre dando tempo uns aos outros, é uma das ações que mais se aprecia — aí não se sente feliz, ou porque lhe falta o desejo, ou está cansado do trabalho sem alegria. E está sempre querendo fazer amanhã o que tem tempo para fazer hoje.

Certos Papalaguis dizem que nunca têm tempo: correm feito loucos de um lado para outro, como se estivessem possuídos pelo aitu; e por onde passam levam a desgraça e o pavor por terem perdido o seu tempo. É um estado horrível, esta possessão que não há médico que cure, que contagia muitos homens e os faz desgraçados.

Todo Papalagui é possuído pelo medo de perder o seu tempo. Por isso todos sabem exatamente (e não só os homens, mas as mulheres e as criancinhas), quantas vezes a lua e o sol saíram desde que, pela primeira vez, viram a grande luz. De fato, isso é tão sério que, a certos intervalos de tempo, se fazem festas com flores e comes e bebes. Muitas vezes percebi que achavam esquisito eu dizer, rindo, quando me perguntavam quantos anos tinha: “Não sei…” “Mas devias saber”. Calava-me e pensava que era melhor não saber.

Ter tantos anos significa ter vivido um número preciso de luas. É perigoso esta maneira de indagar e contar o número das luas porque assim se chega a saber quantas luas dura a vida da maior parte dos homens. Todos prestam muita atenção nisso e, passando um número muito grande de luas, dizem: “Agora, não vou demorar a morrer”. E então essas pessoas perdem a alegria e morrem mesmo dentro de pouco tempo.

Pouca gente há na Europa que tenha tempo, de fato; talvez ninguém mesmo. É por isto que quase todos levam a vida correndo com a velocidade de pedras atiradas por alguém. Quase todos andam olhando para o chão e balançando com os braços para caminhar o mais depressa possível. Se alguém os faz parar, dizem, mal-humorados: “Não me aborreças, não tenho tempo, vê se aproveitas melhor o teu.” Dá a impressão de que aquele que anda depressa vale mais e é mais valente do que aquele que anda devagar.
Vi um homem com a cabeça estourando, os olhos virados, a boca aberta feito a de um peixe agonizante, a cara passando de vermelha a verde, batendo com as mãos e os pés, porque um criado tinha chegado um pouquinho mais tarde do que prometera. Esse pouquinho era para ele um grande prejuízo, prejuízo irreparável. O criado teve de ir-se embora, o Papalagui expulsou-o e recriminou-o: “Roubaste-me tempo demais! Quem não presta atenção ao tempo não merece o tempo que tem!”

Só uma vez é que deparei com um homem que tinha muito tempo, que nunca se queixava de não tê-lo, mas era pobre, sujo, e desprezado. Os outros passavam longe dele, ninguém lhe dava importância. Não compreendi essa atitude porque ele andava sem pressa, com os olhos sorrindo, mansa, suavemente. Quando lhe falei, fez uma careta e disse, tristemente: “Nunca soube aproveitar o tempo; por isto, sou pobre, sou um bobalhão”. Tinha tempo, mas não era feliz.

O Papalagui emprega todas as forças que tem e todos os seus pensamentos tentando alongar o tempo o mais possível. Serve-se da água e do fogo, da tempestade, dos relâmpagos que brilham no céu para fazer parar o tempo. Põe rodas de ferro nos pés, dá asas às palavras que diz para ter mais tempo. Mas para que todo este  esforço?

O que é que o Papalagui faz com o tempo? Nunca compreendi bem embora pelos seus gestos e suas palavras, ele sempre tenha me dado a impressão de alguém a quem o Grande Espirito convidou para um fono.

Acho que o tempo lhe escapa tal qual a cobra na mão molhada, justamente porque o segura com força demais. O Papalagui não espera que o tempo venha até ele, mas sai ao seu alcance, sempre, sempre, com as mãos estendidas e não lhe dá descanso, não deixa que o tempo descanse ao sol. O tempo tem de estar sempre perto dele, cantando, dizendo alguma coisa. Mas o tempo é quieto, pacato, gosta de descansar, de deitar-se à vontade na esteira. O Papalagui não sabe perceber onde está o tempo, não o entende e é por isto que o maltrata com os seus costumes rudes.

Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante-se aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele. Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre Papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que, do nascer ao pôr do sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar.

* * *

VI
Deus ficou mais pobre
por causa do Papalagui

O Papalagui pensa de modo estranho e muito confuso. Está sempre pensando de que maneira uma coisa pode lhe ser útil, de que forma lhe dá algum direito. Não pensa quase nunca em todos os homens, mas num só, que é ele mesmo.

Quem diz: “Minha cabeça é minha, não é de mais ninguém”, está certo, está realmente certo, ninguém pode negar. Ninguém tem mais direito à sua própria mão do que aquele que tem a mão. Até aí dou razão ao Papalagui. Mas é que ele também diz: “A palmeira é minha”, só porque ela está na frente da sua cabana. É como se ele próprio tivesse mandado a palmeira crescer.

Mas a palmeira nunca é dele: nunca. A palmeira é a mão que Deus nos estende de sob a terra. Deus tem muitas mãos, muitas mesmo. Toda árvore, toda flor, toda grama, o mar, o céu, as nuvens que o cobrem, tudo isso são mãos de Deus. Podemos pegá-las e nos alegrar, mas não podemos dizer: “A mão de Deus é minha mão”. £ o que, no entanto, diz o Papalagui. “Lau” em nossa língua quer dizer “meu” e também “teu”; é quase a mesma coisa. Mas na língua do Papalagui quase não existem palavras que signifiquem coisas mais diversas do que “meu” e “teu”.

Meu é apenas, e nada mais, o que me pertence; teu é só, e nada mais, o que te pertence. £ por isto que o Papalagui diz de tudo quanto existe por perto da sua cabana: “É meu”. Ninguém tem direito a essas coisas, senão ele. Se fores à terra do Papalagui e alguma coisa vires, uma fruta, uma árvore, água, bosque, montinho de terra, hás de ver sempre perto alguém que diz: “Isto é meu! Não pegues no que é meu!” Mas se pegares, te chamarão gatuno, o que é uma vergonha muito grande, e só porque ousastes tocar num “meu” do teu próximo. Os amigos deles os servos dos chefes mais importantes te põem correntes, te levam para o fale pui pui (1) e serás banido pela vida inteira.

Para ninguém pegar em coisas que o outro declarou como suas, determina-se com exatidão, por meio de leis, o que pertence e o que não pertence a certa pessoa. E existem, na Europa, homens que mais não fazem do que impedir que estas leis sejam violadas, ou seja, im pedir que se tire do Papalagui aquilo que ele pegou para si. Desta forma, o Papalagui quer dar a impressão de que, realmente, garantiu um direito, como se fosse Deus quem lhe tivesse definitivamente cedido o que tem; como se, de fato, pertencesse a ele e não a Deus, a palmeira, a árvore, a flor, o mar, o céu com as suas nuvens.

O Papalagui precisa fazer leis assim e precisa ter quem lhe guarde os muitos “meus” que tem, para que aqueles que não têm nenhum ou têm pouco “meu” nada lhe tirem do seu “meu”. De fato, enquanto há muitos pegando muitas coisas para si, há também muitos que nada têm nas mãos. Nem todos sabem os segredos, os sinais misteriosos com os quais se consegue ter muitas coisas; é necessário que se tenha uma coragem especial, que nem sempre se concilia com o que chamamos “honra”. Até pode ser que aqueles que pouco têm nas mãos (porque não querem ofender a Deus, porque não lhe tiram nada) sejam os melhores de todos os Papalaguis. Mas são poucos, certamente.

Quase todos furtam de Deus sem sentir vergonha. Nem sabem fazer outra coisa. Nem sabem, muitas vezes, que estão fazendo mal porque todos fazem a mesma coisa, e nem pensam nisso, e nem se envergonham. Há uns que recebem o seu “meu” (e é muito) das mãos do pai, no momento em que nascem. Em todo caso Deus quase nada mais tem, os homens lhe tiraram quase tudo, tudo transformaram em “meu” e “teu”. Deus já não pode repartir igualmente a todos o seu Sol, que foi feito para todos, porque há uns que dele gozam mais do que os outros.

Muitas vezes, só um pequeno número de Papalaguis aproveita os belos e grandes lugares ensolarados, enquanto muitos ficam na sombra e só recebem alguns fracos raios de sol. Deus já não pode se alegrar verdadeiramente, pois já não é o mais alto álii sili (2) em sua grande casa. O Papalagui renega-o quando diz: “Isto é meu”. Mas ele não se dá conta disso, por mais que pense. Pelo contrário, declara que o que faz é honesto e justo; mas é desonesto e injusto perante Deus.

Se pensasse direito, o Papalagui saberia que coisa alguma que não sejamos capazes de segurar nos pertence; saberia que, no fundo, nada há que possamos segurar. E também veria que se Deus nos deu a sua grande casa é para que todos nela encontrassem lugar e alegria. E ela é bastante grande, tem para todos um lugarzinho claro, uma alegriazinha; para todos existe certamente onde ficar debaixo da palmeira, um lugar onde colocar os pés, onde parar. Como é que Deus havia de esquecer um dos seus filhos! E no entanto há tantos que procuram o lugarzinho que Deus lhes destinou!

O Papalagui não ouve o mandamento de Deus e se dá o direito de fazer suas próprias leis; por isto é que Deus lhe manda muitos inimigos da propriedade. Manda-lhe a umidade e o calor para destruir o seu “meu”, manda-lhe a velhice, deixa que ele se desfaça, que apodreça. E mais ainda: dá ao fogo e à tempestade o poder de destruir-lhe os tesouros. Principalmente, no entanto, põe-lhe na alma o medo, medo de perder aquilo de que se apossou. O sono do Papalagui nunca é de fato profundo: precisa estar sempre de vigília para que não lhe seja tirado, de noite, o que juntou durante o dia. O Papalagui precisa estar sempre com as mãos e o pensamento segurando o que é “meu”. E como o “meu” o atormenta, sem parar, escarnecendo-o e dizendo-lhe: “Já que me tiraste de Deus, castigo-te, mando-te todos os sofrimentos”!

Mas castigo muito pior do que o medo Deus impôs ao Papalagui.

Impôs-lhe a luta entre os que só têm um pequeno “meu”, ou nenhum, e os que se apossaram de um grande “meu”. É luta acesa, dura, que persiste dia e noite; luta que todos têm de aturar, que a todos corrói a alegria de viver. Os que têm são obrigados a dar, mas coisa alguma dão; os que nada têm querem ter, mas coisa alguma ganham. Também estes são raramente animados pelo zelo divino: é que chegaram cedo ou tarde demais para roubar, ou foram por demais inábeis, ou não tiveram oportunidade. São pouquíssimos os que pensam que Deus é quem foi roubado. E é raro ouvirem a voz do homem justo. que manda devolver tudo a Deus.

Ó irmãos, que é que pensais do homem cuja cabana é tão grande que dá para uma aldeia inteira e que não oferece ao viajante o seu teto por uma noite? Que é que pensais do homem que tem um cacho de bananas nas mãos e não dá uma só fruta a quem, faminto, ávido, lhe pede? Vejo a zanga nos vossos olhos, o maior desprezo nos vossos lábios. E vede que é isso que o Papalagui faz a todo momento. E mesmo que tenha cem esteiras nenhuma dá ao que nenhuma tem. Pelo contrário, acusa-o e censura-o por não ter. Pode estar com a cabana cheia de mantimentos até o alto, muito mais do que ele e sua aiga comem em 100 anos. Não sairá à procura dos que não têm o que comer, dos que estão pálidos de fome. E há muitos Papalaguis pálidos de fome.

A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. “São meus! Não os tereis! Jamais deles comereis!” Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui.

Também entre nós existem muitos que possuem mais do que outros. É certo também que honramos o nosso chefe que tem muitas esteiras, muitos porcos, mas é só a ele que honramos, e não às esteiras e aos porcos. Estas coisas fomos nós mesmos que lhe demos de presente, como alofa, para mostrar-lhe o nosso contentamento, para louvar a sua grande coragem, a sua grande inteligência. Mas o Papalagui o que honra são as esteiras e os porcos em quantidade que seu irmão possui; pouco lhe importa sua coragem ou sua inteligência. O irmão que não tem esteiras nem porcos poucas honras recebe, ou não recebe honra alguma.

 Como as esteiras e os porcos não vão por si mesmos à procura dos pobres e famintos, o Papalagui também não vê razão para levá-los aos seus irmãos. O que ele respeita não são os irmãos, mas sim, apenas, as esteiras e os porcos; daí porque os guarda para si. Se amasse os irmãos, se os honrasse, se não vivesse lutando com eles pelo “meu” e pelo “teu”, levar-lhes-ia as esteiras que não usasse para que eles participassem desse grande “meu”. O Papalagui daria aos irmãos a sua própria esteira em lugar de atirá-los à noite escura.

Mas o Papalagui não sabe que Deus deu a palmeira, a banana, o taro precioso, todas as aves do bosque, todos os peixes do mar, para todos nós usufruirmos e sermos felizes; para todos e não apenas para uns poucos dentre nós, enquanto outros morrem de fome e passam dificuldades. Se Deus colocou muitos bens na mão de um homem foi para que repartisse com seu irmão; senão a fruta apodrece em sua mão. Deus estende a todos os homens as muitas mãos que tem e não quer que uns tenham mais do que os outros; nem que alguns digam: “O sol é para mim; a sombra, para ti”. O sol é para todos nós.
Se tudo estiver na mão justa de Deus, não haverá luta, nem miséria. O Papalagui, este astuto, quer-nos convencer de que nada a Deus pertence; pertence a cada um aquilo que consiga segurar na mão. Tapemos os ouvidos a quem diz estas sandices e pratiquemos a boa sabedoria: “A Deus tudo pertence!”

* * *

Notas:
1 Prisão
2 Senhor
Nota do Autor: Quem sabe que os indígenas de Samoa vivem na mais completa comunidade compreenderá o desprezo com que Tuiávii fala de nossa concepção de propriedade. Não existe em Samoa, realmente, o conceito de meu e teu no sentido em que o adotamos. Em todas as viagens que fiz, os nativos sempre partilhavam comigo, de modo absolutamente natural, o teto, as esteiras, a comida: tudo. Não foram raros os casos em que ouvi de um chefe estas palavras com que logo de início me saudava: “O que é meu é também teu.” Os insulares não conhecem a noção de furto, roubo, porque tudo pertence a todos; e tudo pertence a Deus.

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